ESTADOS UNIDOS

Mulher, negra e filha de jamaicano: senadora será a vice da chapa de Biden

Candidato democrata à Casa Branca oficializa o nome de ex-adversária para compor a chapa na disputa contra o presidente republicano Donald Trump, em 3 de novembro. Anúncio ocorre a uma semana da convenção do partido de oposição

Rodrigo Craveiro
postado em 12/08/2020 06:00
 (foto: Jeff Kowalsky/AFP)
(foto: Jeff Kowalsky/AFP)

Mulher, negra, filha de um jamaicano e de uma indiana, advogada, senadora dos Estados Unidos pela Califórnia. Kamala Devi Harris, 55 anos, é a escolhida como vice da chapa democrata pelo ex-vice-presidente Joe Biden. “Eu tenho a grande honra de anunciar que escolhi Kamala Harris — uma intrépida lutadora a favor dos mais fracos e uma das melhores servidoras públicas deste país — como minha companheira de chapa”, afirmou Biden em seu perfil no Twitter, às 17h15 de ontem (hora de Brasília). “Na época em que Kamala era procuradora-geral, trabalhou em estreita colaboração com Beau (filho de Joe Biden, que morreu de câncer, em 2015). Vi como ambos atacavam os grandes bancos, levantavam-se pelos trabalhadores e protegiam mulheres e crianças de abusos.”

Menos de uma hora depois, Kamala respondeu na mesma rede social. “Joe Biden pode unificar o povo americano, pois passou sua vida lutando por nós. Como presidente, ele construirá uma América à altura de nossos ideais”, declarou a senadora, que foi adversária de Biden nas primárias e torna-se a terceira mulher escolhida a disputar o posto de vice. “Eu estou honrada em unir-me a ele como candidata a vice-presidente do nosso partido. Farei o necessário para torná-lo nosso comandante-em-chefe.” O anúncio de Biden ocorreu exatamente uma semana antes da Convenção Nacional Democrata, que ocorrerá em Milwaukee e terá duração de cinco dias. Adam Schulz, fotógrafo de Biden, publicou no Twitter a imagem do democrata dando a notícia a uma sorridente Kamala. De acordo com a rede de TV CNN, a videoconferência foi feita 90 minutos antes da divulgação do nome da senadora.

Insulto

O presidente Donald Trump não perdeu tempo. Em entrevista à rádio Fox Sports, na manhã de ontem, ele advertiu que os homens poderiam se sentir “insultados” pela promessa de Joe Biden de escolher uma mulher. “Algumas pessoas diriam que os homens se sentem insultados por isso e outras pessoas acham que está tudo bem”, afirmou o republicano.


Após o anúncio de Biden, Trump foi questionado sobre a escolha, durante briefing na Casa Branca. “Ela mente, diz coisas que não são verdadeiras. (…) Ela é contra produtos do petróleo e é a favor de socializar a medicina. (…) Ela era minha escolha número um. (…) Ele saiu-se muito mal nas primárias, como vocês sabem. Esperava-se que ela saísse bem. Acabou ficando com cerca de 2% e gastando muito dinheiro. (…) Eu fiquei pouco supreso por ele (Biden) tê-la escolhido. Mais do que tudo porque ela teve um desempenho muito ruim.”


Enquanto o magnata falava a jornalistas, um vídeo de campanha do Partido Republicano tratava de desqualificar a imagem de Kamala no Twitter, ao afirmar que o nome dela foi escolhido por pressão da esquerda radical. A peça publicitária destacou que a senadora defendeu a criação de trilhões de dólares em impostos, atacou Biden por “políticas racistas”. “O lento Joe e a falsa Kamala são perfeitos, juntos. Errado para os Estados Unidos”, finaliza o texto que acompanha o vídeo.


