Trajetória

Quem é Adenir Carruesco, a desembargadora que concorreu à lista tríplice do TST

Filha de trabalhadores rurais analfabetos, ela chegou à presidência de um tribunal – concorreu a um dos mais altos cargos da Corte brasileira, sendo a única candidata negra.

João Pedro Resende de Carvalho
postado em 31/05/2026 06:00 / atualizado em 31/05/2026 06:00
Filha de trabalhadores rurais analfabetos do Paraná, estudou em escolas de fazendas e virou juíza  -  (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Filha de trabalhadores rurais analfabetos do Paraná, estudou em escolas de fazendas e virou juíza - (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Adenir Alves da Silva Carruesco nasceu em 19 de fevereiro de 1965, em Santa Cruz de Monte Castelo, no Paraná. Filha de Silvino e Geralda, trabalhadores das lavouras de café. Ambos analfabetos. Na última quinta-feira, aos 61 anos, disputou uma vaga no Tribunal Superior do Trabalho. Era a única mulher negra entre os 14 magistrados. O TST escolheu outros três nomes.

A mãe, que não sabia ler, escolheu o nome da filha em homenagem a uma professora que via passar carregando livros. Talvez soubesse, antes de todos, o que aquela menina seria. 
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“Ela não estava apenas escolhendo um nome. Estava fazendo um ato de fé, projetando em mim o seu maior desejo de emancipação”, conta a magistrada ao Correio. “Carrego os livros que ela não pôde ler e a voz que a história lhe negou. 
Família: Adenir e sua mãe (C), avôs maternos, avô paterno e tios
Família: Adenir e sua mãe (C), avôs maternos, avô paterno e tios (foto: Arquivo Pessoal)
A menina estudava no pasto de uma fazenda. Dividia espaço com vacas. No primeiro dia de aula, foi a pé, de chinelo de dedo novo, com um tomate embrulhado como lanche, um caderno, um lápis e a cartilha Caminho Suave. “O perfume de papel novo ainda trago na memória”, contou. 
Não havia energia elétrica em casa. Nem água encanada. A água vinha do poço, guardada em um pote de barro. “Era um tempo de espera e de sonho. Especialmente esperar pelo Natal e sonhar com o futuro. 
Os pais dispensavam a filha das tarefas domésticas para que pudesse estudar. “Sabiam que a caneta é muito mais leve e poderosa do que a enxada.” Talvez, também soubessem a dimensão do caminho que estavam abrindo. 
Antes de entrar no Judiciário, Adenir tentou uma vaga de atendente em uma agência bancária. Foi recusada devido à exigência de “boa aparência”. “Senti o peso invisível das barreiras que a sociedade ergue para corpos como o meu”, relata a desembargadora. “Transformei cada gota daquela rejeição em combustível. Entendi que a folha de prova não enxerga a cor da pele do candidato, apenas o seu conhecimento.” 
Em janeiro de 1984, aos 18 anos, tomou posse como servidora pública. Formou-se em direito em Dourados (MS). Em 1994, ingressou na Justiça do Trabalho como juíza substituta. Atuou em Alta Floresta, Primavera do Leste e Rondonópolis. Lecionou direito por 10 anos. É mestre pela Universidade Austral de Buenos Aires. 
Adenir Carruesco aos 3 anos, ao lado de sua mãe
Adenir Carruesco aos 3 anos, ao lado de sua mãe (foto: Arquivo Pessoal)
Tornou-se desembargadora em 2021 e presidiu o TRT-23 no biênio 2024/2025 — primeira mulher negra da magistratura trabalhista mato-grossense a ocupar o posto. 
O Brasil tem 18.265 magistrados. Desses, 328 — 1,8% — se declaram pretos, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O TST, em toda a sua história, teve apenas quatro ministros negros. Atualmente, nenhum é preto. Adenir disputou a vaga. Não foi escolhida. 
Sobre a candidatura, Adenir refletiu: “Para quem iniciou os estudos em uma escola rural, no pasto de uma fazenda no Paraná, o simples fato de ter a história de uma vida dedicada à magistratura trabalhista lembrada para uma cadeira nesta corte é um prêmio inestimável.” 
Quanto ao que levaria ao TST, afirmou que “a pluralidade de trajetórias e a diversidade na com posição das cortes de cúpula é um valor democrático que enriquece a prestação jurisdicional, contribuindo para que as decisões reflitam as complexas nuances sociais do Brasil” 

Um domingo qualquer  

Na solenidade de posse como juíza substituta em 1994
Na solenidade de posse como juíza substituta em 1994 (foto: Arquivo Pessoal)

