EUA

Saiba quais são as peças-chaves do governo Biden

O alto escalão de Joe Biden é o mais diverso da história do país e composto por profissionais experientes nas áreas em que estão cotados. Para especialistas, o democrata também opta por perfis diplomáticos, em uma tentativa de reforçar a confiança internacional

Simone Kafruni
postado em 21/01/2021 06:00
 (crédito: AFP / POOL / Alex Edelman - Alex Wong/Getty Images/AFP -  AFP / POOL / Greg Nash)
(crédito: AFP / POOL / Alex Edelman - Alex Wong/Getty Images/AFP - AFP / POOL / Greg Nash)

Empossado 46º presidente dos Estados Unidos, o democrata Joe Biden deu vários recados com a escolha dos principais nomes que trabalharão no seu gabinete. A equipe, se todos os nomes forem confirmados pelo governo e aprovados pelo Senado, terá a maior diversidade da história do país. Os principais cargos foram divididos de forma bastante equilibrada entre mulheres e homens. Além de afro-americanos em posições de destaque, Biden escolheu dois latinos, uma asiática, uma indígena e um LGBTQIA+ assumido para compor seu primeiro escalão.

Tal diversidade, no entanto, não significa uma profusão de novatos no governo. Todos os escolhidos de Biden têm muita experiência nas áreas para as quais estão cotados (veja detalhes no quadro). Além disso, o presidente americano resgatou vários ex-integrantes do governo de Barack Obama, do qual ele próprio foi vice-presidente.

Para o professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) Oliver Stuenkel, os nomes de Biden revelam algumas estratégias. “Antony Blinken, como secretário de Estado, é uma pessoa do sistema que sempre teve cargos muito importantes, conhece a máquina de Washington e tem uma rede internacional enorme, sobretudo em países aliados. O sinal que o presidente quer enviar é de que esses países podem voltar a confiar nos Estados Unidos”, analisa.

A escolha de um militar para a Defesa surpreendeu o especialista. “O general Lloyd Austin vai controlar o Pentágono. Imaginava um civil no cargo. Mas ele será o primeiro negro e faz parte da tentativa de mostrar que os EUA mudaram e que o novo governo reflete a população do país”, assinala Stuenkel. Também chama a atenção do professor da FGV a pequena representatividade da ala progressista do Partido Democrata. “A única é Neera Tanden (gestão e orçamento), que é alinhada a Bernie Sanders. Com isso, a grande dificuldade desse governo será manter um diálogo produtivo com parte do próprio partido. Porém, Biden é pragmático, e sua equipe reflete isso”, conclui Stuenkel.

Na opinião do diretor do Interlegis no Senado, Márcio Coimbra, ex-consultor do partido Republicano nos Estados Unidos, a diversidade do gabinete de Biden foi uma forma de mandar uma mensagem de mudança. “Depois de um governo como foi o de Donald Trump, a ideia é mostrar o oposto. A escolha de Kamala Harris como vice já apontava isso”, avalia. Ele sustenta que a indicação de Blinken mostra uma preocupação maior com a Rússia. “Se, para Trump, a China era o inimigo, o novo governo tem os olhos mais voltados para os riscos que a Rússia representa. Outra prova disso é que William Burns, novo diretor da CIA, é um diplomata aposentado que foi embaixador dos Estados Unidos na Rússia”, destaca.

Relações multilaterais

A preocupação com a experiência suplanta o cuidado em garantir representatividade às minorias, ressalta Ricardo Mendes, sócio da Prospectiva e responsável pelas operações internacionais da consultoria. “Biden quer se cercar de pessoas com experiência, sobretudo na área diplomática. Isso mostra qual será o eixo da condução das políticas públicas dos Estados Unidos”, pontua. “Para o Brasil, acho relevante a criação de uma posição especial para o clima, cargo de John Kerry, que conhece muito bem a Amazônia”, pondera.

Segundo Riordan Roett, professor e diretor emérito do Programa de Estudos Latino-americanos (Sais) da Johns Hopkins University, o secretário de Estado, Antony Blinken, será encarregado de restaurar as relações multilaterais dos Estados Unidos, enquanto a secretária do Tesouro, Janet Yellen, “atuante de longa data nos assuntos econômicos”, deve conduzir a recuperação econômica. “Alejandro Mayorkas será um ator fundamental para lidar com uma ampla variedade de desafios de segurança”, completa.

Para o professor americano, o procurador-geral Merrick Garland está encarregado de restaurar a integridade do Departamento de Justiça. Garland chegou a ser nomeado por Obama, mas o Senado não avaliou a escolha por considerar que o mandato do ex-presidente estava muito perto do fim. “Será o primeiro indicado para Suprema Corte assim que abrir uma vaga”, aposta Coimbra, do Interlegis.

