João Cláudio de Oliveira, 45 anos, é o único brasileiro aprovado na modalidade geral do Programa de Bolsas de Atração de Talento da Universidad de Jaén, no sul da Espanha. Com nota 9,78 em uma escala de 10, ficou na sétima melhor colocação entre mais de 1,6 mil candidaturas listadas na resolução definitiva, publicada em 28 de maio. Em 1º de outubro, ele começa o mestrado em Planejamento e Gestão Sustentável do Turismo, na cidade de Jaén, na Andaluzia — região que lidera a produção mundial de azeite.
Foi de madrugada, em uma quarta-feira de junho, que João Cláudio recebeu a notícia da aprovação. Acordou e foi conferir o celular, como fazia todos os dias havia meses, sempre sem resposta. Dessa vez, a mensagem estava na caixa de entrada, em espanhol: “Enhorabuena” — parabéns. “Eu olhei muitas vezes para afirmar, a mim mesmo, que realmente tinha sido selecionado”, conta.
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A mudança de rumo veio pelo voluntariado. Integrante da ONG Laço Branco Brasil, que atua contra a violência de gênero, ele viajou em 2022 a Camaçari (BA) para entregar brinquedotecas. Foi nessa viagem, aos 41 anos, que João Cláudio viu o mar pela primeira vez. Desembarcou à noite, ouviu o barulho vindo da praia ao lado do hotel e ficou na areia, hipnotizado pela imensidão escura, até as 3h da manhã. “Apaixonei-me pelo mar. O cheiro ainda fica na memória”, descreve. Na cidade, também conheceu Cristiane Bacelar, ex-secretária de Turismo do município, com quem fez grande amizade e que o incentivou a cursar turismo na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Aprovado no vestibular em janeiro de 2023, mudou-se para Salvador em seguida e começou as aulas em março.
Na Bahia, dividiu a primeira graduação — em Gestão do Turismo e Desenvolvimento Sustentável — com o emprego em uma empresa de gestão de resíduos industriais. No último ano do curso, decidiu tentar uma bolsa internacional. A rotina virou prova de resistência: expediente até as 21h, três a quatro vezes por semana, e estudo das 23h às 3h30. Para economizar, recorreu apenas a material gratuito — o portal do Instituto Cervantes, para o espanhol exigido na seleção; videoaulas no YouTube e cursos abertos da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre desenvolvimento sustentável. Para aliviar a pressão, ia à praia em sábados alternados e, no fone de ouvido, a Música Popular Brasileira (MPB) que a mãe escutava. “Aquele momento era meu”, diz.
Na correria para se candidatar, ele leu o edital errado e achou que havia seis vagas reservadas ao Brasil. Descobriu, depois, que essas vagas pertencem a convênios da Universidad de Jaén com a Embaixada da Espanha em outros países e que ele concorria no grupo geral, com candidatos de todos os continentes. “Se eu soubesse disso antes, talvez nem entrasse, por falta de confiança”, admite.
No destino espanhol
A bolsa, na modalidade integral conquistada por ele, cobre a matrícula no mestrado, as taxas administrativas e o seguro escolar, além de uma ajuda de custo anual de pouco mais de 3.000 euros — paga em duas parcelas, 60% no início do curso e 40% a partir de fevereiro de 2027. O valor, no entanto, não banca toda a estada na Espanha. Para complementar a renda, João Cláudio economiza há meses e poderá trabalhar até 30 horas semanais, conforme permite o visto de estudante. O pedido de visto foi protocolado em 12 de junho, com prazo de 30 dias para a resposta. Antes mesmo da confirmação da bolsa, ele havia se matriculado — “acreditando na minha bolsa, fé”, diz — e, nesta semana, recebeu o e-mail oficial para selecionar as disciplinas que vai cursar.
Hoje, a três meses do embarque, a maior dificuldade é controlar a ansiedade. “Foi um caminho muito difícil, mas valeu a pena cada sacrifício”, diz, em referência aos amigos que o apoiaram na preparação — Cristiane Bacelar, Ana Milan e Deivid Almeida.
Na Espanha, ele não estará sozinho. Por coincidência, o irmão, Pablo, vive há mais de 20 anos em Jerez de la Frontera, também na Andaluzia, a cerca de três horas de Jaén. A maior expectativa pessoal é conhecer Yael, de 12 anos — o único sobrinho que ele tem. “Quero participar da rotina dele: colégio, passeio, Natal, aniversário. Fazer- -me presente como tio.”
Para João Cláudio, a história serve de incentivo a quem acha que perdeu o trem das oportunidades. “Não tem tempo. Qualquer pessoa com dedicação, saúde, boa vontade e propósito vai conseguir chegar aonde quer chegar”, afirma.
* Estagiário sob a supervisão de Ana Sá