Ian Vieira*
postado em 19/04/2026 06:00 / atualizado em 19/04/2026 06:00
Oficiais e praças manifestam orgulho de integrar a força naval brasileira - (crédito: Carlos Vieira CB/DA Press)
Na terceira reportagem da série do Correio, serão apresentadas as informações gerais da carreira militar na Marinha do Brasil (MB), uma das três Forças Armadas do país com a missão principal da defesa do território marítimo brasileiro, conhecido como “Amazônia Azul”, além de atuar em missões humanitárias, operações de paz e salvamento.
FORMAÇÃO DE LÍDERES DO MAR
Localizada em Angra dos Reis (RJ), a Escola Naval (EN) é considerada a principal porta de entrada para se tornar oficial da Marinha do Brasil. O militar ingressa por meio de concurso e passa por uma formação durante quatro anos, equivalente ao nível superior. Além disso, a MB possui o Colégio Naval (CN), voltado para jovens de 15 a 17 anos, que cursam o ensino médio remunerado dentro da instituição.
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Após aprovação na EN, o militar realiza o curso em regime de internato e escolhem um dos três corpos principais para o seguimento da carreira: Corpo da Armada (atuação em navios e operações navais); Corpo de Fuzileiros Navais (operações terrestres e anfíbias) ou Corpo de Intendentes da Marinha (área administrativa e logística).
O segundo-sargento João Victor Castro, 36 anos, tornou-se aviador naval da corporação. Filho de pai pedreiro e mãe dona de casa, o militar reconhece o ingresso na Marinha como um impacto crucial. “Toda a minha família me via como exemplo a ser seguido. Conheci boa parte do Brasil e tive acesso a formações e experiências que não teria se não fosse o ingresso na Força”, afirmou. “Tudo isso impactou minha vida, principalmente no que tange à ascensão financeira e social, mostrando na prática como a Marinha oferece caminhos concretos de desenvolvimento para quem decide ingressar.”
O capitão de fragata Gabriel Thomaz Moraes, 42, entrou no CN aos 16 anos. Para ele, a preparação desde o ensino médio dentro da Marinha foi essencial para se tornar militar posteriormente. “Essa fase preparatória é o alicerce para o ingresso no Corpo de Aspirantes da Escola Naval, a instituição de ensino superior mais antiga do país”
O curso da Escola Naval tem a rotina considerada uma das mais rígidas entre as carreiras militares. Durante a preparação, o militar recebe mensalmente R$ 1.574, com treinos físicos constantes, aulas acadêmicas, instruções militares e exercícios de simulações de combate no mar. Ao fim do curso, o militar se torna guarda-marinha e passa por estágio probatório de um ano, e, após esse período, é promovido a segundo-tenente.
Moraes contou que a formação militar teve um impacto profundo na vida pessoal e ampliou a forma de enxergar o mundo. “Ao longo da carreira, tive a oportunidade de conhecer mais de 25 países e vivenciar diferentes culturas, experiências que foram coroadas por momentos únicos, como a viagem de instrução ao final da Escola Naval”, disse.
O salário ao fim do estágio probatório é de R$ 8.179, com adicionais por disponibilidade, função, localidade, cursos de especialização pode chegar até R$ 10 mil. A ida para a reserva remunerada ocorre após 35 anos de serviço às Forças Armadas.
PRONTO PARA DEFENDER O BRASIL
O concurso para o Corpo de Fuzileiros Navais também é alternativa para entrar na Força. Nessa forma de ingresso, o militar realiza um treinamento intenso de 17 semanas no Rio de Janeiro ou Brasília, voltado ao combate terrestre, técnicas de guerra, operações anfíbias (mar e terra) e treinamento físico intenso.
O suboficial fuzileiro naval Robson Cunha, 50 anos, alcançou a patente máxima na carreira de praça. Com 29 anos de serviço militar, ele realizou o curso de formação de sargentos após 10 anos dentro da Marinha, que, para ele, foi um marco na trajetória. “Foi nesse momento que consolidei meu papel como líder, fortalecido pelos valores de meritocracia e isonomia que regem a Instituição”, disse.
O fuzileiro destacou a carreira militar como uma oportunidade real de crescimento aos mais jovens que desejam iniciá-la. “Ao longo da minha trajetória, tive a oportunidade de representar o Brasil em missões na Namíbia, Uruguai, Espanha, Alemanha e Emirados Árabes Unidos, sendo, inclusive, condecorado internacionalmente”, afirmou. “Meu conselho é ter disciplina nos estudos e manter um bom condicionamento físico, mas, acima de tudo, persistência”
INÍCIO DA CARREIRA NAVAL
Outra forma de entrada na MB como praça é pela Escola de Aprendizes-Marinheiros (EAM). O ingresso, também, ocorre por meio de concurso público de nível médio. O militar passa por um curso em regime de internato durante um ano e recebe treinamento militar, preparação física e instrução técnica inicial. O curso ocorre nas cidades de Vitória (ES), Olinda (PE), Fortaleza (CE) ou Florianópolis (SC). Durante a preparação, o aprendiz-marinheiro recebe salário inicial de cerca de R$ 1.400, mas após o término e a promoção a marinheiro, o valor chega a R$ 2.294,50.
Como praça, a patente máxima a ser alcançada é a de suboficial, que possui um salário de R$ 6.737. Mas, para o marinheiro continuar a progressão de carreira é necessário realizar uma formação interna na Marinha, o Curso de Aperfeiçoamento de Praças (CAP).
O Quadro Técnico de Praças da Armada (QTPA) é outro curso interno da MB, voltado a militares ingressos pela EAM. Nele, o marinheiro aprende funções técnicas para atuar dentro da corporação e é realocado. O militar pode ir para áreas como mecânica; eletrônica; sistemas navais; manutenção de equipamentos e operação de máquinas e armamentos.
MILITARES COM FORMAÇÃO ESPECÍFICA
Assim como na Força Aérea Brasileira (FAB) e no Exército Brasileiro (EB), também é possível entrar com uma formação de ensino superior, de forma fixa ou temporária. O ingresso ocorre por concurso público de conhecimento específico, para profissionais formados em áreas como medicina, odontologia, engenharia, direito, administração, informática, comunicação, entre outras. O militar ingressa como oficial, no cargo de primeiro-tenente, com salário de R$ 9.004, mas com os adicionais pode chegar até R$ 12 mil.
A capitã de corveta Laila Müller, 42, entrou como oficial por formação específica na área de comunicação social. Ela disse que, ao início do curso de preparação, que ocorre no Centro de Instrução Almirante Wandenkolk (CIAW), na Ilha das Enxadas (RJ), encontrou dificuldades por ser mulher. “Enfrentei o desafio da adaptação ao ambiente coletivo, mas encontrei uma instituição que há décadas amplia a participação feminina”, afirmou. “Nesse sentido, o que me motivou foi saber que eu integrava a Força que foi a primeira a incorporar mulheres, ainda em 1980. Essa trajetória de pioneirismo abriu caminho para que hoje pudéssemos ocupar qualquer cargo em todos os corpos e escolas da Marinha.”
O curso de formação para oficiais de formação específica dura cerca de um ano. Durante o período, os civis se tornam militares e passam por treinamentos de adaptação, disciplina militar, hierarquia, rotina naval e noções operacionais. Laila ressaltou que a transição exige resiliência. “No início, desafios como aprender a marchar, superar limites físicos no Teste de Aptidão Física (TAF) e adaptar-se ao regime de internato nos exigiram bastante preparo físico e emocional”, disse. “Considera-se ainda a distância da família, especialmente do meu marido, militar do Exército Brasileiro que na época servia em São Leopoldo (RS).
Os militares temporários não passam pelo concurso clássico e, sim, por um processo seletivo na área de atuação. O serviço ocorre por um período de tempo limitado por lei, atualmente, oito anos. A adaptação à rotina naval também se dá por um curso de preparação militar.
ALISTAMENTO MILITAR
O alistamento para o Serviço Militar Inicial Obrigatório (SMIO) é obrigação de todo cidadão brasileiro do sexo masculino no ano em que completa 18 anos, conforme determina a legislação do país. Após o alistamento, os jovens passam por um processo de seleção conduzido pela Marinha do Brasil, que avalia condições de saúde, aptidão física e disponibilidade de vagas nas organizações militares. Aqueles considerados aptos podem ser incorporados e passam por um período inicial de instrução militar básica, no qual recebem treinamento físico, noções de disciplina, ordem unida e atividades operacionais básicas voltadas ao ambiente aeronáutico.
Após a incorporação, o recruta exerce a função de soldado ou praça especial e participa das atividades rotineiras da unidade, como instruções, treinamentos e apoio às operações da instituição. O período de serviço dura 12 meses, com possibilidade de ser prorrogado em alguns casos. A remuneração inicial é de R$ 1.177 mensais, além de alimentação, fardamento e assistência médica. Ao final do período obrigatório, o militar é licenciado e pode retornar à vida civil, caso deseje. É possível seguir carreira na instituição por meio de concursos e processos seletivos internos.
PIONEIRISMO FEMININO
No primeiro semestre do ano de 2025, mais de 33 mil jovens realizaram o alistamento voluntário para o Serviço Militar Inicial Feminino para as três corporações das Forças Armadas: Exército, Marinha e Força Aérea. Em março de 2025, 1.467 mulheres foram pioneiras e ingressaram na carreira militar.
No Exército foram incorporadas 1.010 jovens, na Marinha foram 157 e na Força Aérea 300. Os serviços da primeira turma de mulheres a se alistarem voluntariamente serão recebidos em 51 municípios de 13 estados, além do Distrito Federal.
PATENTE MÁXIMA
O cargo de maior hierarquia a ser alcançado na Marinha do Brasil é o de almirante de esquadra. As promoções para chegar nessa patente se baseiam em mérito, cursos e experiência de comando. A indicação é feita pelo alto comando da corporação e aprovada pelo governo. O salário base é de R$ 13.471, mas os adicionais elevam o valor para cerca de R$ 33 mil.
ANOTE
» O concurso para do curso preparatório de aluno do Colégio Naval (CN) da Marinha está com inscrições abertas até 4 de maio. Para se candidatar, o participante deve ter 15 anos completos e menos de 18 anos em 30 de junho de 2027. Além disso, ter concluído ou estar em fase de conclusão do 9º ano do ensino fundamental. O concurso abre 156 vagas, sendo 142 para homens e 14 para mulheres. As inscrições podem ser realizadas pelo site https://www.marinha.mil.br/ sspm.
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá