Nicarágua

Crise na política da Nicarágua após acusações de "eleições de um só"

Oposição denuncia que principais candidatos do pleito de hoje foram presos pelo regime de Daniel Ortega, acusado de "escolher" falsos opositores. No poder desde 2007, presidente busca a quarta vitória consecutiva

Rodrigo Craveiro
postado em 07/11/2021 06:00
Daniel Ortega e a esposa, Rosario Murillo, a quem chama de
Daniel Ortega e a esposa, Rosario Murillo, a quem chama de "copresidenta": dinastia de 14 anos - (crédito: Maynor Valenzuela/AFP)

Às vésperas de completar 76 anos, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, deve conquistar, hoje, o quarto mandato consecutivo de cinco anos com a esposa, Rosario Murillo, a quem chama de "copresidenta". O homem que governa o país da América Central com mão-de-ferro há 14 anos não terá rivais nas eleições deste domingo. Os 4,3 milhões de nicaraguenses registrados para votar estarão impossibilitados de escolher opositores de peso ao regime orteguista. Os principais adversários políticos de Ortega estão na prisão. A comunidade internacional advertiu que não reconhecerá a vitória do chefe de Estado. Os Estados Unidos anunciaram que as eleições são "uma farsa" que consolida a "ditadura" e prometeram aplicar todo o peso jurídico e diplomático para restaurar a via democrática.

Presidente nacional do Partido Ciudadanos por la Libertad (CxL), hoje exilada na Nicarágua, Kitty Monterrey (leia Duas perguntas para) contou ao Correio que seis candidatos "adversários" de Ortega disputam as eleições de hoje, todos eles desconhecidos e acusados de colaborar com o regime. "Nenhum deles tem a mínima capacidade de oposição, pois são os que o próprio Ortega quis que disputassem a eleição. Os verdadeiros candidatos estão na cadeia", lamentou. Ela se nega a classificar as votações como "uma verdadeira eleição" e culpa o regime orteguista por eliminar "qualquer possibilidade" de que os cidadãos possam escolher o próximo presidente.

"Ortega prendeu os sete principais candidatos presidenciais, acusando-os de traição à pátria, e os mantém no cárcere até hoje, em meio aos mais de 150 prisioneiros políticos. Também dissolveu três partidos opositores, entre eles o CxL, que encabeçava a única aliança opositora inscrita para o processo", explicou Monterrey.

A politica frisou que, além de não poderem escolher seus candidatos, os nicaraguenses não podem se manifestar, nem afirmar que são opositores ou que rechaçam o proesso eleitoral. "Os espaços públicos estão tomados pelas forças policiais. Ortega aprovou uma série de leis repressivas que criminalizam a oposição política, o trabalho jornalístico e a liberdade de expressão", acrescentou. Entre os aspirantes da oposição, os institutos de pesquisa apontavam Cristiana Chamorro — filha da ex-presidente Violeta Barrios (1990-1997) — como a favorita. Ela é mantida em prisão domiciliar.

Para o ativista dos direitos humanos Gonzalo Carrión Maradiaga, presidente do Colectivo Nicaragua Nunca Más, Ortega consumará, hoje, uma fraude que estaria em planejamento há meses. "Na Nicarágua, o ato de hoje, que é mais uma votação do que uma eleição, foi precedido de mais de três anos de uma sistemática repressão. Em 2018, vivemos sob a mira de um Estado de terror, de fuzis de guerra que mataram mais de 300 pessoas. No começo de 2021, o regime aprovou um conjunto de leis para facilitar maior repressão pela via legal", disse ao Correio.

Carrión prevê o mesmo para o país: um projeto dinástico de Ortega, acompanhado da esposa, Rosario Murillo. "O casal exerce o poder de modo ilegítimo. Quem viola os direitos humanos de seu povo não tem o direito de governar. Essa família pratica criimes de lesa humanidade", desabafou, ao revelar que mais de 100 mil nicaraguenses foram forçados ao exílio, sobretudo na Costa Rica e nos Estados Unidos. Ortega considera os opositores como "golpistas" e "criminosos" patrocinados por Washington. 

Ceticismo

Kitty Monterrey demonstra ceticismo em relação a uma pressão da comunidade internacional sobre a Nicarágua. Ela acredita que tal ação precisa ser tomada pela própria sociedade. "No entanto, é fundamental que o mundo mantenha denunciando e exigindo que o regime inicie um processo de abertura democrática. É inconcebível que na América Latina exista uma ditadura, como a da Nicarágua", critica.

A opositora afirma que o país é insustentável sob o regime de Ortega e aponta o agravamento da crise econômica e a migração forçada crescente como evidências. "Precisamos restabelecer a democracia pacificiamente, a fim de evitar que a Nicarágua afunde na pobreza extrema e na violência, como vimos na década de 1980." Segundo Carrión, a comunidade internacional tem "o compromisso moral, jurídico e político de erguer a voz pela Nicarágua". "Nós alcançaremos a democracia por vontade de nosso povo. A cooperação internacional é necessária nessa luta pela liberdade."

Um dos comandantes da luta contra o sandinismo na década de 1980, Óscar Sobalvarro disse ao Correio que "a verdadeira oposição não participa do processo eleitoral". "A população não está motivada a participar da votação, pois os partidos em disputa carecem de credibilidade e não despertam nenhuma confiança", comentou. 

  • Daniel Ortega e a esposa, Rosario Murillo, a quem chama de
    Daniel Ortega e a esposa, Rosario Murillo, a quem chama de "copresidenta": dinastia de 14 anos Foto: Maynor Valenzuela/AFP
  • Gonzalo Carrión Maradiaga, 60 anos, ativista dos direitos humanos e presidente do Colectivo Nicaragua Nunca Más
    Gonzalo Carrión Maradiaga, 60 anos, ativista dos direitos humanos e presidente do Colectivo Nicaragua Nunca Más Foto: Arquivo pessoal
  •  Nicaraguan former presidential candidate for the Ciudadanos por la Libertad (CxL) party, Kitty Monterrey, poses during an interview with AFP in San Jose, on November 04, 2021. - Monterrey left Nicaragua after the legal status of her party was cancelled ahead of the November 7 election. (Photo by Ezequiel BECERRA / AFP)
    Nicaraguan former presidential candidate for the Ciudadanos por la Libertad (CxL) party, Kitty Monterrey, poses during an interview with AFP in San Jose, on November 04, 2021. - Monterrey left Nicaragua after the legal status of her party was cancelled ahead of the November 7 election. (Photo by Ezequiel BECERRA / AFP) Foto: AFP
  • Daniel Ortega e a esposa e vice, Rosario Murillo, a quem ele chama de "copresidenta"
    Daniel Ortega e a esposa e vice, Rosario Murillo, a quem ele chama de "copresidenta" Foto: Maynor Valenzuela/AFP

DUAS PERGUNTAS PARA...

 (crédito: CxL/Divulgação)
crédito: CxL/Divulgação

Kitty Monterrey, presidente nacional do opositor Partido Ciudadanos por la Libertad (CxL), hoje exilada na Costa Rica

Que tipos de perseguições do regime de Daniel Ortega a senhora sofreu?

Meu caso é uma evidência do controle total de Ortega sobre o aparato estatal e de sua violação aberta das leis. Eu era a presidente do principal partido de oposição. Tenho dupla nacionalidade: minha mãe é nicaraguense e meu pai, norte-americano. Em 6 de agosto passado, no mesmo dia em o regime dissolveu o partido, ele cancelou meus documentos de identidade, até minha certidão de nascimento. Ante a iminente deportação ou prisão com outros opositores, me vi obrigada a sair do país irregularmente e a me refugiar na Costa Rica.

Qual é o projeto de poder de Ortega-Murillo?

Desde que chegou ao poder, em 2007, seu projeto tem sido concentrar o poder indefinidamente. Antes de 2018 Ortega o fez mediante uma combinação de repressão contra opositores, um acordo de coexistência com o setor privado ea distribuição massiva de vantagens aos seguidores, graças aos recursos substanciais da cooperação petrolífera venezuelana que administrava fora do orçamento nacional. A partir de 2018, devido aos massivos protestos contra ele que foram brutalmente reprimidos por policiais e paramilitares, a ruptura do acordo com o setor privado e o fim da cooperação petrolífera venezuelana, Ortega continuou impulsionando seu projeto mediante a repressão aberta. Ele converte a Nicarágua em um Estado policial sem nenhum tipo de liberdades.

 

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