Fala do presidente Luíz Inácio Lula da Silva (PT) sobre garis é tirada de contexto em publicações no X e no Instagram. Juntas, as postagens somam quase 2 milhões de visualizações. Os perfis citam trechos de uma declaração de Lula durante um evento em Belo Horizonte (MG), e insinuam que, na ocasião, ele teria menosprezado ou ofendido a categoria.
Apesar das postagens verificadas alegarem que houve um movimento nacional liderado pela categoria dos garis para deixar de recolher lixo de residências com bandeiras ou fotos do presidente Lula, o Comprova não identificou registros ou menções que confirmem a existência da suposta mobilização.
O que Lula declarou de fato a respeito dos garis
Durante o Ato Nacional Mulheres com Lula, realizado no dia 29 de agosto, em BH, Lula discursou sobre a importância de buscar oportunidades de estudos para entrar no mercado de trabalho e afirmou: ‘Tudo na vida é uma questão da gente descobrir o potencial da gente. Quando eu passo na rua e eu vejo aquelas pessoas que trabalham colhendo lixo, é uma profissão muito pobre, porque não é uma profissão que dá orgulho. ‘Eu sou lixeiro’. O cara tem orgulho de falar ‘Eu sou engenheiro, eu sou médico’, mas lixeiro é uma coisa pobre de quem não pode estudar”.
No entanto, a gravação que circula nas redes sociais destaca apenas o trecho em que ele afirma que a coleta de lixo é uma profissão muito pobre e que não traz orgulho, omitindo a continuação da fala. Na sequência, o presidente afirmou que os trabalhadores de limpeza urbana exercem uma função essencial para a sociedade.
“Eu fico pensando se aquelas pessoas, que fazem a limpeza na rua, soubessem a importância do trabalho deles, se eles soubessem que se eles não tirarem lixo durante uma semana, as pessoas que não enxergam ele durante o dia inteiro vão passar a enxergar, a gente começa a mudar”, disse Lula.
Procurada pelo Comprova, a Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República orientou que a demanda fosse direcionada à assessoria da campanha de Lula. Em nota, o PT repudiou o uso de declarações do presidente “de forma distorcida e fora de contexto para desinformar” e informou que avalia medidas jurídicas cabíveis. A sigla sustentou que o conteúdo divulgado omitiu propositalmente o trecho em que o candidato elogia a categoria dos garis, qualificando a distorção como “desonesta e manipuladora”.
Veja as táticas de persuasão usadas nos posts
- Apelo emocional: as publicações usam termos com forte carga emocional, como “fala preconceituosa”, para provocar indignação e estimular uma reação imediata do público.
- Enquadramento (framing): os títulos apresentam o episódio a partir de uma interpretação específica sobre uma reação dos garis, “prometem não recolher mais lixo”, e na associação com Lula e o PT, direcionando a leitura do acontecimento antes mesmo de o leitor conhecer o contexto.
- Ênfase visual: em uma das postagens, a palavra “não” aparece destacada em amarelo, assim como “recolher mais lixo em casas com bandeira de Lula ou do PT”. Isso faz com que a mensagem principal seja percebida rapidamente, mesmo por quem não leia o restante.
- Polarização política: as publicações associam diretamente a situação a “Lula” e “PT” e um suposto preconceito com a profissão de coletor de lixo, o que estimula uma reação de grupos favoráveis ou contrários ao presidente.
- Generalização/representatividade: a imagem e o texto apresentam a reação atribuída aos garis como elemento central da narrativa. Isso pode levar o leitor a interpretar a situação como uma reação coletiva, dependendo de como a informação original é apresentada.
- Apelo à indignação: a combinação entre trabalhadores da limpeza, uma suposta fala preconceituosa e símbolos partidários cria uma narrativa de conflito social e político, o que aumenta o potencial de compartilhamento.
Fontes consultadas: O Comprova fez uso de ferramentas de busca reversa para encontrar registros sobre movimentos da categoria dos garis, assim como o vídeo original do Ato Nacional Mulheres com Lula, em Belo Horizonte, em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou na ocasião.
Por que o Comprova contextualizou este assunto: o Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está sendo descontextualizado, o Comprova coloca o assunto em contexto. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Para se aprofundar mais: o Estadão Verifica já havia feito uma checagem semelhante sobre o assunto e concluído que estava fora de contexto. O UOL também fez a verificação dos posts enganosos que circulavam em redes sociais reproduzindo o discurso de Lula.
Saiba Mais
-
Holofote Jornal Nacional não anunciou pedido de prisão preventiva contra Moraes; vídeo usa deepfake
-
Holofote Golpe conhecido como sequestro de reservas usa informações verdadeiras de hóspedes para obter dados bancários
-
Holofote Vídeo em que Lula diz que povo vai voltar a comer picanha é de 2025 e não tem relação com o cenário atual
Procurada pelo Comprova, a Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República orientou que a demanda fosse direcionada à assessoria da campanha de Lula. Em nota, o PT repudiou o uso de declarações do presidente “de forma distorcida e fora de contexto para desinformar” e informou que avalia medidas jurídicas cabíveis. A sigla sustentou que o conteúdo divulgado omitiu propositalmente o trecho em que o candidato elogia a categoria dos garis, qualificando a distorção como “desonesta e manipuladora”
