Gabriela Braz
postado em 26/04/2026 06:00 / atualizado em 26/04/2026 06:00
Ludmila: Além de me ajudar a sentir menos dor, ela sempre deixava a situação mais tranquila
- (crédito: Arquivo Pessoal)
Dados da Federação Nacional de Doulas do Brasil (Fenadoulas) comprovam que a assistência dessas profissionais reduz em 26,5% as taxas de cesárea, em 30% no uso de analgesia farmacológica, além de um aumento de 40% na satisfação das gestantes com o parto. Para a presidente da Fenadoulas, Morgana Eneile, o maior obstáculo para a aprovar a lei foi a desinformação. O acesso à doulagem sempre foi visto como desnecessário, pois não se sabia como é a verdadeira atuação e benefícios das especialistas em parto, o que motivou o atraso da regulamentação da profissão. Hoje, com a lei sancionada pelo presidente Lula, a próxima meta é a disseminação dessas profissionais nos hospitais públicos para que todas as gestantes, que quiserem, possam usufruir desse serviço.
“Agora, a profissão vai crescer, e nossa preocupação é se, realmente, vai crescer com qualidade. Vamos precisar de fiscalização nos cursos de dolagem”, ressalta Morgana. A visibilidade proporcionada pela nova lei deve funcionar como uma forma de vigilância nos hospitais, não dando margem para maternidades exigirem pagamento extra para a presença da doula ou impedirem a sua entrada em ambientes hospitalares.
A Lei 15.381/2026 reconhece a profissão que garante apoio às mulheres no pré-natal, parto e pós-parto. Além de um avanço para a área da saúde, a lei é uma conquista direta às demandas históricas do movimento das mulheres, reconhecendo o papel social das doulas e o cuidado comunitário em todo o país. A medida garante a presença das doulas durante todo o trabalho de parto e no pós-parto, em hospitais públicos e privados, além do acompanhante já previsto em lei.
As doulas têm um papel fundamental para as gestantes e para o bebê. São treinadas para estarem sempre prontas a ajudar as grávidas. Elas contribuem para um parto mais humanizado, oferecem apoio físico e emocional durante o processo da gravidez. Acompanham a gestante antes do parto, entendem suas limitações e características e, com isso, criam uma atmosfera confortável para o momento de dar à luz. No pré-natal, a doula conhece a família, elabora o plano de parto e responde dúvidas com base em evidências, deixando os parentes mais tranquilos e preparados para o parto. No dia do nascimento, auxilia a gestante com exercícios de respiração, massagens e outras técnicas.
Mikaelly Cardoso, 30 anos, vai completar um ano trabalhando como doula. Seu interesse pela área surgiu depois que se tornou mãe. Em seu último parto, optou pela contratação de uma doula e notou como o andamento de sua gravidez foi mais calmo e tranquilo. Após isso, ela procurou um curso de doulagem. Para se formar, estudou como funciona o parto, a metodologia e a fisiologia das grávidas. Também teve a oportunidade de aprender a nova temática: “pré-natal emocional”, que destrincha o funcionamento da cabeça da mulher, desde a gravidez até o pós-parto.
Um dos desafios enfrentados pelas doulas é a dificuldade de ingressar nas salas de parto dos hospitais. Mikaelly desabafa: “É uma agonia. Às vezes, não conseguimos entrar, pois o hospital não deixa. Além de impedir que a gente faça nosso trabalho, essa atitude piora a ansiedade da grávida que foi acompanhada pela doula antes do parto e espera sua companhia ao dar a luz”
Pra Mikaelly a presença das doulas durante o parto diminui as chances de violência obstétrica por parte dos médicos. “A grávida que chega com uma doula, está informada, estudada, sabe o que pode ou não fazer com ela, por isso a equipe chega a ser até mais zelosa, eles não vão tentar engana-la,” diz a doula. A nova lei trouxe segurança para a atuação das doulas por todo o país. “Estamos respaldadas com essa regulamentação”, Mikaelly acrescenta.
Com 38 semanas de gestação, Ludmila Araújo decidiu contratar uma doula. Ela conta que diferentemente das experiências anteriores, onde foi proibida de entrar com o acompanhante de escolha e silenciada por médicos, a decisão de ser acompanhada pela profissional a ajudou do início ao fim. Seu parto ocorreu em casa e, após o nascimento do bebê, foram ao hospital, acompanhados pela doula. “Em todo o processo, além de me ajudar a sentir menos dor, ela me perguntava como estavam as coisas, como eu me sentia, sempre deixando a situação mais tranquila”, comenta Ludmila. Antes do grande momento, as duas elaboraram um plano de parto, contendo músicas, cheiros e até frases para serem ditas nos momentos de dores, deixando momento tão importante o mais leve possível.
*Estagiaria sob a supervisão de Ana Sá