Os escolhidos (veja a lista ilustrada no fim do texto)

*Alguns nomes da equipe de Joe Biden ainda precisam ser confirmados e aprovados pelo Senado

1. Antony Blinken, secretário de Estado
Vice-secretário de Estado e vice-conselheiro de Segurança Nacional no governo Obama. Aconselhou Biden quando ele foi vice-presidente. Os dois trabalharam juntos quando Biden atuou no Comitê de Relações Exteriores do Senado.

 2. Janet Yellen, secretária do Tesouro
Primeira mulher a comandar o Fed, o banco central do EUA, de 2014 a 2018. Também foi presidente do Conselho de Consultores Econômicos da Casa Branca durante o governo Clinton. Será a primeira a dirigir o Departamento do Tesouro.

3. Lloyd Austin, secretário de Defesa
General quatro estrelas do Exército, foi chefe do Comando Central dos EUA de 2013 a 2016. Será o primeiro afro-americano a ocupar o cargo.

4. Merrick Garland, secretário de Justiça
Juiz federal e presidente da Corte de Apelações do Distrito de Columbia. Foi indicado por Obama para a Suprema Corte, mas o Senado não votou sua escolha.

5. Deb Haaland, secretária do Interior
Deputada do Novo México, eleita para a Câmara dos Representantes em 2019, como uma das duas primeiras mulheres indígenas no Congresso. Será a primeira indígena em uma função de gabinete.

6. Marty Walsh, secretário do Trabalho
Prefeito de Boston pelo segundo mandato, já participou da Câmara dos Representantes de Massachusetts. Em sua gestão, concentrou-se em questões como aumento do salário mínimo, licença familiar remunerada e energia limpa.

7. Xavier Becerra, secretário de Saúde e Serviços Humanos
Procurador-geral da Califórnia e ex-congressista, liderou uma coalizão de estados em defesa do Affordable Care Act na Suprema Corte. Será o primeiro latino a liderar a pasta.

8. Tom Vilsack, secretário de Agricultura
Ex-governador de Iowa, foi secretário da Agricultura durante os dois mandatos do governo Obama. Desde então, é CEO do U.S. Dairy Export Council (conselho de exportação de laticínios dos EUA).

9. Pete Buttigieg, secretário de Transportes
Ex-prefeito de South Bend, Indiana, de 2012 a 2020, concorreu nas primárias democratas de 2020 e se retirou para apoiar Biden. Atuou como oficial de inteligência da Marinha, destacado para o Afeganistão em 2014. Será a primeira pessoa abertamente LGBTQIA+ na história dos EUA a ter um papel permanente no gabinete.

10. Alejandro Mayorkas, secretário de Segurança Interna
Nascido em Cuba, foi vice-secretário do Departamento de Segurança Interna durante o segundo mandato de Obama. Também atuou como diretor dos Serviços de Cidadania e Imigração dos EUA de 2009 a 2013. Será o primeiro imigrante e latino a ocupar o cargo.

11. Katherine Tai, representante Comercial dos EUA
Consultora jurídica chefe do Comitê de Caminhos e Meios da Câmara. No governo Obama, foi membro sênior do Escritório do Conselho Geral do representante comercial do EUA, responsável pela fiscalização do comércio na China. Será a primeira mulher asiática no cargo.

12. Avril Haines, diretora de Inteligência Nacional A advogada foi a primeira
mulher a ser vice-diretora da Agência Central de Inteligência (CIA). Também foi Conselheira Adjunta da Segurança Nacional de Obama. Será a primeira mulher a chefiar a inteligência nacional.

13. William Burns, diretor da Agência Central de Inteligência (CIA)
Presidente do Carnegie Endowment for International Peace, grupo de estudos. Teve uma carreira de 33 anos no serviço estrangeiro, como embaixador na Rússia e na Jordânia.

14. Linda Thomas-Greenfield, embaixadora na ONU
Diplomata com mais de três décadas de experiência, foi secretária para Assuntos Africanos de 2013 a 2017 e embaixadora dos EUA na Libéria.

15. Ron Klain, chefe de Gabinete*
Advogado e assessor de Joe Biden, foi chefe de gabinete do agora presidente quando ele foi vice de Obama, no Senado e em campanhas anteriores.

16. Jake Sullivan, conselheiro de Segurança Nacional*
Foi conselheiro de segurança nacional de Biden durante o governo Obama e vice-chefe de gabinete da ex-secretária de Estado Hillary Clinton. Sullivan foi o principal negociador quando do acordo nuclear com o Irã.

17. John Kerry, representante especial da Presidência para o Clima*
Foi secretário de Estado de Obama e arquitetou o acordo climático de Paris. Ex-presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, também foi candidato à Presidência em 2004, mas acabou derrotado por George W. Bush.

18. Eric Lander, conselheiro Científico e Diretor de Políticas Científicas e Tecnológicas*
Professor do MIT e responsável por um reconhecido instituto de pesquisa biomédica. Foi um dos líderes do Projeto Genoma Humano e assessorou Barack Obama nas áreas de ciência e tecnologia.

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