postado em 05/04/2026 06:00 / atualizado em 05/04/2026 06:00
Antônio da Silva, do Caic de Brazlândia, é um dos finalistas do prêmio que prestigia soluções inovadoras na educação - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Três professores do DF tiveram seus projetos selecionados para a fase final da 3ª edição do Prêmio Educador Transformador, que busca transformar a educação por meio de soluções criativas e de impacto social. A competição, organizada pela Bett Brasil, Sebrae e Instituto Significare, contou com 6.639 docentes com projetos individuais ou em equipes. Apenas no DF, 235 educadores participaram desta edição do prêmio. A final está marcada para 6 de maio e contará com 148 professores de vários estados e do DF. Iniciativas propõem formas de ensino inovadoras, promovem formação profissional e defendem grupos sociais minoritários.
No rastro de Iorubá
Um dos finalistas é Antônio da Silva Santos, coordenador da escola Caic Professor Benedito Carlos de Oliveira, em Brazlândia, que resgata a metodologia de ensino do povo iorubá, grupo étnico africano que chegou ao Brasil entre os séculos XVI e XIX. Nas aulas, os alunos do 5º ano do ensino fundamental têm contato com narrativas transmitidas de forma oral pelo professor. Chamados de itans, esse conjunto de histórias compõe a mitologia iorubá e conta trajetórias dos orixás, além de ensinar valores como justiça, honestidade e respeito. Após a escuta ativa, os estudantes refletem sobre a história aprendida e, no final, reescrevem a narrativa a partir de suas próprias vivências. Além de exercitarem a capacidade de ouvir e de reter informações, os alunos também desenvolvem a habilidade de escrita e aumentam seu repertório cultural por meio das histórias.
Ao Correio, Antônio celebrou o avanço à final do prêmio, mas ressaltou que o principal valor do projeto está no impacto positivo na rotina das crianças. “ É um prêmio para uma comunidade. A felicidade não é tanto pelo prêmio, mas, sim, pelo o que ele significa para a escola”, afirma.
A eficácia da metodologia foi provada após o educador notar um aumento considerável na pontuação dos estudantes, entre abril e outubro de 2025, quando o protótipo do projeto foi aplicado nas escolas. O resultado positivo fez com que a escola ampliasse a ideia para crianças do 1º ao 5º ano do ensino fundamental, dos 6 aos 11 anos de idade.
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“O resultado disso são textos autorais, com estrutura muito clara e definida. A média de todos os meninos que participaram saíram de 3,3 e chegou a 8,1 em outubro. É um avanço muito grande em pouco tempo”, pontua.
O professor conta que dedicou boa parte da vida para se aprofundar no tema e lembrou-se de sua infância, época em que teve contato com as histórias iorubanas. “De onde eu vim, a gente mantém a tradição da nossa comunidade. Eu cresci ouvindo minha avó, minha mãe, minha tia-avó narrando os saberes das narrativas itans, que ainda são usadas na Nigéria. Eu dediquei os meus últimos 26 anos a pesquisar o tema. Por isso, resolvi desenvolver um trabalho sobre a maneira de ensinar do povo iorubá. É uma forma de manter a identidade do nosso povo”, explica.
“O que eu gosto da metodologia iorubá é que ela parte daquilo que eu acho mais natural: a fala. O primeiro movimento que nós temos é a fala. A fala é como o movimento do corpo. A fala é uma coisa viva “, pontua.
Aplicativo para o EJA
Outro projeto, destinado a alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), também pleiteia o prêmio. Com o objetivo de combater a desistência escolar tão recorrente no ensino de jovens e adultos, Elvis Vilela Rodrigues, do Recanto das Emas, idealizou um aplicativo de celular que monitora a frequência e estimula a permanência dos estudantes na escola por meio da oferta de cursos e vagas de emprego.
Concorrendo na categoria Gestão Transformadora, o professor Elvis, comemorou o avanço na seleção. “É uma modalidade de ensino que carece de muitas coisas. Então, desenvolver a ideia de um projeto destinado ao EJA é muito interessante e satisfatório”, afirma.
A ideia, surgida na pandemia da covid-19, é fruto de uma série de problemáticas identificadas pelo professor enquanto atuava como coordenador do EJA durante 13 anos. Segundo pesquisa feita pelo docente em 2020, à época, apenas 30% dos alunos trabalhavam com carteira assinada. Na avaliação dele, trabalhos informais contribuem para a desistência dos estudantes, uma vez que precisam conciliar a rotina de trabalho, sem horários definidos, com os estudos. “Durante e depois da pandemia, a gente passou a sofrer muito com o número reduzido de alunos. A maioria dos nossos alunos, de lá para cá, vêm trabalhando na informalidade. Por isso, eles acabavam faltando muito, o que levou alguns a abandonar a escola”, avalia.