No domingo, 17 de maio, dias antes da votação, a desembargadora entrou num supermercado em Cuiabá após uma caminhada. Estava de roupa esportiva, sem toga. Uma cliente a abordou entre as gôndolas. Tinha certeza de que Adenir trabalhava ali. 
“Para ela, era lógico que eu trabalhava ali e que eu estava ali para servi-la”, contou ao Correio. “Aquela senhora não estava agindo por maldade. Estava reproduzindo um vício de olhar coletivo, um viés cognitivo automático.” 
Ao chegar em casa, pegou o celular e gravou um vídeo. Não planejou a repercussão. O Brasil ouviu a frase: “Sem a toga, sou apenas mais um corpo preto que a razão brasileira insiste em enxergar como serviçal.” 
Carruesco assumiu a presidência do Coleprecor em 2025
Carruesco assumiu a presidência do Coleprecor em 2025 (foto: Arquivo Pessoal)
A desembargadora fez questão de separar a pessoa do sistema. “A raiva pessoal contra o indivíduo é estéril — esgota-se em si mesma. A indignação contra a lógica estrutural é transformadora”, explica a desembargadora, mostrando que a falsa percepção dominante é de que pessoas pretas ocupam funções de serviço e não posições de autoridade. 
Na gravação que viralizou, completou: “Preto não ocupa espaços de poder. Preto não é juiz, preto não é desembargador. Os pretos brasileiros não estão nos tribunais superiores. Basta ver. E a mulher negra, menos ainda.” Em 132 anos de STF, 171 ministros passaram pela Corte. Nenhum deles foi uma mulher negra.
Perguntada sobre o que muda quando veste a toga, respondeu: “A toga é um escudo republicano que altera a correlação de forças — obriga a sociedade a ouvir minha voz e a respeitar a autoridade que represento.”
Adenir Carruesco tomando posse como presidente do TRT 23, em 2024
Adenir Carruesco tomando posse como presidente do TRT 23, em 2024 (foto: Arquivo Pessoal)
E o que permanece? “Por baixo da seda preta da toga, pulsa o mesmo coração, a mesma história de luta e o mesmo corpo preto que, ao sair do tribunal e ao entrar em espaços públicos, sem o símbolo do cargo, volta a estar exposto aos mesmos vieses inconscientes. 
Na segunda-feira, trabalhou normalmente no gabinete em Cuiabá. Participou da sessão de julgamentos da Primeira Turma do TRT. Dois dias depois, embarcou para Brasília. 
“Transitar pelas ruas e supermercados e, logo em seguida, caminhar pelos corredores solenes dos tribunais é um exercício constante de autoconhecimento”, afirma a magistrada. 
Não é a primeira vez que Adenir disputa uma vaga em tribunal superior. Em 2023, quando Rosa Weber se aposentou do STF, o no me dela circulou como candidata. A OAB e a Câmara Municipal de Rondonópolis apoiaram a indicação. Adenir declarou que nomear uma mulher negra para o Supremo seria “um marco na história do país”. Lula escolheu Flávio Dino. 
Em outubro de 2025, inscreveu- -se em outra vaga no TST. O tribunal formou a lista tríplice em novembro — composta exclusivamente por mulheres, mas nenhuma delas negra. Adenir não foi incluída. Na última quarta-feira, tentou de novo. O resultado foi o mesmo. 
A desembargadora em evento da Vila Bela
A desembargadora em evento da Vila Bela (foto: Arquivo Pessoal)
Na presidência do TRT, criou o JAER — Justiça Ativa pela Equidade Racial —, com 30 bolsas gratuitas em curso preparatório para a magistratura trabalhista destinadas a pessoas negras. No Colégio de Presidentes e Corregedores dos Tribunais Regionais do Trabalho (Coleprecor), propôs o IPER, Indicador de Desempenho na Promoção da Equidade Racial para os tribunais do trabalho. 
Em abril de 2026, liberou o uso de banheiros femininos por pessoas transexuais no TRT. O deputado estadual Gilberto Cattani (PL) a atacou, dizendo que ela tentava “redefinir a biologia”. Adenir não respondeu. 
Em Vila Bela da Santíssima Trindade, primeira capital de Mato Grosso, foi ministrar uma palestra. Ao final, mães trouxeram as filhas para tirar uma foto com ela. As meninas disseram que não sabiam que havia uma desembargadora negra. 
“Compreendi que a representatividade não é um conceito abstrato. Ela é uma necessidade vital de sobrevivência e de projeção de futuro”, contou ao Correio. “Se elas me veem ali, passam a ter o direito de sonhar com espaços que antes lhes pareciam interditados.” 
Sobre os pais, que acompanharam a trajetória da filha, disse: “Gostaria de segurar as mãos calejadas do meu pai e olhar nos olhos marejados da minha mãe para dizer que todo o cansaço na colheita de café, toda a poeira da estrada e todas as renúncias que eles enfrentaram em silêncio deram frutos duradouros.” 
E completou: “Eles nunca souberam ler as leis dos homens, mas me ensinaram a lei mais importante de todas — a lei do respeito ao próximo e da fé no futuro. Toda a minha carreira é apenas uma forma de dizer muito obrigada.” 
O nome Adenir Alves da Silva Carruesco não está na lista tríplice. Mas é o nome que uma mãe analfabeta escolheu ao ver uma professora passar com livros nos braços — e essa história o TST não apaga. 
* Estagiário sob a supervisão de Ana Sá 

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