*Por Alice Ferreira e Ana Bispo Calisto
Não é segredo que entrar no curso de medicina exige muita dedicação, mas no município de Nilo Peçanha, interior da Bahia, uma estudante mostrou que tudo é possível. Miriele Ferreira, 29 anos, conta que todas as mulheres da família são marisqueiras (profissionais que trabalham com pesca de mariscos). “Minha motivação foi sair da realidade onde eu estava”, conta. Ela afirma que queria quebrar o ciclo.
Miriele conciliava o curso técnico de enfermagem e o cursinho “bem baratinho” que comprou para auxiliar nos estudos para a prova do Enem. “Foi bem complicado, porque eu tinha meus afazeres durante o dia e estudava durante a noite no técnico de enfermagem, e arrumava tempo para poder fazer esse cursinho.” Ela conta também que suas expectativas para a aprovação eram baixas e que não acreditou que conseguiria passar, pois não estudava há 10 anos e voltou com os estudos em 2024, especificamente para o vestibular.
A gente chorou, pulou, gritou de felicidade. Foi uma conquista não só minha, mas da minha família inteira”, disse, lembrando-se do dia em que recebeu o resultado. Mas os desafios não desapareceram com a aprovação. Quando foi aprovada na faculdade Atenas, em 2025, para o curso de medicina faltavam três meses para concluir o curso de técnico em enfermagem. “Foi bem complicado, mas eu consegui conciliar e terminar. Hoje, tenho o meu Coren ativo, posso trabalhar em qualquer instituição”, conta.
Desafios e motivações
Desde o início da graduação, Miriele faz o máximo para conseguir conciliar a rotina, os estudos e seguir com o sonho de ser médica. “A rotina é um pouco complicada, porque eu não estou presente em casa todos os dias, e eu saio cedo, chego tarde em casa e, muitas vezes, eu saio e minhas filhas estão dormindo. Chego, elas estão dormindo. Então, é bem complicado. Antes, eu tinha tempo de estar em casa, era tudo organizado, tudo no horário certo.”
A mudança de rotina afetou diretamente Miriele, que mesmo há quase um ano e meio na faculdade, ainda enfrenta dificuldades devido ao horário das aulas e ao tempo que leva para chegar a Valença, a cidade vizinha que fica há 28 quilômetros de Nilo Peçanha. O trajeto até a faculdade leva cerca de 42 minutos para quem vai de carro, o que não é o caso “Eu me desloco para a faculdade com o transporte escolar que também leva outras alunas para outras instituições. Explica que acorda 4h30 todos os dias para chegar às 8h, início da primeira aula. “Dificulta bastante, porque eu acordo muito cedo, chego tarde em casa. Isso dificulta no tempo livre que eu tenho para estudar, porque esse horário que eu acordo é muito cedo. Eu poderia estar estudando ou fazendo academia para cuidar da saúde.”
Mas todo esse esforço, segundo a estudante, vale a pena. A conquista representou não apenas a entrada em um curso universitário, mas também a quebra de uma trajetória familiar. Primeira pessoa da família a chegar à faculdade, Miriele vê na própria história a possibilidade de abrir caminho para as próximas gerações. “Sou a primeira pessoa da minha família a frequentar a faculdade. Venho de uma família pobre, marisqueiras e pescadores que não tiveram muita oportunidade na vida. A oportunidade que tiveram foi de trabalhar pra ter o básico do básico, né? Então, eu fui a primeira, e creio que não serei a última; virão muitos outros médicos, enfermeiros, administradores. Eu creio que eu não serei a única.”
*Estagiárias sob a supervisão de Ana Sá