A carioca que saiu da favela e entrou na Universidade de Haia (Holanda) como professora
Nascida em uma favela de Guadalupe, na Zona Norte do Rio de Janeiro, Katharine de Oliveira Machado venceu a invisibilidade social para se tornar referência em políticas públicas na Holanda
postado em 01/02/2026 06:00 / atualizado em 01/02/2026 06:00
Katharine mora na Holanda há 14 anos - (crédito: Arquivo pessoal)
O estudo é uma bússola que guia aqueles que sonham com uma vida melhor. Uma forma, quem sabe, de quebrar as amarras da desigualdade social e encerrar frustrações hereditárias. A história de Katharine de Oliveira Machado, 37 anos, poderia ser uma dessas tantas que são interrompidas pela triste estatística em crescer em meio à comunidades onde a educação não é prioridade. Entre sonhos e realidades, a vida em Guadalupe, na Zona Norte do Rio de Janeiro, hoje é completamente diferente do que era antes.
“Desde pequena, já me destacava por ter mais interesse por ler, mais do que outras pessoas da minha família”, relembra. Assim, esse início nada fácil foi marcado pelo prazer que encontrava nos livros. No entanto, a infância de Katharine não foi marcada por brincadeiras, mas pelo trabalho precoce para ajudar no sustento do lar. “Vendi doce na rua, vendia água. Nunca tive aquela infância de poder ir para a escola, voltar e sentar na mesa para fazer o dever de casa”, conta.
Isso, de acordo com ela, era algo que fantasiava: o dia em que chegaria em casa e teria horas para se dedicar aos estudos. Hoje é professora de políticas públicas na Holanda, mas, no passado era uma jovem que sonhava com um futuro melhor e diferente de tudo aquilo que conhecia. A grande virada de chave, para ser quem é agora, começou na adolescência, quando conseguiu uma vaga de menor aprendiz em um supermercado voltado ao público de alta renda na Zona Sul.
Ali, um cliente chamado Sérgio notou seu potencial. “Ele me disse: você tem que voar mais alto. Você precisa estudar enquanto é jovem”, recorda. Assim, ao perceber que Katharine falava bem e gostava de ler, Sérgio passou a trazer livros, que na época ela lia com muita rapidez. “Aqueles minutos de conversa, todos os dias, me ajudaram a ter mais ambição”, completa.
Foi com a ajuda de pequenos livros sobre profissões, presenteados pelo cliente, que Katharine descobriu a diplomacia. O obstáculo imediato? O domínio do inglês. Sem recursos para cursos particulares, começou a estudar sozinha, usando exemplares emprestados da escola pública de seu bairro. Contudo, encontrou no acaso da vida uma chance que mudaria tudo para sempre.
Pontapé inicial
A jovem não esquece suas raízes: visita o Rio três vezes ao ano
(foto: Fotos: Arquivo pessoal)
Na comunidade onde cresceu, tudo parecia condenado a ser o que era. A desigualdade social, traço profundo desse cenário, era a única realidade que muitos dali conheceriam. Em casa, boa parte da família não havia terminado os estudos, com exceção da mãe, a única a concluir o ensino médio. O pai parou na quinta série, e a mais velha também decidiu deixar a escola. Dessa forma, cabia a Katharine usar esse contexto como combustível para criar outra perspectiva.
Aos 19 anos, encontrou no programa de Au Pair (babá no exterior) a única viabilidade financeira para sair do país. Com um investimento de apenas R$ 700 na época, embarcou para os Estados Unidos em 2009 para cuidar de cinco crianças. A ideia, naturalmente, soava promissora, já que a família que a contrataria estaria responsável por arcar com os cus- tos de sua estadia, além do salário, que era de 980 dólares por mês.
Todavia, a decisão enfrentou a resistência e o medo da família, alimentado por dramas de novelas da época sobre tráfico humano. “Meus pais tiveram muito medo, mas eu tomei a liderança, porque acreditava que o processo estava sendo feito de forma certa. Ainda bem que acreditei”, conta. Em um ano de experiência no exterior, seu inglês cresceu, abrindo as portas que tanto buscava para si.
Após esse primeiro contato com a vida internacional, como babá nos EUA, em 2009, Katharine retornou ao Rio, onde ficou por dois anos. Determinada, ingressou no curso de relações internacionais, mas precisava trabalhar para se manter. Foi funcionária da antiga TAM Airlines, atuando no embarque do Aeroporto do Galeão. “Tudo me preparou para o que faço agora, inclusive o trabalho no aeroporto, tendo que lidar com passageiros agressivos e exigentes. Me deu jogo de cintura e paciência”, reflete.