Quando lançada, a plataforma virtual pretende otimizar o controle de dados referentes ao abandono, o que pode facilitar o trabalho dos educadores no mapeamento das causas e na elaboração de soluções assertivas. “Eu e os supervisores das escolas tínhamos um contato constante para fazer o controle semestral da evasão e do rendimento escolar. Era tudo feito de forma manual. Trabalhávamos com um sistema que há muito tempo era usado na Secretaria de Educação, então, a gente não tinha um acesso tão pleno ao controle de dados”, diz.
Algumas ideias do projeto vinham sendo pensadas e aplicadas de forma isolada. Elvis chegou a convidar membros de empresas locais para palestrar sobre inovação e práticas empreendedoras. Em alguns casos, as empresas dos palestrantes selecionavam estudantes para disputar uma vaga no mercado. “Eu criei, junto com o Sebrae, um curso de influenciador digital, para mirar naquilo que os alunos gostam, com foco no empreendedorismo e no mercado de trabalho.
O aplicativo busca integrar todas essas ideias de gestão, perspectiva de formação de carreira, empreendedorismo e conteúdos educacionais”, esclarece.
Um dos objetivos do projeto é estabelecer parcerias com instituições do governo, como a administrações regionais das RA’s, para viabilizar oportunidades de trabalho. “Além do contato com a administração, caso um comerciante local tenha uma vaga, ele nos avisaria para disponibilizarmos na plataforma”, afirma.
Projeto TRANSforma
Na categoria Inclusão e Sustentabilidade na Educação, Vinicius de Oliveira Mota concorre com o programa “Educação que Acolhe e TRANSforma”, projeto que cria rede de apoio para a permanência de estudantes trans em três escolas do Guará. Atualmente, sete alunos integram o grupo de ajuda mútua. Programa deve ser aplicado definitivamente nos próximos dois meses. “Foi uma surpresa muito agradável. Que bom que estão reconhecendo a escola pública”, celebra o professor.
O objetivo da iniciativa é criar um espaço seguro de acolhimento aos alunos e servir como um instrumento de voz às demandas da comunidade. “É um grupo criado com adolescentes, por adolescentes e para adolescentes. Esse é o principal foco. A partir disso, eles devem construir suas reivindicações, acolher as demandas e intervir no que for necessário. Por exemplo, se a demanda dos estudantes for sobre a capacitação dos professores, a gente vai trabalhar em cima disso. Se a demanda deles for um acolhimento psicológico individualizado, a gente também providenciar”, detalha.
A ideia do projeto surgiu após uma situação em sala de aula que motivou o educador a se aprofundar nos direitos das pessoas trans. “Vi que eu não tinha o menor conhecimento sobre isso. Fui atrás de estudar, me aproximar dos movimentos sociais, de ONGs, de familiares, para poder entender a demanda real”, revela.
Na visão do docente, estudantes trans ainda enfrentam barreiras estruturais no ambiente escolar. Entre os principais desafios, o professor destacou a dificuldade que muitos enfrentam na tentativa de conseguir um nome social, além da falta de banheiros apropriados e das discriminações recorrentes por parte de outros estudantes. “Uma das maiores dificuldades é a questão do uso do nome social. A questão do uso do banheiro é um desconforto. A escola, muitas vezes, não tem autonomia para abrir essa discussão para oferecer esse acolhimento. A gente também tem que preparar o professor para interferir diante de violências simbólicas e estruturais que estão presentes na sala de aula e tornar a escola intolerante a qualquer tipo de discriminação”, alerta o educador.
Elvis lamenta um episódio específico em que um estudante foi vítima do que chamou de “violência estrutural”, após o aluno ter o direito ao nome social negado pela escola. O professor também ressalta o papel do psicólogo escolar nesses casos. “No ano passado, eu estava numa escola de 6º ao 9º ano, e a gente recebeu um aluno no sexto ano que fez a solicitação do uso do nome social. Ver a escola negar isso para o estudante foi algo muito desconfortável. É aí onde entra o trabalho do psicólogo escolar de tentar levar a lei para que a escola não cometa esse crime”, critica.
“Eu faço esse convite aos colegas professores, aos colegas orientadores educacionais e psicólogos das escolas: que a gente se empodere desse direito, porque são estudantes nossos que estão em sofrimento”, argumenta.
Visão da diretora
“Quando a Bett vira palco disso, a gente não só dá visibilidade, mas legitima práticas que precisam ganhar escala e inspirar outros educadores. É uma construção coletiva com o Sebrae e o Instituto Significare, que trazem o olhar do empreendedorismo e ajudam a transformar ideia em ação. No fundo, a proposta do prêmio é simples e potente: fazer o educador se reconhecer como autor de soluções”, reflete Adriana Martinelli, diretora de conteúdo da Bett Brasil.
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá