Eu, Estudante

ECONOMIA

Matrículas de alunos nos cursos técnicos aumentam na rede pública

Crescimento de 32% nas matrículas da rede pública reforça a educação profissional como caminho para inserção no mercado. "Qualificação e treinamento provocam redução das desigualdades", destaca o economista Newton Marques

 
Em um mercado de trabalho cada vez mais exigente, dinâmico e competitivo, o ensino técnico tem se consolidado como uma das principais portas de entrada para jovens no Distrito Federal. A busca por qualificação ainda durante o ensino médio ou logo após a conclusão dessa etapa tem se intensificado, impulsionada tanto pela necessidade de inserção rápida no mercado quanto pelo desejo de independência financeira. Dados da Secretaria de Estado de Educação do DF (SEEDF) mostram que a Educação Profissional e Tecnológica (EPT) é ofertada, atualmente, em 19 instituições educacionais distribuídas em diferentes regiões administrativas. Entre 2024 e 2025, o número de matrículas registrou crescimento de quase 32%, saltando de 14.555 para 19.186 estudantes. 
Os dados do Censo Escolar 2025 mostram que o país saiu de 2,5 milhões para 3,18 milhões de matrículas de educação profissional. Em 2022, o país tinha 11% de matrículas do ensino médio com educação técnica. Em 2025, o aumento foi de 20,1%.
Leia Também:
De acordo com o gerente do Itaú Educação e Trabalho, Diogo Jamra, o aumento nas matrículas é motivo de celebração: “Esses dados nos mostram um crescimento acelerado e de forma consistente da EPT no Brasil. É uma etapa extremamente importante para a formação das juventudes, como um caminho para a inserção no mundo do trabalho de forma digna”, afirmou. “Ela não encerra a evolução educacional  do estudante, pelo contrário, impulsiona a continuar os estudos e cursar o ensino superior”, disse.   
Mais do que um diploma, a modalidade oferece formação prática e direcionada, alinhada às demandas do setor produtivo. O modelo aproxima o estudante da realidade profissional antes mesmo da graduação, possibilitando o desenvolvimento de habilidades técnicas e comportamentais valorizadas pelas empresas. Dessa forma, o ensino técnico contribui diretamente para a inserção qualificada no mercado de trabalho, além de ampliar as perspectivas de renda e mobilidade social para jovens de diferentes contextos socioeconômicos. 
Essa realidade é vivenciada por Ingrid Dantas, 18 anos, moradora de Taguatinga Norte. Vivendo com os pais, ela enfrenta, diariamente, uma rotina intensa: pega ônibus para trabalhar no Hotel Ramada Brasília, na Asa Sul, conciliando emprego e estudos. A trajetória profissional começou ainda na adolescência, quando ingressou como jovem aprendiz por meio de um curso técnico. 
“O curso me ajudou a encontrar um rumo mais cedo, porque me mostrou, na prática, como o mercado de trabalho realmente funciona. A partir disso, consegui entender melhor com o que me identifico e no que consigo me adaptar com mais facilidade”, conta. 
Foi nesse primeiro contato com o mundo corporativo que Ingrid começou a construir a trajetória profissional. Ao longo do tempo, ganhou experiência, assumiu novas responsabilidades e passou a demonstrar autonomia e compromisso, características fundamentais para sua permanência na empresa. Hoje, integra a equipe de recursos humanos do hotel, setor estratégico para a gestão de pessoas e processos internos. 
“Consegui minha primeira oportunidade praticamente com o início do curso de administração no Senac, na Asa Sul. Após cerca de uma semana de adaptação, comecei a trabalhar, de fato”, relata. 
Divulgação/ Ramada Hotel - Ingrid Dantas, 18 anos, foi jovem aprendiz e hoje trabalha como auxiliar administrativa num hotel
Além da jornada profissional, Ingrid também investe na continuidade dos estudos. Ela cursa publicidade e propaganda na UDF, conciliando as demandas acadêmicas com o trabalho. As aulas presenciais acontecem três vezes por semana, enquanto o restante da carga horária é cumprido de forma on-line, exigindo organização e disciplina. O salário conquistado por meio do emprego garante o pagamento da mensalidade da faculdade, reforçando o papel do curso técnico como ferramenta de autonomia financeira. 
“Eu mesma pago a minha faculdade com o dinheiro do meu trabalho. É um sentimento de liberdade financeira muito grande, mas, acima de tudo, é um investimento direto na Ingrid do futuro, construído com esforço e responsabilidade, mesmo sendo tão nova”, afirma. 
Histórias como a de Ingrid se repetem em diferentes regiões administrativas do DF, evidenciando o impacto social do ensino técnico. No Gama, Pedro Lucas de Oliveira, 17 anos, estudante do Centro Integrado de Ensino (Cemi), está no terceiro ano do ensino médio e em fase de conclusão do curso técnico em informática. Morador da região, ele conta que a escolha pela instituição foi motivada, inicialmente, pela busca por ensino público de qualidade, mas acabou se transformando em um projeto profissional. 
“Meu objetivo inicial era ingressar em uma boa escola pública para ter um ensino de qualidade, mas a área acabou se tornando minha vocação”, afirma. 
Segundo o coordenador do Cemi do Gama, Lafaiete Formiga, o aumento da procura pelo ensino técnico revela uma mudança significativa na forma como jovens e famílias encaram a educação e o mercado de trabalho. A formação técnica deixou de ser vista como uma alternativa secundária e passou a ocupar posição estratégica no planejamento de carreira. 
“A gente entende que o curso técnico não é o fim de uma jornada educacional, mas, sim, um acelerador de oportunidades”, avalia. 
Em Planaltina, a realidade é semelhante. Laís Silva, 20, aluna de um curso técnico na área de nutrição oferecido pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), do Instituto Federal de Brasília (IFB), no câmpus da cidade, também enxerga na qualificação profissional uma porta para o futuro. Ela sonha em atuar no setor e considera a formação técnica essencial para alcançar esse objetivo. 
“Eu comecei esse curso para poder, de fato, trabalhar na área. Sempre gostei desse ramo e agora posso ter um conhecimento técnico para seguir como uma profissão”, relata. 
Laís também projeta a continuidade dos estudos, demonstrando que a educação técnica pode funcionar como etapa inicial de uma trajetória acadêmica mais longa. “Quando eu conseguir um emprego, pretendo investir em mais estudo, quem sabe uma faculdade na mesma área”, destaca. 

Estratégico 

Para o economista Newton Marques, a educação técnica desempenha um papel estratégico no desenvolvimento econômico e social do país. Ao preparar mão de obra qualificada para setores produtivos específicos, a modalidade contribui para o aumento da produtividade e para a redução de desigualdades estruturais. 
“Toda qualificação e treinamento nos setores técnicos provocam, naturalmente, a redução das desigualdades econômicas e sociais. O fortalecimento do ensino técnico, por meio de políticas públicas, contribui diretamente para essa redistribuição”, analisa. 
Do ponto de vista das empresas, a formação técnica também se traduz em ganhos práticos e imediatos. Gestores destacam que estagiários e aprendizes oriundos desses cursos costumam chegar mais preparados para a rotina profissional, com noções básicas de organização,  responsabilidade, trabalho em equipe e postura corporativa. Essa preparação reduz o tempo de adaptação e aumenta a produtividade desde os primeiros meses.
“O aluno de um curso técnico já é preparado para uma entrevista, para a rotina do trabalho e até mesmo para os desafios do dia a dia”, afirma Amanda Gomes de Sousa, gerente administrativa que contratou Ingrid.
Educadores e gestores concordam que o ensino técnico se tornou essencial para preparar jovens não apenas para o futuro, mas também para as demandas imediatas do presente. Em um cenário de rápidas transformações tecnológicas e econômicas, a formação prática e direcionada oferece vantagens competitivas importantes. 
“O curso técnico dá autonomia e experiência prática para que o aluno consiga enfrentar os desafios exigidos pelo mercado de trabalho”, reforça Lafaiete Formiga, do Cemi do Gama. 
O crescimento expressivo nas matrículas indica que cada vez mais jovens enxergam na educação profissional uma oportunidade concreta de transformação de vida. Ao combinar formação acadêmica, experiência prática e inserção precoce no mercado, o ensino técnico se consolida como um dos principais instrumentos de mobilidade social e desenvolvimento econômico no Distrito Federal. 

Onde estudar 

Principais escolas técnicas públicas (SEEDF) 
  • CEP — Escola Técnica de Brasília (ETB): EQNP 16/20, Setor P Sul, Ceilândia
  • CEP — Escola Técnica de Ceilândia (ETC): EQNN 19/20, Ceilândia
  • CEP — Escola Técnica de Planaltina (ETP): Setor Recreativo Cultural LT S/N, Planaltina
  • CEP — Escola de Música de Brasília (CEP-EMB): SGAS 602, Asa Sul
  • Centro de Educação Profissional Articulado do Guará (CEPAG): Área Especial 02, Guará II
  • Centro Educacional 02 do Cruzeiro (CED-02): SHCES Área Especial, Cruzeiro Novo
  • Escolas Técnicas de Brazlândia e Santa Maria: cursos como Administração, Desenvolvimento de Sistemas, Gastronomia e Marketing
  • CEJAEP (Asa Sul): Centro de Educação de Jovens e Adultos e Educação Profissional de Brasília 
Cursos técnicos do IFB (2026) 
  • Campus Brasília (Asa Norte): Eventos, Finanças, Informática, Administração
  • Campus Ceilândia: Eletrônica, Segurança do Trabalho, Manutenção Automotiva, Meio Ambiente, Alimentos, Química, Agropecuária, Cozinha, Hospedagem
  • Campus Gama: Agronegócio, Logística, Química, Jovem Aprendiz, Eletromecânica
  • Campus Planaltina: Agropecuária, Meio Ambiente, Produção de Áudio e Vídeo
  • Campus Recanto das Emas: Animação, Produção de Áudio e Vídeo
  • Campus Samambaia: Controle Ambiental, Edificações, Design de Móveis
  • Campus Taguatinga: Eletromecânica, Manutenção e Suporte em Informática, Vestuário
  • Campus Riacho Fundo: Cozinha, Hospitalidade, Panificação
  • Campus São Sebastião: Administração, Desenvolvimento de Sistemas, Secretaria Escolar
  • Campus Estrutural: cursos variados nas áreas de produção e serviços 
Instituições privadas / Sistema S 
  • SENAI-DF: cursos em 19 áreas industriais
  • SENAC-DF: cursos técnicos integrados ao ensino médio, como Administração