ESTADOS UNIDOS

Biden afirma que Trump não terá trégua até o dia das eleições nos EUA

Ao apresentar oficialmente Kamala Harris como vice na chapa democrata, Joe Biden afirma que ela está pronta para reconstruir o país. Filha de imigrantes, senadora negra compara eleição de 3 de novembro a "acerto de contas moral" e não poupa ataques a Donald Trump

Rodrigo Craveiro
postado em 13/08/2020 06:00
 (foto: Olivier Douliery/AFP)
(foto: Olivier Douliery/AFP)

Em 3 de novembro, haverá um acerto de contas nas urnas para reconstruir uma América que grita por liderança, uma nação afundada no racismo, na injustiça sistêmica e na pior crise econômica desde a Grande Depressão de 1929. Foi a tônica dos discursos no evento em que Joe Biden, candidato do Partido Democrata à Casa Branca, apresentou, oficialmente, a senadora negra Kamala Harris como vice de sua chapa. O nome da congressista de 55 anos, filha de imigrantes da Jamaica e da Índia, tinha sido anunciado no fim da tarde de terça-feira. Ontem, o local escolhido para o primeiro comício em conjunto de Biden e Harris foi o ginásio da escola secundária Alexis Dupont High School, em Wilmington, pacata cidade de 70 mil habitantes no estado de Delaware e lar de Joe e da mulher, Jill. “Este é um momento sério para a nação. Uma eleição capaz de mudar vidas. A escolha que fizermos em novembro mudará a América por muitos anos”, advertiu.

O ex-vice-presidente lembrou que a história de Kamala confunde-se com a dos EUA. “Nesta manhã, em todo o país, meninas acordaram, especialmente as meninas negras e pardas que se sentem negligenciadas e subestimadas em suas comunidades. Mas, hoje, talvez, elas estejam se vendo pela primeira vez como presidente e vice”, comentou Biden, enquanto Kamala acompanhava o discurso sentada em uma cadeira, à esquerda do púlpito.


Segundo ele, Kamala é “esperta, dura, experiente e provou ser uma guerreira pela espinha dorsal deste país: a classe média”. “Kamala sabe como governar, sabe como fazer as ligações difíceis. Ela está pronta para fazer o trabalho desde o primeiro dia. Ela está pronta para trabalhar na reconstrução desta nação. (…) Ela nunca recuou em um desafio”, afirmou Biden, ao apontar o entusiasmo da candidata a vice. “Em 20 de janeiro de 2021, assistiremos a senadora (Kamala) Harris levantar a mão direita e prestar juramento como a primeira mulher a ocupar o segundo maior cargo nos EUA”, avisou.

Pandemia

Biden confidenciou que, quando concordou em ser vice de Barack Obama, pediu-lhe que fosse a última pessoa, antes do presidente, a tomar decisões importantes. “Foi isso o que pedi a Kamala: que ela fosse a última voz na minha sala”, revelou. “Quando você me telefonou, eu fiquei incrivelmente honrada com essa responsabilidade e estou pronta para trabalhar”, disse Kamala, no início de seu discurso, dirigindo-se a Biden. Ela acusou o presidente republicano, Donald Trump, de provocar a pior crise econômica desde a Grande Depressão, ao fracassar na resposta à pandemia do novo coronavírus.


A senadora democrata comparou as eleições de 3 de novembro a um “acerto de contas moral, com racismo e injustiça sistêmica trazendo uma nova coalizão de consciência às ruas, exigindo mudanças”. “A América pede, a gritos, por liderança. Temos um presidente que mais se preocupa com ele mesmo do que com as pessoas que o elegeram”, lamentou Kamala, visivelmente emocionada em vários momentos.
Horas antes do evento em Wilmington, Trump buscou desqualificar a senadora. “Kamala Harris começou forte nas primárias democratas e terminou fraca, fugindo da disputa com quase zero de apoio. É o tipo de rival com o qual todos sonham!”, escreveu o republicano no Twitter. Por sua vez, Biden usou a mesma plataforma social para elogiá-la. “Como filha de imigrantes jamaicano e indiaina, Kamala Harris cresceu acreditando na promessa da América, pois ela a viu em primeira mão”, comentou.


Para David Redlawsk, cientista político da Universidade de Delaware, a escolha de Biden foi estratégica e teve o intuito de energizar afro-americanos e jovens, os quais representa fatia importante do eleitorado. “As principais qualidades de Kamala são a experiência, por ter atuado como procuradora-geral no maior estado do país (Califórnia) e como senadora. Ela também mostra-se dura e resistiu a muitos ataques em sua carreira política, o que lhe credita enfrentar Trump”, explicou ao Correio. “Biden é pragmático. Ele sabe que precisa de alguém como Kamala para ajudar a erigir o entusiasmo necessário à vitória. O democrata é bom em deixar o passado de lado e vislumbrar o futuro”, acrescentou. Redlawsk refere-se ao fato de a agora companheira de chapa ter acusado Biden de não desafiar, de forma eficiente, a segregação racial. “Alguns disseram que ela tachou Biden de racista, mas não o fez.”


Professora de ciência política da Universidade Rutgers, Kelly Dittmar classificou de “histórica” a nomeação de Kamala. “Ela é apenas a terceira mulher indicada a vice-presidente de um partido principal em toda a história dos EUA e a primeira mulher negra a estar em uma chapa presidencial”, disse ao Correio. “Kamala tem o potencial de energizar eleitores que, de outra forma, poderiam se sentir menos inspirados por Biden, seja por seu perfil como homem branco mais velho, seja por sua política — percebida como levemente mais moderada do que a de Harris.”

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