GUERRA NO LESTE EUROPEU

Quase 200 mil pessoas participam de ato em apoio a Putin em Moscou

Comemoração dos oito anos de anexação da Crimeia, em estádio superlotado, se converte em ato de exaltação à invasão ucraniana. Diante de um público estimado em 95 mil pessoas, Putin cita a Bíblia e enaltece "heroísmo" de suas tropas

Correio Braziliense
postado em 19/03/2022 06:00
 (crédito: Ramil SITDIKOV / AFP)
(crédito: Ramil SITDIKOV / AFP)

Numa investida para demonstrar poder, e provar que tem os russos a seu lado, o presidente Vladimir Putin lotou, ontem, o Estádio Lujniki, em Moscou, para comemorar o oitavo aniversário de anexação da Crimeia. Saudado por um público efusivo, embalado por apresentações musicais e efeitos especiais, o anfitrião transformou a celebração em uma ferrenha defesa da guerra — que ele trata como "operação especial" — contra a Ucrânia, que entra hoje no 24º dia. "Sabemos o que precisamos fazer, a que custo, e cumpriremos nossos planos", disse o líder russo.

Segundo as estimativas, havia 95 mil pessoas no interior do estádio e outras 100 mil na área externa. Uma profusão de bandeiras da Rússia sobressaía. Slogans antinazistas e cantos patrióticos ecoavam em Lujniki. "Por um mundo sem nazismo", "Pela Rússia", proclamavam as faixas exibidas pelo público. Por todos os lados, o "Z" — letra do alfabeto latino, inexistente no cirílico, transformada em símbolo pró-Moscou na guerra — adornava o peito dos presentes no ato.

Logo ao subir ao palco, Putin saudou as tropas em combate na Ucrânia com uma citação da Bíblia. "As palavras que me vêm são as das Sagradas Escrituras: não há amor maior que dar a vida por seus amigos", disse. A Rússia justifica sua atual operação militar na Ucrânia na necessidade de "desnazificar" o país, acusado de cometer um genocídio contra a população russófona.

Ao som de Rússia, Rússia entoado pela multidão, Putin louvou o "heroísmo" dos soldados que "combatem, que atuam lado a lado durante esta operação militar, e que, em caso de necessidade, usam seu próprio corpo para defender seus camaradas" e impedir a trajetória "de uma bala".

Problema técnico

Nesse momento do discurso, Putin desapareceu das telas, em decorrência de problemas técnicos. A emissora pública Rossiya-24, que transmitia o pronunciamento, continuou mostrando outras imagens do evento. Quinze minutos depois, a veiculação da fala de Putin foi retomada, agora gravada. Segundo o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, houve "falha técnica em um servidor".

O presidente também exaltou a união do país. "Já passou muito tempo desde que vivíamos tal grau de unidade", afirmou. Dois dias antes, porém, durante reunião com sua equipe de governo, Putin afirmara que a Rússia precisa se livrar de "traidores" contrários ao conflito. "Estou convencido de que essa necessária e natural autopurificação da sociedade nos fortalecerá", assinalou, na ocasião.

Protestos contra a invasão se tornaram frequentes nas principais cidades russas desde o início do conflito. Em três semanas, mais de 15 mil pessoas foram presas. Além disso, muitos deixaram o país por discordarem da ofensiva.

Mas, ontem, a mensagem foi de coesão. Políticos, medalhistas esportivos e artistas subiram no palco e se multiplicaram as mensagens de lealdade ao chefe do Kremlin. Conhecido por compor e interpretar canções patrióticas, Oleg Gazmanov cantou o sucesso Feito na URSS, em uma das estrofes diz: "Ucrânia e Crimeia, Belarus e Moldávia, este é o meu país".

"Somos um país e um povo que aprecia e defende a paz, luta contra o mal [...] a verdadeira liberdade é estar livre do mal. Não podemos ter medo porque vivemos no amor e com fé", proclamou a porta-voz da diplomacia russa, Maria Zakharova.

O pai de um separatista pró-Moscou do leste da Ucrânia falecido há alguns dias também foi chamado ao palco para saudar o exército russo que está "na linha de frente". "Quero lhes dizer que apoiem o presidente", declarou Artyom Zhoga, que compareceu expressamente para a ocasião, já que é comandante de uma unidade separatista no front de Donetsk. "Uma nação que acredita em seu presidente não pode ser derrotada", arrematou o líder russo.

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