GUERRA NO LESTE EUROPEU

Ministro russo diz que relação com EUA está "à beira da ruptura"

A afirmação veio após declarações do americano Joe Biden, que, recentemente, chamou Vladimir Putin de "assassino ditador" e "bandido" pela invasão à Ucrânia

Correio Braziliense
postado em 22/03/2022 06:00
Putin (E) e Biden apertam aos mãos no primeiro encontro após a posse do americano: tempos de sorrisos ficaram para trás -  (crédito: AFP / POOL / DENIS BALIBOUSE)
Putin (E) e Biden apertam aos mãos no primeiro encontro após a posse do americano: tempos de sorrisos ficaram para trás - (crédito: AFP / POOL / DENIS BALIBOUSE)

Em um sinal de agravamento da crise diplomática entre Estados Unidos e Rússia, o governo de Vladimir Putin anunciou, ontem, ter chamado o embaixador americano em Moscou, John Sullivan, para protestar contra comentários "inaceitáveis" do presidente Joe Biden. Na semana passada, o chefe da Casa Branca chamou o líder russo de "criminoso de guerra", "assassino ditador" e "bandido" ao ser perguntado a respeito da invasão à Ucrânia.

"Esse tipo de declaração do presidente americano, que não é digna de um político de alto escalão, pôs as relações russo-americanas à beira da ruptura", ressaltou o ministro russo das Relações Exteriores, em um comunicado. O governo dos EUA não quis comentar sobre o risco de rompimento nas relações diplomáticas entre os dois países

Segundo a nota da chancelaria russa, Sullivan recebeu uma carta formal de protesto, que faz um alerta ao governo dos EUA: "as ações hostis contra a Rússia receberão uma resposta firme e decisiva".

O informe assinalou ainda que os representantes da chancelaria russa confrontaram Sullivan sobre o funcionamento normal das missões diplomáticas russas nos EUA, incluindo garantias de atividade ininterrupta.

Provas

No mesmo dia das declarações de Biden, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, havia denunciado que as palavras do presidente dos EUA faziam parte de uma retórica "inaceitável e imperdoável". Ontem, o porta-voz do Departamento de Estado americano, Ned Price, reafirmou que Washington via "provas claras" de que os russos "intencionalmente tem os civis como alvo e realizam ataques cegos".

"Os comentários do presidente Biden da semana passada se referem ao horror da brutalidade da Rússia contra um vizinho inocente", assinalou. Price ressaltou a relevância do diálogo entre Washington e Moscou, com embaixadas em ambos, "sobretudo durante esses tempos de tensão". "Pensamos que é importante manter canais de comunicação com a Rússia", frisou.

Nesse cenário de forte instabilidade nas relações com Putin, Biden participou ontem de um encontro virtual com o primeiro-ministro da Itália, Mario Draghi; o presidente francês, Emmanuel Macron, o chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, e o premiê britânico, Boris Johnson, para discutir uma resposta coordenada à invasão da Ucrânia.

Foi o primeiro compromisso de uma semana de intensa e crucial atividade diplomática para Biden, que desembarca amanhã na Europa. No dia seguinte, ele participa da cúpula extraordinária da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em Bruxelas. Também haverá uma reunião da União Europeia para a qual está convidado.

De Bruxelas, Biden viajará, na sexta-feira e no sábado, para a Polônia, onde chegam centenas de milhares de refugiados ucranianos. Sua agenda prevê apenas uma reunião com o presidente Andrzey Duda, o que alimenta as especulações sobre outro compromisso do presidente americano — a Casa Branca descarta uma viagem à Ucrânia.

Ataques cibernéticos

Em Washington, Joe Biden pediu, ontem, às empresas que se protejam de possíveis ataques cibernéticos realizados pela Rússia em resposta às sanções ocidentais impostas a Moscou pela sua ofensiva na Ucrânia. "Meu governo reitera essas advertências se baseando nos dados dos serviços de inteligência em constante evolução, segundo os quais o Estado russo analisa diferentes formas de possíveis ciberataques", escreveu o presidente em um comunicado divulgado pela Casa Branca.

Os ataques cibernéticos entram no "manual de estratégia" do Estado russo, insiste Biden. "É crucial acelerar o reforço da nossa segurança cibernética interna", alertou .

Segundo a Casa Branca, os ataques podem ser direcionados contra infraestruturas essenciais, muitas delas em mãos do setor privado. "Ainda temos muito a fazer para garantir que fechamos todas as portas de entrada digitais, especialmente a dos serviços de capital dos quais os americanos dependem", afirmou Anne Neuberger, funcionária encarregada da segurança para a tecnologia cibernética.

 

Recursos dobrados

Os ministros europeus das Relações Exteriores chegaram a um acordo político para contribuir com 500 milhões de euros adicionais (cerca de R$ 2,7 bilhões), dobrando, assim, seu fundo de auxílio material à Ucrânia. A União Europeia (UE) já havia aprovado o uso de 500 milhões de euros do Fundo Europeu de Apoio à Paz para a compra e entrega de armas e equipamentos médicos aos ucranianos. Há duas semanas em Versalhes (França), o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, propôs que o valor fosse incrementado, totalizando um bilhão de euros.

A utilização desses valores exige a unanimidade dos países da UE, embora os membros do bloco tenham a possibilidade de se abster na tomada de decisões, a fim de evitar o bloqueio da ajuda. Os recursos são usados para reembolsar os países da UE pela ajuda militar concedida a Kiev usando suas próprias reservas de material de guerra. O governo ucraniano apresentou à UE pedidos muito detalhados do equipamento militar necessário para lidar com a ofensiva russa.

Os chanceleres também discutiram a crescente pressão para que o bloco adote sanções que afetem as exportações de energia da Rússia devido à invasão da Ucrânia, embora no momento sem um acordo substantivo. "Não foi um dia para tomar decisões, e nenhuma decisão foi tomada, mas esta e outras medidas foram objeto de análise pelos ministros", disse Borrell.

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