Menos da metade (44,5%) dos brasileiros dominam tarefas digitais complexas, como o uso de inteligência artificial (IA), criação de planilhas e configuração de computadores e aplicativos. É o que mostra a pesquisa Retratos da Sociedade Brasileira: mercado de trabalho na visão da população, divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que analisa o comportamento digital da população do país.
Os dados apontam que, embora mais da metade dos brasileiros tenha um nível considerado adequado de habilidades digitais, esse domínio se concentra principalmente em tarefas simples do dia a dia, como navegar na internet ou usar aplicativos. Por outro lado, quando se trata de tarefas mais complexas, como lidar com ferramentas avançadas, inteligência artificial ou configurações técnicas, o percentual de pessoas com bom domínio cai. Para o gerente de análise econômica da CNI, Marcelo Azevedo, Confira as novas profissões o resultado evidencia que o país avança no uso básico da tecnologia, mas ainda enfrenta dificuldades na formação de competências digitais mais sofisticadas, cada vez mais exigidas no mercado de trabalho.
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Foi apresentada aos entrevistados uma lista com 16 atividades digitais, divididas em básicas e complexas. Entre as tarefas básicas, estão atividades que incluem: uso de aplicativos de mensagens, realização de transações financeiras on-line e navegação na internet. Já entre as complexas, estão tarefas avançadas, como criação de sites, uso de planilhas, configuração de sistemas ou utilização de inteligência artificial. Segundo o levantamento, pouco mais de 54% dos brasileiros apresentam domínio alto ou médio-alto de habilidades digitais, sejam básicas, sejam complexas. O domínio é maior em tarefas básica: nessas tarefas, 64,1% dos brasileiros apresentam habilidades altas ou média-altas.
Considerando apenas tarefas complexas, o percentual de pessoas com alta e média-altas habilidades cai para 44,5%. Jovens demonstram maior afinidade com tecnologias
A maturidade digital é maior entre os mais jovens. Na faixa-etária de 16 a 24 anos, 65,7% têm habilidade média-alta ou alta para lidar com tarefas complexas. Já entre aqueles entre 25 a 34 anos, o percentual diminui para 63.2%.
Entre os mais velhos, o domínio das tarefas complexas diminui. Na faixa etária de 35 a 44 anos, o percentual de participação de pessoas com média-alta ou alta habilidade em tarefas complexas cai para 53,4%. Como pessoas dessa faixa etária devem continuar no mercado de trabalho, por pelo menos mais 20 anos, os resultados sugerem que esse grupo poderá enfrentar dificuldades para alocação no mercado de trabalho em um futuro próximo, já que tarefas digitais complexas e integradas tendem a ser cada vez mais demandadas dos trabalhadores.
“Considerando que essas pessoas ainda têm uma vida laboral a ser percorrida, é necessário que elas se capacitem e se adaptem às novas tecnologias, para que elas possam continuar inseridas no mercado de trabalho cada vez mais tecnológico”, recomenda Cláudia Perdigão, especialista em políticas e indústria da CNI. Entre as pessoas de 45 a 59 anos, o número cai para 36%; no grupo de 60 anos ou mais, encolhe para 9,9%.
Novas profissões
Um levantamento do Observatório Nacional da Indústria (ONI) revela a criação de seis novas ocupações ligadas à IA, com potencial de criar, no mínimo, 4.950 oportunidades no mercado de trabalho. As funções emergentes refletem a incorporação crescente de tecnologias digitais em setores estratégicos da economia (veja no quadro abaixo quais são essas ocupações)
De acordo com Azevedo, o domínio de ferramentas de inteligência artificial pode ser um diferencial tanto em trabalhos considerados tradicionais quanto em atividades modernas. Para ele, a IA potencializa a produtividade no trabalho, o que é fundamental principalmente para a indústria brasileira. “O uso de IA pode ajudar na inserção no mercado de trabalho à medida que essas ferramentas vão sendo cada vez mais demandadas pelas empresas. Ela tem potencial de aumentar a produtividade e a qualificação do empregado. Além disso, estamos esbarrando em problemas de produtividade: a indústria brasileira, como um todo, vem crescendo muito pouco e, com a IA, há uma possibilidade de se promover um crescimento da produtividade que a economia brasileira precisa bastante”, observa.
Confira as novas profissões
» Engenheiro / Especialista em Visão Artificial com IA Embarcada:
- Nível: Superior
- Situação atual no mundo: ocupação em aceleração, fortemente associada a inspeção automatizada e robótica avançada.
- Principais tendências associadas: Vision AI, edge computing, qualidade automatizada, integração com robôs.
» Estimativa da quantidade de profissionais em:
- 5 anos: média (350–650 profissionais)
- 10 anos: alta (1.100–1.800 profissionais) A difusão é impulsionada por inspeção automatizada e integração com robôs. A demanda cresce com a padronização de plataformas e a redução da dependência de soluções altamente customizadas.