Consolidação
Nos EUA: primeira experiência no exterior, entre 2009 e 2012
(foto: Arquivo pessoal)
Em 2012, ela partiu para a Holanda para um novo intercâmbio, sem imaginar que faria do país sua morada definitiva. Lá, Katharine cursou estudos europeus (equivalente a relações internacionais) na Universidade de Haia e, em seguida, seguiu para o mestrado na Universidade de Amsterdã. Para financiar o sonho, não hesitou em pegar subempregos. “Fiz faxina, babá, todo tipo de trabalho. E, para minha surpresa, quando tive a oportunidade de me dedicar, me descobri inteligente.”
Há seis anos lecionando na Universidade de Ciências Aplicadas de Haia, Katharine é hoje especialista em políticas públicas da União Europeia. Ela conta que, mesmo após anos, mantém uma das avaliações mais altas entre os alunos. “Acho que o jogo de cintura e o fato de podermos brincar ajuda. O sistema aqui é menos rígido que no Brasil; os alunos me chamam pelo nome, e não apenas de professora”, explica.
No corpo docente, Katharine é uma figura de representatividade: a única sul-americana e uma de apenas três professores negros em sua área. Ela ensina política europeia 100% em inglês para alunos que, muitas vezes, nunca tiveram contato com realidades fora da “bolha” de seus privilégios europeus.
Katharine ao lado do marido
(foto: Arquivo pessoal)
seus privilégios europeus. “É sempre uma surpresa quando os alunos chegam e veem uma professora brasileira, negra, ensinando sobre política da União Europeia. Entendi que, para eles, é um privilégio ter aula com alguém que traz uma experiência de mundo diferente da visão branca europeia.
Quanto ao holandês, confessa que também tem muito conhecimento sobre a língua, uma vez que já são 14 anos imersa dentro da cultura. Fora do país, também encontrou o amor de sua vida — talvez até dois. Casou-se com um francês, Julien, e tem um filho de quase três anos. “Jor tem o nome em homenagem a Jorge Ben Jor, músico preferido do casal. Ele já fala três idiomas: portugês, inglês e holandês. Vai ter uma vida completamente diferente da minha.
Quebrar a estatística
Katharine e o marido, Julien, ao lado da família em Guadalupe (RJ)
(foto: Arquivo pessoal)
Apesar do sucesso, Katharine não descreve sua ascensão de forma puramente poética. Para ela, “vencer na vida” trouxe o desafio de navegar entre dois mundos sem ferir suas origens. “É duro olhar para trás e ver que está todo mundo praticamente no mesmo lugar. É duro seguir adiante e não sentir culpa, entender que você não pode levar todo mundo nesse barco com você. Ainda me sinto muito a menina da favela, e acho isso ótimo, mas é uma luta diária para que o meu crescimento não soe como uma ofensa a quem ficou”, revela.
Embora esteja há 14 anos na Holanda, ela visita o Rio de Janeiro cerca de três vezes por ano. “O choque entre os dois mundos permanece”, destaca. Entretanto, essa conexão com a raiz é inegociável. Com isso, Katharine fez questão de celebrar o primeiro aniversário do filho na comunidade. “Meu marido, se for ao Brasil, não vai ficar em Copacabana, vai ficar em Guadalupe. Ele tem que entender e valorizar de onde vim”, ressalta. Mesmo dominando várias línguas, o sotaque carioca permanece intacto, assim como a nostalgia das tardes de domingo no subúrbio.
“Sinto saudade de sentar no sofá, escutar a panela de pressão, o feijão cozinhando e o Globo Esporte na TV. Não sinto falta de algo grande, mas desse convívio, do cheiro, de conversar com os vizinhos. Sinto saudade da favela. Aqui o pessoal é mais individualista”, diz. Para a menina que vendia doces em Guadalupe e hoje explica a política europeia em Amsterdã, a maior lição foi uma frase que ela carrega como mantra: “Estuda que a vida muda”.
Como não bastasse ter mudado seu mundo inteiro, ela ainda incentiva, nas redes sociais (@katharine. machadocastro), as pessoas a estudarem e terem um futuro que não seja condenado pelas mazelas ao redor. Com 112 mil seguidores, também mostra a rotina na Europa, desmistificando o medo que muitos possuem em se jogar no exterior e como concilia família e carreira. Assim, a menina que lia livros emprestados, hoje, é uma história de vitória e inspiração.
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