Em meio a desafios estruturais e desigualdades históricas, estudantes da rede pública do Distrito Federal vêm conquistando vagas em alguns dos cursos mais concorridos do país, provando que talento, disciplina e apoio podem romper barreiras sociais. Por trás de cada aprovação, há histórias marcadas por esforço coletivo, orientação pedagógica e sonhos que resistem às estatísticas. Especialistas ouvidas pela reportagem analisam os fatores que explicam esse avanço e os obstáculos que ainda precisam ser superados.
“O primeiro desafio é o estudante acreditar que é possívelacessar a universidade pública;o segundo é ter uma estrutura nainstituição que o apoie, instrua e oacompanhe durante as três sériesdo ensino médio; e, finalmente,conseguir dedicar-se exclusivamente ao estudo, pois muitosprecisam ajudar a complementara renda familiar”, afirma SimoneGonçalves, supervisora pedagógica do CEM 03 de Taguatinga.
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Para ela, embora as políticas de cotas tenham ampliado o acesso, ainda há desigualdades significativas. “Já tivemos um avanço considerável com as cotas, mas ainda existem estudantes que não sabem como acessá-las, famílias que não conseguem orientar seus filhos e muita desinformação. Há escolas que ainda não possuem internet de qualidade, estrutura física adequada e engajamento suficiente dos profissionais da educação”, pontua.
Simone destaca que o diferencial está na combinação entre apoio familiar e disciplina. “Primeiramente, a dedicação da família na criação do jovem, valorizando a escola e seus profissionais, associada à dedicação do estudante em aprender o que lhe é oferecido e complementar essa aprendizagem com estudo organizado.” E completa: “Se apenas um fator for possível, método e disciplina serão mais significativos no resultado final, pois instrumentalizam os estudantes e os tornam mais seguros.”
Regina Cotrim, idealizadora do Projeto Nave (Núcleo de Apoio aos Vestibulandos), reforça o papel da rede de apoio. “O incentivo diário, o diálogo, o interesse pela rotina escolar e a valorização do estudo fortalecem a autoestima dos jovens e os ajudam a persistir diante das dificuldades.” Segundo ela, projetos de orientação vocacional “ajudam os estudantes a enxergar possibilidades que, muitas vezes, não fazem parte do seu horizonte imediato” e transformam a preparação acadêmica em processo de crescimento pessoal.
A professora Dione Moura, relatora da política de cotas da Universidade de Brasília (UnB) e diretora da Faculdade de Comunicação, ressalta que os resultados das escolas públicas são fruto de esforço coletivo. “São professoras e professores que tomam a carreira do estudante como missão. Mesmo em contextos de vulnerabilidade, com dificuldades de transporte e infraestrutura, a escola, articulada com a comunidade e com a universidade, consegue levar esse aluno de mãos dadas até o ensino superior.” Para ela, as cotas seguem necessárias: “Temos mais de 20 anos de experiência e encontramos egressos bem-sucedidos, mudando o próprio futuro e o de suas famílias.”
No CEM 03 de Taguatinga, o protagonismo é evidente. Em 2026, a escola superou 100 aprovações, sendo 73 na Universidade de Brasília e 27 em Institutos Federais via Sisu. Ao longo de três anos, o Nave soma mais de 340 aprovações em instituições públicas e privadas, consolidando a escola como referência na rede pública do DF.
Hermínio Joaquim Júnior, 23 anos
Hermínio estudou no CEF 2 de Planaltina e conquistou bolsa no Colégio Militar Dom Pedro II. Depois, ingressou na Epcar (Escola Preparatória de Cadetes do Ar) e no Colégio Naval, optando pela carreira militar no ensino médio.
Morador do Arapoanga, enfrentava longos deslocamentos: saía às 5h e retornava por volta das 23h. “Estudava no ônibus, lia livros e resolvia exercícios.” Pensou em desistir após reprovação inicial, mas seguiu motivado pelo desejo de mudar de vida. Mais tarde, passou em medicina na
Universidade Federal da Paraíba (UFPB), mas decidiu tentar transferência para Brasília. Conciliou faculdade integral com estudos para o vestibular da UnB. “Foi um período de muitas responsabilidades e cansaço, mas eu tinha um objetivo claro.” Hoje, afirma estar realizado na medicina da UnB e considera que as dificuldades tornaram a conquista ainda mais significativa.
Júlia Morais, 23 anos
Ex-aluna do Centro de Ensino Médio Elefante Branco (CEMEB), em Brasília, Júlia foi aprovada em três universidades federais: Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade Federal do Tocantins (UFT) e Universidade de Brasília (UnB), onde estuda atualmente.
A decisão pela Medicina se consolidou aos 15 anos, após uma conversa marcante com um médico que a fez enxergar a profissão como propósito de vida. “Eu nunca enxerguei a medicina como o curso mais concorrido, mas como o curso que fazia sentido para o meu propósito”, conta.
Após o Ensino Médio, não foi aprovada de imediato e dedicou dois anos à preparação. Durante esse período, trabalhou como jovem aprendiz na Rede SARAH de Hospitais de Reabilitação, conciliando trabalho e estudos. A maior dificuldade foi administrar o tempo e evitar comparações com colegas que tinham dedicação exclusiva e acesso a cursinhos integrais.
Júlia organizou a própria rotina de estudos, utilizando provas antigas, videoaulas e materiais gratuitos. No segundo ano, adotou uma postura mais estratégica, priorizando resolução de questões e simulados, além de cuidar da saúde mental e manter atividades físicas. Para ela, a constância e o equilíbrio emocional foram diferenciais importantes na aprovação.
Sobre a escola pública, reconhece as limitações estruturais e a falta de preparação direcionada ao vestibular, mas destaca a importância das políticas de reserva de vagas como fundamentais para garantir maior equidade no acesso às universidades federais.
Marcelo Henrique de Sousa Rodrigues, 18 anos
Aprovado em geofísica na Universidade de São Paulo (USP) , em ciência da computação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em engenharia mecatrônica na Universidade de Brasília (UnB).
Ex-aluno do CEM 03, Marcelo decidiu o curso no primeiro ano do ensino médio, após pesquisas. “O que pesou foi o interesse e a afinidade, além da noção de que eu também consigo disputar aquela vaga e passar.
Ele manteve rotina sólida de estudos, com revisões noturnas e resolução de provas antigas. Aponta como dificuldade a troca frequente de professores de física. “Nunca cheguei a pensar em desistir.” Marcelo reconhece que não precisou trabalhar e considera isso um privilégio. Destaca o apoio do Nave na inscrição, simulados e revisões.
Helena Padovani, 22 anos
Ex-aluna do Centro de Ensino em Período Integral Oséas Borges Guimarães (CEPI – OBG), em Goiânia (GO), Helena estudou toda a vida em escola pública. O sonho da Medicina surgiu ainda no 5º ano do Ensino Fundamental. “Eu basicamente só não me via fazendo nada além do que estou fazendo agora.”
Ao longo da preparação, enfrentou como maior desafio a defasagem do ensino público. Mesmo estudando em casa e buscando videoaulas, sentia que precisava construir uma base que muitos colegas já tinham consolidada.
Após concluir o Ensino Médio, fez três anos de cursinho. No primeiro ano, percebeu que precisava praticamente refazer o conteúdo do ensino médio, especialmente nas disciplinas de exatas.
Helena quase desistiu após o terceiro ano de cursinho, quando ficou por décimos da chamada regular. O incentivo da mãe foi decisivo para continuar. Durante a preparação, dedicou-se exclusivamente aos estudos, conciliando a rotina intensa de aulas e simulados com as tarefas domésticas. “Enquanto muitos estavam aprimorando o conhecimento, eu tive que construí-lo do zero.
Enzo Kauan Rodrigues, 22 anos
Ex-aluno do CED 11 de Ceilândia, Enzo optou por medicina ainda aos 11 anos, influenciado pelos pais e pelo irmão. “Eu via o estudo como a maneira de mudar a minha realidade.”
Ele enfrentou falta de professores e pouca preparação específica para vestibulares na escola. “Minha escola não contribuiu diretamente para minha aprovação; dependi muito de cursinhos on-line e presencial.” Após não passar pelo Programa de Avaliação Seriada (PAS), fez um ano de cursinho. A rotina era intensa, saía de casa às 5h50, estudava até a noite e usava bibliotecas para reforçar o conteúdo.
“Não pensei em desistir, mas cada reprovação traz desânimo.” O apoio familiar permitiu dedicação exclusiva aos estudos.
Leonardo Alves da Silva Porto, 22 anos
Ex-aluno do CEMTN/CED 104 do Recanto das Emas, Leonardo optou por prestar astronomia no último ano do ensino médio. “Sempre tive interesse em pesquisa e queria um curso de exatas que me proporcionasse isso.”
Durante a pandemia, estudou sozinho, com cursinhos on-line. A maior dificuldade foi decidir mudar de estado e enfrentar o início de uma carreira considerada elitizada. “Pensei em migrar de área, especialmente por estar longe da família”, lembra.
Ele não trabalhou formalmente, mas contou com bolsas de iniciação científica e venda de doces para complementar a renda. Reconhece o papel da escola pública no incentivo ao Programa de Avaliação Seriada (PAS) e na familiaridade com o formato das provas. “Os professores mostravam que era uma realidade acessível”, disse.
*Estagiário sob supervisão de Ana Sá