» Engenheiro de Automação Autônoma
- Nível: superior
- Situação atual no mundo: perfil experimental, restrito a empresas líderes em IA industrial e automação avançada.
- Principais tendências associadas: IA industrial, self-optimizing automation, tomada de decisão assistida por algoritmos.
» Estimativa da quantidade de profissionais em:
- 5 anos: baixa (120–250 profissionais)
- 10 anos: média (450–900 profissionais)
- Justificativa: tecnologia ainda emergente, restrita a empresas líderes. Em 10 anos, a consolidação de IA industrial eleva a demanda, mas permanece concentrada em projetos estratégicos.
» Engenheiro de Sistemas Embarcados com IA
- Nível: superior
- Situação atual no mundo: forte crescimento em automação industrial e dispositivos inteligentes.
- Principais tendências associadas: IA aplicada, DSLMs, Edge Computing, integração hardware-software.
» Estimativa da quantidade de profissionais em:
- 5 anos: média (1.200–1.800 profissionais)
- 10 anos: alta (3.000–4.500 profissionais)
- Justificativa: as tecnologias de IA embarcada e edge AI possuem forte investimento (R$ 145,9 bi previstos em IA). Além disso, verifica-se uma alta elasticidade em ambientes industriais e dispositivos inteligentes.
» Cientista de Dados para Telecom (AIOps)
- Nível: superior
- Situação atual no mundo: operadoras globais relatam grandes desafios de dados para AIOps (integração de OSS e BSS, qualidade de dados, silos), e já criam squads específicos de data science para redes.
» Estimativa da quantidade de profissionais em:
- 5 anos: baixa–média (150–400 profissionais)
- 10 anos: média (500–1.000 profissionais)
- Justificativa: A eficácia de AIOps, automação e otimização de redes 5G/FTTH depende de modelos bem treinados e dados bem curados. Isso levará operadoras e grandes ISPs a estruturar times de ciência de dados focados em redes e operações.
» Técnico em Automação Cognitiva
- Nível: técnico / tecnólogo
- Situação atual no mundo: emergente em ambientes de data center automatizado.
- Principais tendências associadas: Agentic AI, AIOps, decisão aumentada por IA.
» Estimativa da quantidade de profissionais em:
- 5 anos: média (900–1.400 profissionais)
- 10 anos: alta (2.500–3.800 profissionais)
- Justificativa: As tecnologias AIOps e automação cognitiva expandem-se com o crescimento de data centers e plataformas digitais.
» Técnico em Observabilidade
- Nível: técnico
- Situação atual no mundo: emergente em data centers, cloud híbrida e ambientes industriais distribuídos.
- Principais tendências associadas: observability + AIOps, ambientes distribuídos, produção orientada por dados.
» Estimativa da quantidade de profissionais em:
- 5 anos: média (1.000–1.600 profissionais)
- 10 anos: alta (2.800–4.000 profissionais)
- Justificativa: Os sistemas de observabilidade e SRE tornam-se padrão estrutural, com elevada elasticidade (ambientes distribuídos exigem monitoramento contínuo).
» Analista de Manutenção Preditiva
- Nível: técnico / superior
- Situação atual no mundo: perfil híbrido em crescimento, especialmente em setores de processo contínuo e manufatura avançada.
- Principais tendências associadas: IIoT, analytics industrial, IA aplicada à confiabilidade, gestão de ativos.
» Estimativa da quantidade de profissionais em:
- 5 anos: alta (900–1.500 profissionais)
- 10 anos: muito alta (2.500–4.000 profissionais)
- Justificativa: A manutenção preditiva é um dos casos de uso com melhor relação custo-benefício. A difusão ocorre rapidamente via retrofit, criando forte demanda por analistas híbridos em grande número de plantas.
» Técnico em Automação de Redes e AIOps
- Nível: técnico
- Situação atual no mundo: operadoras globais começam a adotar AIOps e automação de operações, com escassez de profissionais que combinem visão de NOC com lógica de automação e dados.
» Estimativa da quantidade de profissionais em:
- 5 anos: média (800–1.500 profissionais)
- 10 anos: alta (2.000–3.500 profissionais)
- Justificativa: A migração de operações reativas para modelos proativos/preditivos vai exigir técnicos que consigam configurar, acompanhar e “alimentar” sistemas de automação e AIOps, reduzindo MTTR e custos operacionais.
Sobre a pesquisa
Os resultados do estudo foram transformados em um indicador com escala entre 0 e 100, classificado em quatro faixas. Entre 0 e 25, habilidade baixa; entre 25 e 50, habilidade médiabaixa; entre 50 e 75, habilidade médiaalta; entre 75 e 100, habilidade alta. Os dados fazem parte de pesquisa da CNI, encomendada à Nexus, que ouviu mais de dois mil brasileiros.
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá
