Guerra no leste europeu

Ataque com míssil mata 50 e fere 98 em Kramatorsk, no leste da Ucrânia

Ataque com míssil mata 50 e fere 98, no momento em que 4 mil civis aguardavam para fugir de Kramatorsk, no leste da Ucrânia. Rússia nega bombardeio. Prefeito fala ao Correio e relata "mar de sangue". Biden denuncia atrocidade. Putin fecha escritórios de ONGs

Rodrigo Craveiro
postado em 09/04/2022 06:00
 (crédito: Fadel Senna/AFP)
(crédito: Fadel Senna/AFP)

O recado estava escrito, em cirílico, com tinta branca, em um míssil de cor verde, sobre a grama: "Por nossas crianças". A frase é usada, às vezes, pelos separatistas pró-Rússia em alusão aos filhos mortos durante a guerra em Donbass, no leste da Ucrânia. A poucos metros do projétil, corpos, feridos recebendo os primeiros socorros no chão, carros carbonizados. "Foi algo horrível. Um mar de sangue", contou ao Correio Oleksandr Honcharenko, prefeito de Kramatorsk (leia Duas perguntas para). Ele assegurou à reportagem que o míssil continha munições de fragmentação. A informação foi corroborada à agência France-Presse por um policial que vistoriou a cena do massacre: "Era um míssil Toshka, uma bomba de fragmentação. Explode por vários lados em uma superfície do tamanho de um campo de futebol".

Na estação, cerca de 4 mil civis aguardavam a locomotiva, desesperados para fugirem da cidade de Kramatorsk, na região de Donetsk. Por volta das 10h30 (3h30 em Brasília), o bombardeio atribuído às forças russas matou pelo menos 50 pessoas, incluindo cinco crianças, e feriu 98 — 16 menores, 46 mulheres e 36 homens.

Líderes da União Europeia (UE) visitaram Bucha, 15km a noroeste de Kiev, onde dezenas de cadáveres foram encontrados após a saída das tropas da Rússia — entre os mortos, Valeriy Kizilov, pai do jornalista Yevhen Kizolov (leia Depoimento), executado com um tiro na cabeça no jardim de casa. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, classificou como "impensável" o que aconteceu na cidade. Em reunião com o presidente Volodymyr Zelensky, em Kiev, ela previu que "a Rússia se afundará em uma decomposição econômica, financeira e tecnológica e a Ucrânia caminhará rumo a um futuro europeu".

A Rússia negou envolvimento no bombardeio em Kramatorsk e, mais uma vez, denunciou uma "provocação" da Ucrânia. O Ministério da Defesa russo afirmou que "todas as declarações dos representantes do regime nacionalista em Kiev sobre o suposto 'ataque com foguete' (...) são uma provocação e são absolutamente falsas". "O objetivo deste ataque orquestrado pelo regime de Kiev (...) era impedir que a população civil fosse embora da cidade para poder utilizá-la como escudo humano", acrescentou o comunicado.

Responsabilização

"É um mal que não tem limites", respondeu Zelensky. "Assim como o massacre em Bucha e como outros crimes de guerra russos, o ataque em Kramatorsk deve ser uma das acusações do tribunal, que está prestes a acontecer", disse ele, em referência a uma suposta Corte para julgar violações cometidas pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, e seus militares. "Todos os esforços do mundo serão direcionados para estabelecer o que ocorreu a cada minuto: quem fez o quê, quem deu as ordens. De onde o míssil veio, quem o carregava, quem deu a ordem de lançamento e como o ataque foi coordenado. A responsabilização será inevitável", declarou.

O bombardeio provocou a ira da comunidade internacional. "O ataque a uma estação de trem ucraniana é mais uma terrível atrocidade cometida pela Rússia, ao atingir civis que tentavam fugir e alcançar a segurança", declarou o presidente dos EUA, Joe Biden. O Pentágono suspeita que a Rússia tenha usado um míssil SS-21 Scarab (de curto alcance). "Nossa avaliação é de que este foi um ataque russo", disse o porta-voz, John Kirby.

