Salário, plano de carreira e estabilidade são atrativos para quem busca a administração pública
Para especialistas, a decisão de profissionais qualificados trocarem o setor privado pela administração pública vai além da estabilidade: é a escolha entre dois projetos de vida distintos
postado em 06/09/2026 06:00 / atualizado em 06/09/2026 06:00
Milena Alves, formada em letras, fez este ano transição de carreira e trabalha como bombeira militar - (crédito: Arquivo Pessoal)
No Distrito Federal, o movimento de transição de carreira para o serviço público se manifesta de forma acentuada. A concentração de órgãos federais e distritais cria “um ecossistema único”, diz o professor João Leles, do curso preparatório para concursos IMP. Remunerações iniciais acima da média do mercado local, planos de carreira estruturados e jornadas de trabalho bem delimitadas são atrativos para quem busca um concurso. Para ele, a estabilidade jurídica, torna a administração pública mais competitiva em comparação a outras atividades.
É o caso de Milena Alves, recém-aprovada no concurso do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul. Formada em letras pela Universidade de Brasília (UnB), ela trabalhou por sete anos no regime celetista em uma escola particular de Brasília antes de encontrar, no concurso público, o estilo de vida que buscava. “Eu sempre admirei o altruísmo de um trabalho de socorro imediato. Eu gostava de trabalhar com a educação, mas aqui estou realizada”, diz Milena. O regime celetista, no qual ela atuava, reune 48,8 milhões de trabalhadores no país em 2026, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Insegurança no setor privado
Tainá: A transição para o serviço público deve ser planejada
(foto: Tainá Freitas )
Essa instabilidade tem raízes estruturais, segundo a especialista em gestão de pessoas Tainá Freitas: “No setor privado, a trajetória não depende apenas do desempenho individual: mudanças de liderança, estratégia e orçamento também podem alterar rapidamente a perspectiva de carreira”, mostra. A tendência, segundo ela, é reforçada por transformações tecnológicas: dados do Fórum Econômico Mundial apontam que cerca de 39% das competências essenciais para o trabalho devem mudar até 2030, exigindo atualização constante dos profissionais.
O público desses cursos preparatórios é majoritariamente composto por profissionais com carreira em andamento, entre 25 e 40 anos, mas insatisfeitos com a instabilidade e a sobrecarga da iniciativa privada, relata Leles.
O perfil de quem muda a rota
Camila Rodrigues trabalhou em um escritório de contabilidade antes de tomar posse, em 2024, como analista da Secretaria de Obras do GDF
(foto: Arquivo Pessoal)
Diante desse cenário, e em busca de um clima organizacional diferente, Camila Rodrigues decidiu migrar de carreira. Formada em ciências contábeis, ela atuou por três anos em um escritório de contabilidade no setor fiscal antes de tomar posse, em 2024, como analista de políticas públicas e gestão governamental na Secretaria de Estado de Obras e Infraestrutura do Distrito Federal (SODF).
Na nova rotina, ela aproveita as habilidades do ambiente corporativo. “Acredito que a proatividade, o trabalho em equipe e o compartilhamento do conhecimento adquirido são meus aliados”, diz. Como celetista, ela também desenvolveu facilidade com planilhas e sistemas de gestão utilizados no setor público.
Para o mentor executivo Raphael Albergarias, presidente da International Project Management Association Brasil (IPMA Brasil), o movimento reflete uma mudança na forma como profissionais pensam sobre a própria trajetória. Em suas mentorias, ele percebe que gestores nem sempre estão insatisfeitos com o trabalho atual, mas estão reavaliando o que querem para o futuro. “Minha recomendação é tratar a própria carreira como um projeto: definir objetivo, horizonte, riscos, renúncias e critérios de sucesso antes de decidir. Não escolha uma carreira apenas pelo que ela oferece hoje. Escolha pelo profissional e pela pessoa que ela permitirá que você se torne amanhã”, diz.
Célio Liberato, enfermeiro do Hospital das Forças Armadas (HFA), instituição de saúde subordinada ao Ministério da Defesa, em Brasília, conduz sua carreira como um projeto estratégico na área da saúde. “A remuneração, o modelo de trabalho e a progressão de carreira, com a estabilidade do setor público, integram-se perfeitamente à minha rotina”, relata Liberato, que hoje é pai de duas meninas pequenas e concilia trabalho e dedicação à família.
Essa mudança de perspectiva também se observa nas novas gerações, que veem a carreira de forma menos linear. Elas buscam uma combinação de autonomia e crescimento com qualidade de vida. Para Freitas, a estabilidade, por si só, não é mais suficiente para reter esses jovens: “Ambientes mais digitais, lideranças abertas ao diálogo, oportunidades de crescimento e experiências de trabalho significativas são aspectos cada vez mais valorizados”, analisa.
A transição de um setor para o outro exige preparo que vai além dos livros. O primeiro desafio é comportamental: adaptar-se a uma nova cultura organizacional. Milena, por exemplo, passa por um treinamento em quartel que também inclui o funcionamento do setor público: “A princípio, além do treinamento tático, estou aprendendo sobre as decisões e os processos pautados pelo princípio da legalidade e por ritos burocráticos.” Esses princípios garantem a transparência, mas contrastam com a agilidade e a cobrança por metas do ambiente empresarial em que ela atuava antes.
Camila, que segue na área administrativa, enfrenta um desafio diferente: adaptar a bagagem do setor privado. Não existe “receita de bolo”, destaca Freitas — é preciso respeitar a missão, os princípios e a responsabilidade social da administração pública. Milena concorda: “O diferencial está justamente em utilizar essa experiência anterior, respeitando as características da administração pública.”
Transição segura
João Leles: Se o foco for estabilidade, o concurso é ideal
(foto: Arquivo Pessoal)
Para quem deseja realizar essa mudança sem coprometer a saúde financeira, os especialistas orientam: a transição deve ser tratada como um projeto estratégico.
AS PRINCIPAIS RECOMENDAÇÕES INCLUEM:
Preservar a renda inicial
Sempre que possível conciliar o trabalho atual com os estudos
Evitar deixar o emprego de forma precipitada
Fazer uma reserva financeira
Estudar a carreira, não apenas o edital
Como resume o professor João Leles:
“O candidato deve avaliar suas prioridades inegociáveis para os próximos anos. Se o foco for autonomia, estabilidade e qualidade de vida garantida por lei, o concurso é o caminho ideal.” Vale lembrar que os especialistas recomendam que o estudo e a preparação sejam feitos com método, planejamento e consciência de que se trata de uma construção diária, e não de uma aposta rápida.
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