Estudantes da Universidade de Brasília (UnB) estão desenvolvendo uma munhequeira inteligente capaz de monitorar sinais vitais e detectar quedas, com o objetivo de contribuir para a segurança de pacientes em unidades de pronto atendimento (UPAs) que recebem pulseiras para priorizar os casos mais graves — diferente da Unidade Básica de Saúde (UBS) que é por ordem de chegada — e no atendimento domiciliar. O dispositivo tem custo estimado inferior a R$ 130 e permite que profissionais de saúde e cuidadores acompanhem as informações por meio de um painel clínico digital.
A equipe conquistou o terceiro lugar na etapa classificatória da quarta edição da Bio Challenge, competição nacional de engenharia biomédica promovida pelo Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), em parceria com a Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica (SBEB). Com o resultado, os estudantes garantiram uma vaga na final e apresentaram o projeto em 1º de outubro, durante o Congresso Brasileiro de Engenharia Biomédica, em Fortaleza (CE).
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O grupo reúne estudantes de diferentes áreas: Alexandre Martins Soares, de engenharia elétrica, líder do projeto e desenvolvedor de hardware, que é toda a parte física e palpável de um sistema computacional ou dispositivo eletrônico; Filipe Bressanelli Azevedo Filho, de engenharia de software, desenvolvedor de software; Hermínio Joaquim da Silva Júnior, de medicina, responsável por pesquisa, validação e respaldo médico; e Diogo Schwartz, de engenharia elétrica, presidente do Capítulo Estudantil IEEE EMBS UnB; todos com 23 anos. A proposta surgiu a partir do desafio da competição, que tinha como tema o desenvolvimento de tecnologias voltadas à atenção primária à saúde.
Monitoramento
A ideia ganhou força durante as pesquisas sobre as dificuldades de acompanhamento de pacientes, especialmente nos períodos de espera por atendimento hospitalar. A equipe identificou relatos de pessoas que apresentaram agravamento do quadro clínico enquanto aguardavam assistência após passar pela triagem.
A classificação de risco realizada na triagem é uma etapa importante para organizar o atendimento nas unidades de urgência. No entanto, a prioridade atribuída inicialmente não elimina a possibilidade de mudanças no quadro clínico durante o período de espera. Foi a partir dessa preocupação que os estudantes passaram a investigar alternativas para acompanhar os pacientes de forma contínua.
As pulseiras convencionais de classificação de risco indicam a prioridade de atendimento, mas não acompanham, por si só, as mudanças no estado clínico do paciente. A partir dessa lacuna, os estudantes propuseram um dispositivo capaz de fornecer informações contínuas sobre as condições de quem aguarda atendimento. “A gente pensou em algo que conseguisse captar os sinais vitais em tempo real, e se o estado da pessoa se agravar, a gente consiga verificar”, explicou Alexandre.
A proposta da munhequeira é acrescentar informações à avaliação feita pelos profissionais de saúde. Com a coleta periódica de sinais vitais e a emissão de alertas, o dispositivo busca ajudar a identificar situações que mereçam uma nova avaliação da equipe.
A tecnologia, entretanto, não substitui a triagem, a avaliação médica ou a atuação dos profissionais de enfermagem. A identificação de alterações nos parâmetros funciona como um recurso complementar de monitoramento, e sua efetividade dependerá dos resultados dos testes e da integração com os protocolos de atendimento.
Além da utilização em UPAS, a tecnologia também foi pensada para o atendimento domiciliar, conhecido como home care. Nesse contexto, o monitoramento remoto poderia auxiliar cuidadores e profissionais de saúde no acompanhamento de pessoas que precisam de supervisão contínua.
Funcionamento
O dispositivo monitora a frequência cardíaca, medida em batimentos por minuto (BPM) e a saturação periférica de oxigênio (SpO2). A munhequeira também conta com um módulo formado por acelerômetro e giroscópio, componentes que permitem identificar movimentos e auxiliar na detecção de quedas.
Os dados captados pelos sensores são enviados a outro microcontrolador, responsável pelo processamento das informações. Em seguida, os resultados são disponibilizados em um dashboard, painel digital no qual o profissional responsável pode acompanhar os parâmetros do paciente.
Alexandre conta que a equipe desenvolveu o primeiro protótipo funcional e a interface para visualização dos dados. O painel clínico foi projetado para permitir o acompanhamento remoto por meio de conexão Wi-Fi, ampliando as possibilidades de utilização da tecnologia em diferentes ambientes de cuidado.
O projeto também prevê notificações relacionadas ao estado do paciente. Para desenvolvê-las, a equipe utilizou manuais internacionais como referência. Os alertas, entretanto, não têm a finalidade de estabelecer diagnósticos médicos, mas de indicar situações que podem exigir atenção.
Fase de testes
Apesar dos resultados iniciais, a munhequeira ainda não foi testada em pacientes em ambiente clínico. Até o momento, os integrantes realizaram testes em si mesmos e compararam as medições de frequência cardíaca e saturação de oxigênio com as de dispositivos disponíveis no mercado, e as diferenças observadas nas medições foram pequenas.
Os resultados, porém, são preliminares e ainda precisam ser complementados por testes mais abrangentes para avaliar a precisão e a segurança do equipamento.
A proposta reúne funcionalidades que vão além das encontradas em dispositivos convencionais de medição de BPM e SpO2, especialmente pela inclusão da detecção de quedas e do painel de acompanhamento remoto.
O baixo custo também é apontado como um dos diferenciais. O protótipo pode custar menos de R$ 130, segundo a equipe, e os estudantes avaliam que a produção em maior escala pode reduzir ainda mais o valor por unidade.
Próximos passos
Após desenvolver o protótipo funcional e apresentar o projeto na competição nacional, a equipe busca investimentos e parcerias com o setor privado para dar continuidade à pesquisa. A intenção é avançar nas etapas de desenvolvimento, realizar novas validações e avaliar as condições necessárias para uma futura produção em larga escala.
A expectativa é de que a tecnologia possa contribuir para o monitoramento de pacientes em diferentes contextos, desde unidades de pronto atendimento até o cuidado domiciliar. Antes de chegar a esses ambientes, no entanto, o equipamento ainda precisará passar por testes adicionais e pelas avaliações necessárias para demonstrar sua confiabilidade e viabilidade de uso clínico.
*Estagiária sob a supervisão de Ana Sá