Ao receber o chanceler alemão, Olaf Scholz, em Londres, o premiê britânico, Boris Johnson, prometeu punição. "É um crime de guerra atacar indiscriminadamente civis. Os crimes da Rússia não passarão despercebidos nem ficarão impunes", avisou. Scholz utilizou o termo "atroz" para se referir ao bombardeio.

"Este horrível ataque parece ser parte de um padrão no qual as forças russas bombardeiam, indiscriminadamente, áreas civis na Ucrânia e atacam diretamente locais civis — como o teatro de Mariupol, onde centenas de pessoas se abrigavam, e o hospital pediátrico e maternidade, na mesma cidade", admitiu ao Correio Kenneth Roth, diretor executivo da ONG Human Rights Watch (HRW). "São ataques consistentes com o que as tropas de Putin fizeram na Síria, onde bombardearam deliberadamente hospitais, escolas, mercados e prédios residenciais. Os ataques a estruturas civis são claramente crimes de guerra", acrescentou.

Horas antes, Putin fechava os escritórios da HRW e da Anistia Internacional na Rússia. "Essa lamentável decisão reflete um esforço para silenciar os mensageiros dos direitos humanos, em vez de mudar a conduta abusiva, seja a repressão russa em casa ou os crimes de guerra na Ucrânia", reagiu Roth. O diretor da HRW acusou o Kremlin de tentar impedir que os cidadãos russos tomem conhecimento das atrocidades na Ucrânia.

 

  • Policial observa  corpos cobertos com lona após o bombardeio em Kramatorsk: ataque teve a condenação da comunidade internacional
    Policial observa corpos cobertos com lona após o bombardeio em Kramatorsk: ataque teve a condenação da comunidade internacional Foto: Fadel Senna/AFP
  • Ursula von der Leyen (C) diante de cova coletiva em Bucha
    Ursula von der Leyen (C) diante de cova coletiva em Bucha Foto: Sergei Supinsky/AFP

"Eles mataram meu pai com um tiro na cabeça e explodiram sua casa", diz Yevhen Kizilov

 (crédito: Yevhen Kizilov/Arquivo pessoal )
crédito: Yevhen Kizilov/Arquivo pessoal

"Deixei Bucha antes de a guerra começar, em uma viagem de negócios, e não mais voltei. Minha mãe, Lyudmila Kizilova, me telefonou no dia em que tudo aconteceu e me contou. Era 4 de março. Ela me ligou e disse que os soldados russos tinham entrado no jardim de sua casa e disparado contra a cabeça de meu pai, Valeriy Kizilov. Depois de assassinarem o meu pai, eles disseram à minha mãe que ficasse dentro do porão da casa e não saísse. Ela permaneceu ali por alguns dias.

Os soldados russos fizeram da residência de meus pais uma espécie de base; moraram ali por um tempo. Minha mãe escutava os militares fazendo planos. Depois, eles a moveram para o porão dos nossos vizinhos, do outro lado da rua, onde ficou com outras pessoas por mais dois ou três dias.

Minha irmã vivia a alguns quarteirões da casa de nossos pais. Ela foi até lá para buscar a nossa mãe. Quando caminhava pela Rua Yablonska, onde muitos corpos foram encontrados, ela literalmente pisava sobre os mortos para chegar até a casa, que ficava a apenas 50m daquela via. Lá, ela viu o corpo de nosso pai ainda estirado no centro do jardim. Os russos disseram à minha irmã que nossa mãe estava na casa vizinha. Os soldados pegaram o corpo de meu pai e o enterraram no mesmo local, ao lado da residência.

Minha mãe passou alguns dias no apartamento de minha irmã. As autoridades ucranianas fizeram um acordo com os russos, que permitiram a alguns civis saírem de Bucha. Ônibus foram à cidade e levaram algumas pessoas para Kiev. Minha mãe, minha irmã, o marido dela e dois filhos pequenos abandonaram Bucha no carro de meu cunhado, acompanhando os ônibus, em 11 de março. Depois da retirada das tropas russas de Bucha, recebemos notícias horríveis de familiares. Eles explodiram a casa de meus pais. 

Meu pai era um homem gentil e pacífico. Não tinha armas, jamais havia atirado. Ele era uma boa pessoa. Tinha quase 70 anos e era cheio de vida. Adorava nadar e sempre foi um atleta. Jogava futebol muito bem. Quando era jovem, papai costumava jogar com Oleg Blokhin, uma estrela do futebol da União Soviética. Eu e meu pai costumávamos nadar no lago. Momentos lindos que ficarão no passado. Nunca mais passarei o tempo com ele. Minha mãe foi morta pela tristeza, pela dor da perda. Ela sofre com a situação da nossa casa, em ruínas. Não tem mais lugar para viver. 

Não posso entender por que pessoas de outro país vieram até a nossa casa e mataram o meu pai. Assassinaram homens e mulheres nas ruas por diversão. Não havia uma única razão para isso. Os assassinos russos vieram e decidiram que tinham o direito de tirar a vida de pessoas pacíficas. Essa invasão é a ideia doentia de Putin, que deseja mudar a história do mundo e restaurar a União Soviética. Bucha se tornou o local com o pior impacto da invasão. Não posso voltar para lá, porque é um lugar muito perigoso, com minas intactas espalhadas pelas ruas." 

Jornalista, editor do site Ukrainska Pravda, 46 anos, morava em Bucha e hoje está refugiado na região de Ivano-Frankivsk (oeste da Ucrânia). Depoimento ao Correio, por telefone

 

  • Valeriy, executado pelas tropas russas, com a esposa, Lyudmila
    Valeriy, executado pelas tropas russas, com a esposa, Lyudmila Foto: Yevhen Kizilov/Arquivo pessoal
  • Yevhen Kizilov:
    Yevhen Kizilov: "Minha mãe foi morta pela tristeza e pela dor" Foto: Arquivo pessoal

Duas perguntas para Oleksandr Honcharenko, prefeito de Kramatorsk  

 (crédito: Arquivo pessoal )
crédito: Arquivo pessoal

O que exatamente acontecem em Kramatorsk?

Um ataque com míssil disparado pelos ocupantes russos à estação de trem de Kramatorsk deixou pelo menos 50 mortos. Havia cerca de 4 mil pessoas no local. Elas aguardavam o trem para fugirem da cidade. Entre os mortos, há cinco crianças. Pelo menos 90 civis ficaram feridos. Das 50 vítimas, 38 morreram de forma instantânea. O invasor é desprovido de valores humanos. Eles não estão travando uma guerra, estão levando à destruição do nosso povo ucraniano. O míssil utilizado continha munições de fragmentação. 

O senhor pode descrever exatamente o que viu na estação?

Foi algo horrível. Um mar de sangue. Eu cheguei à estação ferroviária cerca de 7 minutos depois do bombardeio, acompanhado de uma ambulância. Era apenas o horror. Sangue, muitos corpos. Vi uma criança decapitada. Não posso mais... Sinto muito.

Eu Acho...

 (crédito: LIONEL BONAVENTURE)
crédito: LIONEL BONAVENTURE

"Este horrível ataque parece ser parte de um padrão no qual as forças russas bombardeiam, indiscriminadamente, áreas civis na Ucrânia e atacam diretamente locais civis — como o teatro de Mariupol onde centenas de pessoas se abrigavam e o hospital pediátrico e maternidade, na mesma cidade. Esses ataques são consistentes com o que as tropas de Putin fizeram na Síria, onde bombardearam deliberadamente hospitais, escolas, mercados e prédios residenciais. Os ataques a estruturas civis são claramente crimes de guerra."

Kenneth Roth, diretor executivo da organização não governamental Human Rights Watch (HRW)

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