Guerra no leste europeu

Zelensky cobra punição à Rússia e coloca ONU contra a parede

Em discurso por vídeo ao Conselho de Segurança, Volodymyr Zelensky cobra punição à Rússia, questiona as Nações Unidas, mostra supostas atrocidades em Bucha e chama Putin de "criminoso de guerra". Ocidente deve anunciar, hoje, mais sanções contra Moscou

Rodrigo Craveiro
postado em 06/04/2022 06:00
 (crédito: Spencer Platt/Getty Images/AFP)
(crédito: Spencer Platt/Getty Images/AFP)

Na arena diplomática conhecida por arbitrar a paz ao redor do mundo, um imenso telão mostrou as fotos de cadáveres amarrados, abandonados nas casas e nas ruas de várias cidades ucranianas, ou lançados dentro de covas coletivas. "Vocês estão prontos para fechar a ONU?", questionou o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, em pronunciamento ao vivo exibido durante reunião do Conselho de Segurança da ONU, a partir de Kiev, a mais de 7.500km de Nova York. Ele denunciou atrocidades cometidas pelas tropas da Rússia contra civis, culpou o governo de Vladimir Putin pelos "piores crimes desde a Segunda Guerra Mundial", exigiu um julgamento internacional e desafiou as Nações Unidas. "Precisamos de decisões do Conselho de Segurança para a paz na Ucrânia", disse Zelensky. "Onde está a segurança que o Conselho de Segurança precisa garantir? Não existe. (...) Se não há alternativa, nem opção, então a próxima escolha seria a sua dissolução por completo."

Hoje, os Estados Unidos, a União Europeia e o G7 — grupo dos sete países mais industrializados — devem anunciar novo pacote de sanções contra a Rússia. Entre as medidas previstas, estão a proibição de todos os novos investimentos em território russo, o reforço das sanções a instituições financeiras de Moscou e a empresas estatais, e sancões contra autoridades do Kremlin e familiares. 

Em um tom duro, Zelensky afirmou que se dirigia aos países-membros do Conselho de Segurança em nome das vítimas e detalhou o suposto massacre ocorrido na cidade de Bucha, a 30km do centro de Kiev. "Eles (civis) foram assassinados em seus apartamentos e casas, explodindo granadas. Foram esmagados por tanques, quando estavam dentro dos carros, na rua, só por prazer. Eles (russos) deceparam membros, cortaram gargantas. Mulheres foram estupradas e mortas na frente dos filhos. Suas línguas foram arrancadas porque os agressores não queriam escutar o que ouviram delas", acrescentou. O líder ucraniano apelou pela exclusão da Rússia do Conselho de Segurança — um dos cinco países-membros com poder de veto — para que Moscou "não bloqueie decisões sobre sua própria guerra". Também defendeu a reforma da entidade. 

Pelo segundo dia consecutivo, a Rússia rejeitou as acusações de Zelensky. "Não fomos à Ucrânia para conquistar territórios", disse Vasili Nebenzia, embaixador de Moscou na ONU, que tornou a denunciar uma conspiração. "Você viu corpos e escutou depoimentos, mas apenas viu o que lhe foi mostrado. Você não pode ignorar as flagrantes inconsistências nas versões dos fatos divulgados pelos meios de comunicação ucranianos e ocidentais." Por sua vez, o chanceler russo, Serguei Lavrov, divulgou mensagem transmitida pelas televisões de seu país em que apontava uma "provocação aberta e falaciosa" para "atrapalhar" as negociações de paz. 

Chefe da Cátedra de Relações Internacionais e diretor da Escola de Análises Políticas da Universidade de Kiev-Mohyla, Maksym Yakovlyev afirmou ao Correio que o discurso de Zelensky na ONU foi "muito poderoso". "Todos agora devemos repensar o papel das Nações Unidas, pois vemos tantos civis serem torturados, estuprados e mortos pelas tropas russas. Ainda assim, a Rússia detém o poder de veto no Conselho de Segurança, enquanto bombardeia a Ucrânia. O que acontece aqui em meu país é puro genocídio. Parece que, no formato atual, a ONU não pode fazer muito. Ela necessita de uma reforma", acrescentou. 

Yakovlyev disse que mais lhe impressionou na fala de Zelensly foi o fato de ele ter se referido aos russos como "criminosos de guerra" e solicitado uma Corte similar aos julgamentos de Nuremberg — alusão aos tribunais que condenaram os oficiais nazistas ao fim da Segunda Guerra Mundial. O especialista ucraniano considera primordial a imposição de mais sanções contra a Rússia.

Ataques

O Exército da Rússia informou ter derrubado dois helicópteros ucranianos que tentavam retirar os chefes do batalhão nacionalista Azov, que participa da defesa do porto de Mariupol (sudeste). Igor Konashenkov, porta-voz do Ministério da Defesa russo, explicou que Moscou ofereceu aos combatentes a deposição de armas e o abandono da cidade. Eles teriam ignorado a proposta. 

Jens Stoltenberg, secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), anunciou que a Rússia avança para "tomar o controle de todo Donbass" — no leste da Ucrânia — e criar uma ponte terrestre com a Península da Crimeia, anexada por Moscou em 2014. "As tropas russas deixaram a região de Kiev e o norte da Ucrânia. Putin está movendo um grande número de soldados ao leste. Elas vão se rearmar, receber reforços (...) e se reabastecer para lançar nova ofensiva altamente concentrada na região do Donbass."

  • Discurso de Zelensky foi transmitido ao vivo na ONU:
    Discurso de Zelensky foi transmitido ao vivo na ONU: "Pprecisamos de decisões para a paz na Ucrânia" Foto: Spencer Platt/Getty Images/AFP
  • Prédio atingido por mísseis em Borodyanka, a noroeste de Kiev
    Prédio atingido por mísseis em Borodyanka, a noroeste de Kiev Foto: Sergei Supinsky/AFP

Relatos do horror

"Os kadyrovtsy (mercenários chechenos) estão em Borodyanka. São piores do que animais. Invadiram um asilo. Há 600 pessoas presas lá, sem eletricidade e sem água — 590 idosos e dez funcionários. Eles (russos e chechenos) sequestravam as pessoas das ruas ou disparavam em tudo o que encontravam pela frente. O pai de um amigo está desaparecido. Ele foi à rua para fumar e sumiu. Não vi como matavam as pessoas, pois estávamos no porão. Mas um homem que esteve conosco viu."

Victoria Vikhorova, 20 anos, estudante de Kiev. Refugiou-se em Borodyanka após ataque à capital ucraniana

"Minha cidade está ocupada há 20 dias pelos russos. Os corredores humanitários entraram em colapso. Alguns de meus conhecidos foram assassinados. As pessoas tiveram que suportar o fio, a fome e a sede, para permanecerem vivas. Os invasores roubaram tudo o que podiam: quebraram portas e arrebentaram as janelas. Soubemos que Tanya, uma sem-teto, salvou oito pessoas que estavam sob cerco dos russos. Ela os abasteceu com água."

Iyna Samoylenko, 20 anos, estudante, morava em Borodyanka. Hoje está em Ivano-Frankivsk

"Campanha deliberada para matar, torturar, estuprar"

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, denunciou uma "campanha deliberada para matar, torturar, estuprar" em Bucha, onde foram encontradas dezenas de cadáveres após a retirada das tropas russas. "O que vimos em Bucha não é um ato isolado. É uma campanha para matar, torturar, estuprar, cometer atrocidades. Isso reforça a nossa determinação de garantir que, de alguma maneira, quem cometeu esses atos preste contas algum dia."

 

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