Marcos Raggazzi*
O Dia do Vestibulando (24 de maio) é uma oportunidade simbólica para olhar com mais cuidado para quem está no centro de todo esse processo: o jovem que se prepara para dar um próximo passo acadêmico e profissional. Ao acompanhar estudantes e pesquisas de mercado, é perceptível como a Geração Z está ressignificando o vestibular e a própria ideia de carreira.
Se, para muitas famílias, o vestibular ainda é “a prova da vida”, para os jovens de hoje ele tem se tornado menos um veredito definitivo e mais uma etapa importante de um projeto de vida em construção. Essa geração cresceu em um mundo marcado por crises sucessivas, avanços tecnológicos acelerados e debates intensos sobre desigualdade, clima e saúde mental. Não surpreende que, nas pesquisas recentes, propósito, valores e qualidade de vida apareçam ao lado de salário e estabilidade como critérios na escolha profissional.
Ao mesmo tempo, é uma geração mais consciente do peso emocional desse percurso. Ansiedade, comparação nas redes sociais e medo de “ficar para trás” aos 17 ou 18 anos, são temas recorrentes nas conversas com nossos estudantes. O desafio das instituições de ensino e famílias não é apenas minimizar esse sofrimento, mas acolhê-lo e transformá-lo em ponto de partida para um acompanhamento mais humano e estruturado.
Nas melhores práticas educacionais, isso significa tratar a etapa do vestibular não como um evento isolado, mas como parte de um caminho de formação integral. É essencial trabalhar com o conceito de projeto de vida para cada fase da educação, desde as séries anteriores ao Ensino Médio, articulando três dimensões: autoconhecimento, exploração do mundo do trabalho e desenvolvimento de competências socioemocionais. Em vez de oferecer apenas listas de cursos e notas de corte, criamos espaços de reflexão sobre interesses, valores, estilo de vida desejado e impacto social que o estudante pretende gerar.
Também é papel da escola mediar expectativas. Medicina e Direito são cursos muito desejados, em grande parte pelo prestígio histórico e pela percepção de segurança financeira que proporcionam. Entretanto, pesquisas nacionais mostram o aumento do interesse da Geração Z por áreas ligadas à tecnologia, empreendedorismo e impacto social, e que muitos jovens desejam, no médio prazo, ter o próprio negócio ou atuar em organizações alinhadas aos seus valores.
Outro ponto é a cultura de cuidado. Resiliência não pode ser confundida com suportar carga de estudos a qualquer custo. A preparação para o vestibular inclui rotina consistente, sono adequado, pausas, práticas de esportes, lazer e apoio psicológico quando necessário. Programas de orientação vocacional, acompanhamento pedagógico próximo, simulados com devolutiva qualitativa e ações de bem-estar são parte do compromisso com o desenvolvimento saudável.
* Diretor Executivo das Unidades Escolares do Bernoulli Educação