O senador Bernie Sanders, derrotado por Biden nas primárias do partido, parabenizou a colega. “Kamala Harris fará história como nossa próxima vice-presidente. Ela entende o que é preciso para defender os trabalhadores, lutar pela saúde de todos e derrubar o governo mais corrupto da história. Vamos trabalhar e vencer”, prometeu.


Allan Lichtman, especialista em história política pela American University (em Washington), disse ao Correio que o nome de Kamala não estava entre os seus favoritos. “No entanto, é uma escolha muito importante, pois Biden terá 78 anos quando chegar à Casa Branca e pode muito bem ser presidente por um único mandato”, avaliou. “Harris, provavelmente, será a favorita para uma futura indicação democrata. Ela é eminentemente qualificada, por ter servido como procuradora-geral do maior estado da nação e como senadora dos EUA.” Segundo Lichtman, na condição de congressista, Kamala destacou-se como debatedora perspicaz e funcionária pública bem informada. “O fato de ela ter atacado Biden durante a campanha primária é irrelevante. Lyndon Johnson atacou John F. Kennedy e George H. W. Bush atacou Ronald Reagan durante suas campanhas primárias”, lembrou.


Do sonho à realidade


Com uma carreira brilhante, digna do melhor sonho americano apesar de alguns capítulos controversos, a senadora Kamala Harris sonhava em ser a primeira presidente negra dos Estados Unidos. Desde o começo da sua carreira, essa filha de imigrantes da Jamaica e da Índia foi uma pioneira. Após dois mandatos como promotora de São Francisco (2004-2011), foi eleita duas vezes promotora da Califórnia (2011-2017), tornando-se a primeira mulher, e também a primeira pessoa negra, a liderar os serviços judiciais do estado mais populoso do país. Em janeiro de 2017, ela foi empossada no Senado, em Washington — a primeira mulher com raízes no sul da Ásia a chegar a esse posto e a segunda senadora negra na história americana. Harris cresceu em Oakland, na progressista Califórnia da década de 1960, orgulhosa da luta dos seus pais pelos direitos civis: uma pesquisadora indiana de câncer de mama, agora falecida, e um professor jamaicano de economia. Ela estudou na Howard University, fundada em Washington para receber estudantes afro-americanos segregados. Desde agosto de 2014, é casada com Douglas Emhoff, advogado e pai de dois filhos.


“Ela está mais do que preparada”, diz Obama


Cerca de uma hora depois do anúncio de Joe Biden, o ex-presidente Barack Obama divulgou comunicado à imprensa em que celebrava a indicação. “Escolher um vice-presidente é a primeira decisão importante que um presidente toma. Quando você está no Salão Oval, pesando os temas mais difíceis, e a escolha que você faz afetará vidas de todo o país — você precisa de alguém ao seu lado que tenha o julgamento e o caráter para dar o conselho correto”, afirmou. “Conheço a senadora (Kamala) Harris há muito tempo. Ela está mais do que preparada para o trabalho. Ela passou a carreira defendendo nossa Constituição e lutando por pessoas que precisam de um tratamento justo. Michelle e eu não poderíamos estar mais emocionados por Kamala. (…) Agora, vamos ganhar essa coisa”, acrescentou.


» Análise da notícia

Jogada inteligente


Ao escolher uma mulher negra para o posto de vice, Biden tenta atrair duas importantes fatias do eleitorado, apesar de contar com o voto natural dos afro-americanos desde a eleição de Barack Obama, em 2008. Reforça, de modo subliminar, a ideia de que Trump é o típico político machista e supremacista branco. Se o republicano tentou apagar o legado de Obama, Biden tenta recolocar a herança democrata nos trilhos. Se Obama foi o primeiro líder negro da história dos EUA, Kamala pode se tornar a primeira negra a ocupar a vice-presidência. Bastante ativa no Congresso, ficou muito conhecida pela aspereza em audiências. Duas décadas mais jovem do que Biden, pode ser a escolha ideal para manter os democratas no poder.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação