Temas como doenças na era digital, burnout e identidade fragmentada têm assolado cada vez mais a sociedade atual. A hiperconectividade e a busca incessante por desempenho e melhores resultados levam a população ao esgotamento físico e mental. Para tentar explicar, alertar e prevenir questões como essas, uma empresa de comunicação do Distrito Federal está apostando na criação de conteúdos sobre esses temas.
A Prodcumaru Hub Criativo promove debates entre especialistas de várias áreas para produzir séries que têm o objetivo de evidenciar e estimular uma reflexão profunda sobre um dos maiores desafios da sociedade contemporânea. Os conteúdos discutem os impactos da tecnologia, das redes sociais e da hiperconectividade na saúde mental, nos relacionamentos e no comportamento humano.
“Doenças da Era Digital” é uma das séries. Ela conta com três episódios já publicados e destaca a abordagem qualificada de questões urgentes da sociedade contemporânea, traduzindo conhecimentos científicos em uma linguagem acessível ao grande público.
Em um dos debates, a socióloga e estrategista Klivia Cosme destaca que vivemos um momento em que a tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta e passou a moldar a forma como pensamos, nos relacionamos e percebemos a nós mesmos. “As doenças da era digital não surgem da tecnologia em si, mas da maneira como nos relacionamos com ela e dos incentivos constantes à hiperconectividade, à comparação social e à busca por validação”, afirma a especialista.
De acordo com ela, as consequências já podem ser observadas no aumento da ansiedade, da depressão, da solidão, da dificuldade de concentração e do esgotamento emocional. “Por isso, acredito que a prevenção começa pela educação digital e pelo desenvolvimento de uma relação mais consciente com as telas, sem abrir mão da convivência presencial, do descanso e do autocuidado. Quando esses impactos passam a comprometer a qualidade de vida, é fundamental buscar acompanhamento profissional”, completa.
Segundo o psicoterapeuta Gabriel Graça, também debatedor na série, o fenômeno surge quando o organismo humano é forçado a operar no ritmo imediato das máquinas.
Para ele, a pressão para responder a mensagens instantaneamente e a necessidade de gerenciar o que cientistas chamam de "relações projetadas" exaurem o cérebro. Sem pistas físicas do cotidiano real — como o tom de voz, o olhar ou o tato —, a mente gasta o dobro de energia tentando adivinhar as intenções do outro por trás das telas.
“A cultura contemporânea da alta performance transformou a produtividade constante em uma espécie de fuga emocional, muitas vezes mascarando o esgotamento”, destaca o especialista. “Esse estilo de vida, somado ao consumo frenético de conteúdos rápidos nas redes sociais, vem corroendo a capacidade humana de concentração, tornando raras as leituras e as reflexões profundas”, complementa Graça.
Sobre o burnout
O cansaço crônico que não cede após o fim de semana e a sensação de que as 24 horas do dia não são suficientes tornaram-se sintomas comuns na rotina moderna. O que muitos confundem com mera estafa, no entanto, pode ser o reflexo de um colapso mais profundo. Classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um distúrbio ocupacional (CID-11), a síndrome de burnout ganhou contornos ainda mais complexos com a digitalização do trabalho: o chamado burnout digital.
O burnout não é um problema estritamente psicológico; ele cobra um preço físico altíssimo. Sob estresse crônico, o corpo entra em hipercortisolismo (excesso de cortisol no sangue). O resultado imediato desse desequilíbrio inclui insônia, lapsos de memória, hipertensão e uma severa queda no sistema imunológico. Médicos alertam que, a longo prazo, o risco de infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs) aumenta drasticamente devido a essa sobrecarga.
Quando o organismo esgota completamente sua capacidade de reagir, os níveis desse hormônio despencam, levando ao hipocortisolismo — estágio marcado por uma exaustão profunda e pela perda de perspectiva diante da vida.
“Pessoas com perfil perfeccionista e centralizador encabeçam a lista de vulnerabilidade”, afirma o psicoterapeuta. De acordo com Gabriel Graça, o problema também atinge diretamente o ambiente familiar por meio do burnout materno, em que mães se sobrecarregam na busca por uma criação perfeita, ignorando o conceito psicanalítico de que filhos precisam apenas de pais "suficientemente bons", não impecáveis.
*Tratamento e recuperação*
Especialistas são categóricos ao afirmar que uma semana de férias na praia não cura o burnout se o indivíduo retornar para a mesma rotina com a mesma mentalidade. A verdadeira recuperação exige uma mudança estrutural de hábitos, baseada em dois pilares: a desconexão programada e o resgate do lúdico.
O primeiro consiste em estipular horários fixos para checar e-mails e mensagens, quebrando o ciclo de disponibilidade integral ao longo das 24 horas do dia.
O segundo foca na prática de atividades sem qualquer finalidade produtiva ou de performance — como trabalhos manuais, quebra-cabeças, esportes por lazer ou leitura de literatura.
“Estabelecer uma fronteira clara entre as demandas da máquina e as necessidades do corpo humano deixou de ser uma meta de bem-estar para se tornar uma questão de sobrevivência clínica”, finaliza Gabriel Graça.