Plano de carreira

Pesquisa revela que mais de 40% dos profissionais querem trocar de emprego

Estudo da plataforma de recrutamento da Catho destaca o aumento expressivo no interesse por plano de carreira e qualidade de vida

Victor Rogério*
postado em 24/05/2026 06:00 / atualizado em 24/05/2026 06:00
Estudo revela aumento expressivo no interesse por plano de carreira, qualidade de vida e ambiente saudável -  (crédito: Divulgação)
Estudo revela aumento expressivo no interesse por plano de carreira, qualidade de vida e ambiente saudável - (crédito: Divulgação)

Mais de 40% dos profissionais brasileiros planejam trocar de emprego em 2026. É o que revela a Pesquisa de Tendências da Catho, plataforma de recrutamento on-line. Para além do salário, os trabalhadores têm priorizado oportunidades que oferecem plano de carreira e bem-estar pessoal. Entre as prioridades, os dados mostram que o ganho financeiro divide o topo junto com o plano de carreira, ambos citados por 14% dos entrevistados. Logo em seguida, com 13,9%, aparecem a melhoria de benefícios e a qualidade de vida, o que inclui políticas mais justas de banco de horas. Esses fatores são seguidos pelo desejo de enfrentar novos desafios (9,9%).

Para Patricia Suzuki, diretora de RH da Redarbor Brasil, o trabalhador está cada vez mais atentoao equilíbrio entre crescimento, saúde mental e valorização, tornando isso um critério na decisão de mudar de emprego. “Esse resultado demonstra uma mudança de comportamento em relação aos anos anteriores, em que a permanência em setores tradicionais era mais comum. Agora, os profissionais estão reavaliando seu propósito profissional, estando mais dispostos a se reinventar, mesmo que isso demande um período de adaptação ou especialização. O foco está em trabalhar com algo que faça sentido e ofereça futuro”, destaca Suzuki. 
Patricia Suzuki, diretora de RH da Redarbor Brasil
Patricia Suzuki, diretora de RH da Redarbor Brasil (foto: Arquivo Pessoal)
“O que vemos é um mercado de trabalho mais dinâmico, ao mesmo tempo exigente e consciente das prioridades individuais. Acredito que a valorização da qualificação profissional torna-se o principal caminho para que os candidatos alcancem essas metas”, afirma. 
Segundo Suzuki, empresas que oferecem plano de carreira (possibilidade de avançar na hierarquia da instituição) têm mais chances de manterem seus funcionários. “O plano de carreira pode ser um fator de retenção à medida que o profissional consegue identificar a perspectiva de crescimento dentro da organização. Se o profissional enxerga essa possibilidade dentro da empresa, ele estará menos propenso a olhar para o mercado. Então, essa é uma vantagem competitiva”, conclui a diretora.

Tecnologia  

Outro ponto importante que o levantamento revelou é o crescimento da área de tecnologia. Entre as principais profissões do setor, estão desenvolvedor de software, analista de dados e especialista em segurança da informação. Atualmente, apenas 4% dos participantes trabalham no setor, mas quando o assunto é migração de carreira, o interesse por ingressar nesse mercado sobe para 11%. Os dados indicam que o maior obstáculo para a transição continua sendo a falta de qualificação e de vagas disponíveis nas áreas desejadas. De acordo com a especialista, há urgência no desenvolvimento contínuo, como investimento em cursos, certificados e experiências práticas para que o candidato esteja preparado para uma possível migração. 
Apesar do maior foco no setor tecnológico, outros campos de atuação também têm exigido conhecimentos que envolvem o uso de inteligência artificial, principalmente áreas administrativas, como vendas, logística e finanças. “Ferramentas de IA não são exclusivas para profissionais da tecnologia. Há uma demanda por IA em vários cargos distintos das empresas. A recomendação é manter-se atualizado sempre no campo de atuação”, pontua. 
Lucas Fernandes, diretor-executivo de pessoas da Caju
Lucas Fernandes, diretor-executivo de pessoas da Caju (foto: Arquivo Pessoal)
Segundo o diretor-executivo de pessoas da Caju, Lucas Fernandes, as empresas vêm exigindo, cada vez mais, habilidades, como domínio de inteligência artificial e conhecimento de dados, com o objetivo de aumentar a produtividade do funcionário. “O conhecimento de dados, por exemplo, é um ponto que vem sendo exigido de todos os profissionais. Mais recentemente, a gente começa a falar muito sobre conhecimento básico de inteligência artificial, de como compreender esses modelos de linguagem e o potencial que a IA traz para todas as funções. Independentemente de sua área, esses dois conhecimentos são muito importantes”, argumenta. 

Movimento jovem 

De acordo com Fernandes, a busca por trabalhos que proporcionam maior qualidade de vida é comum, principalmente entre jovens. Ele definiu esse movimento como “uma tendência natural” da atual geração. “É uma tendência natural as pessoas procurarem empregos melhores, comparado aos trabalhos que gerações anteriores tiveram. No Brasil, a gente ainda vive uma perspectiva de que as pessoas conseguem se ver prosperando mais do que as gerações anteriores. Então, é normal que elas busquem esses trabalhos melhor remunerados, com melhor qualidade de vida e melhor equilíbrio”, enfatiza. 

Vocação na infância 

Olívia Resende, fundadora da Germinar Educação
Olívia Resende, fundadora da Germinar Educação (foto: Arquivo Pessoal)

Em um cenário de transformações no mercado de trabalho, a construção de uma trajetória profissional mais consciente pode começar ainda na infância. Segundo a economista e pedagoga Olívia Resende, PhD em administração, esse cenário reforça a necessidade de antecipar o debate sobre carreiras profissionais. Para ela, a educação de carreira deve começar ainda na infância. “Quando a conversa sobre carreira começa cedo, a criança desenvolve uma visão mais ampla sobre trabalho, entendendo que não se trata apenas de renda, mas de propósito, estilo de vida e realização pessoal”, afirma. 
Ela argumenta que a criança é mais apta a aprender devido à neuroplasticidade da infância, período em que ocorrem mudanças estruturais e funcionais adaptativas no cérebro. “O que você quer para o futuro sempre é moldado na infância. É na primeira fase de vida que você forma valores e virtudes. Tudo acontece na infância. A neuroplasticidade na infância é maior. A criança observa tudo e analisa todos os cenários. É melhor a gente dar essa base para as crianças na infância, para que possam se tornar adultos mais resilientes e responsáveis”, afirma. 
Ainda segundo a especialista, a família desempenha um papel decisivo no processo de desenvolvimento da criança, especialmente ao criar um ambiente seguro para diálogo e experimentação. Conversas simples, adaptadas à idade, podem contribuir para que crianças e jovens desenvolvam autonomia e segurança para tomar decisões ao longo da vida. “O mais importante não é dar respostas prontas, mas fazer boas perguntas. Isso ajuda a criança a construir a própria visão sobre o que quer para o futuro”, conclui a especialista. 

Benefícios 

Thiago Cunha não tinha benefícios na antiga empresa
Thiago Cunha não tinha benefícios na antiga empresa (foto: Arquivo Pessoal)

Natural do Rio de Janeiro (RJ), Thiago Cunha, 20 anos, faz parte dos 40% de brasileiros em busca de novas oportunidades. Há três anos no campo de vendas, ele saiu de sua antiga empresa, onde trabalhava em escala 5x2 (cinco dias de trabalho e dois de folga), para trabalhar por conta própria. Mesmo com direito a plano de carreira e em uma modalidade de trabalho híbrida (em que a jornada é dividida entre atividades presenciais e remotas), a falta de benefícios motivou a decisão, como plano de saúde e vale-alimentação. “Eu estava muito sobrecarregado. Eles [a empresa] não olhavam com atenção para os funcionários. A gente sentia falta de benefícios, como plano de saúde e vale-alimentação, por exemplo. Sem vale-alimentação, eu tinha que pegar o meu salário para poder fazer as compras do mês. Às vezes, ficava doente e não tinha como recorrer a um plano de saúde”, observa. 
O jovem afirma, ainda, que benefícios são pontos importantes na vida do trabalhador. “Não é uma dor só minha. A maioria da população brasileira sente falta desses benefícios no mercado de trabalho e acredito que isso pode fazer diferença na vida de todo mundo”, finaliza.
.
. (foto: EuEstudante)
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá*  

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação