Guerra na Europa

Rússia toma Mariupol e ordena bloqueio em siderúrgica

Vladimir Putin celebra tomada da cidade portuária e ordena a soldados russos que não permitam a "nem uma mosca" sair de siderúrgica onde cerca de 2 mil pessoas estão entrincheiradas. Biden anuncia mais US$ 800 milhões em ajuda militar para Kiev

Rodrigo Craveiro
postado em 22/04/2022 06:00
Foto de satélite mostra túmulos abertos (acima) em cemitério em Manhush, 20km a oeste de Mariupol -  (crédito: Maxar Technologies/AFP)
Foto de satélite mostra túmulos abertos (acima) em cemitério em Manhush, 20km a oeste de Mariupol - (crédito: Maxar Technologies/AFP)

A ordem foi dada pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, ao seu ministro da Defesa, Sergey Shoigu. "Bloqueiem toda a área industrial para que nem mesmo uma mosca possa escapar", afirmou o titular do Kremlin, ao citar a siderúrgica de Azovstal, em Mariupol (sudeste da Ucrânia). Putin celebrou o "sucesso" na suposta tomada da cidade portuária e descartou uma invasão à planta industrial, onde pelo menos 2 mil pessoas estão entrincheiradas, entre civis e militares da 36ª Brigada de Fuzileiros Navais do Exército ucraniano, liderados pelo comandante Sergey Volyna.

Segundo Putin, "não há necessidade de entrar nestas catacumbas e rastejar no subsolo". "O fim do trabalho de libertação de Mariupol é um sucesso", comemorou o presidente russo. "Considero que o ataque proposto na zona industrial não é apropriado. Ordeno o cancelamento", completou. A reunião com Shoigu foi transmitida ao vivo pela televisão. A captura de Mariupol permitiria aos russos unir o Donbass, região no leste do país controlada por separatistas pró-Moscou, à Península da Crimeia, anexada em 2014. 

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, disse que  "ainda não há provas de que Mariupol tenha caído completamente", voltou a assegurar que  Putin "nunca terá sucesso" na ocupação da Ucrânia e anunciou nova ajuda militar de US$ 800 milhões (cerca de R$ 3,6 bilhões) à Ucrânia. O pacote adicional inclui armas de artilharia pesada, 72 obuses de 155mm com seus veículos, 144 mil cargas de munição e 121 drones táticos Phoenix Ghost. Biden alertou que a guerra, prestes a completar dois meses no domingo, entrou em "período crítico". 

Em entrevista ao Correio, o parlamentar ucraniano Sergiy Taruta — ex-governador de Donetsk, na região do Donbass (leste), e natural de Mariupol — classificou como "cínica" a declaração de Putin. "Ele sabe perfeitamente que em Azovstal, além dos militares, cerca de 500 deles feridos, há pelo menos mil civil se escondendo das bombas russas. Isso inclui mulheres, crianças e idosos. Algumas dessas pessoas estão doentes e precisam com urgência de cuidados médicos", afirmou. "A ordem de bloquear Azovstal equivale a impedir a saída de todos os feridos e demais civis. Os russos devem providenciar a abertura de um corredor humanitário para essas pessoas. O mundo deve cobrar isso de Putin. E isso tem que ser feito imediatamente!", acrescentou. 

Analista da Fundação de Iniciativas Democráticas Ilko Kucheriv (em Kiev), Petro Burkovsky vê dois objetivos na declaração de Putin sobre a suposta conquista de Mariupol. "Internamente, Putin precisa mostra que é bem-sucedido, apesar da derrota em Kiev e do naufrágio do cruzador russo Moskva. Para o mundo, ele usa a retórica para retratar a Ucrânia como relutante em relação às negociações", explicou à reportagem.

Refugiados de Mariupol se reencontram com familiares e amigos, na cidade de Zaporizhzhia
Refugiados de Mariupol se reencontram com familiares e amigos, na cidade de Zaporizhzhia (foto: Ed Jones/AFP)

Burkovsky citou o fato de o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, ter afirmado que Kiev não respondeu ao plano de paz apresentado por Moscou. "Há vários dias, o presidente Volodymyr Zelensky disse que Mariupol era uma 'linha vermelha' para as negociações. Os russos querem transmitir a ideia de que a Ucrânia não querer conversar depois de uma 'derrota' em Mariupol. A brigada de Mariupol está resistindo, covas coletivas foram descobertas perto da cidade, e os russos não mostraram progresso em nenhuma frente de batalha."

"Evidência"

As autoridades de Mariupol admitem que o número de civis mortos na cidade chegue a 2 mil. A empresa Maxar Technologies divulgou, ontem, imagens de satélite que mostram dezenas de covas coletivas abertas em um cemitério no limite noroeste do vilarejo de Manhush, situado 20km a noroeste de Mariupol. Cada cova teria 30m de comprimento. "Caminhões carregam os mortos e os despejam no aterro. Esta é uma evidência direta de crime de guerra e uma tentativa de encobri-lo", denunciou Petro Andriushchenko, conselheiro do prefeito de Mariupol, Vadym Boichenko.

O Ministério das Relações Exteriores ucraniano pediu a criação de um corredor humanitário para a retirada de parte dos 120 mil moradores que continuam em Mariupol sob condições insalubres, sem comida, sem água e sem energia elétrica. Um jornalista a agência France-Presse informou, ontem, que três ônibus procedentes de Mariupol chegaram à cifdade de Zaporizhzhya, 225km a noroeste. A vice-primeira-ministra ucraniana, Irina Vereshchuk, afirmou que quatro ônibus com civis tinham deixado a cidade. 

A batalha pelo Donbass, a bacia de mineração do leste, promete ser demorada. "A situação fica mais complicada a cada hora", escreveu no Telegram o governador de Lugansk, Sergei Gaidai. "Salvem-se (...) Saiam", alertou. A Organização das Nações Unidas (ONU) confirmou que o número de refugiados chegou ontem a 5 milhões. Outros 7,7 milhões de ucranianos tornaram-se deslocados internos. Em retaliação à guerra da Ucrânia, a Organização dos Estados Americanos (OEA) suspendeu a Rússia da posição de observador permanente. A medida tem efeito imediato, até que "cesse suas hostilidades" e "retire" as tropas da Ucrânia.

 

  • Foto de satélite mostra túmulos abertos (acima) em cemitério em Manhush, 20km a oeste de Mariupol
    Foto de satélite mostra túmulos abertos (acima) em cemitério em Manhush, 20km a oeste de Mariupol Foto: Maxar Technologies/AFP
  • Imagem de vídeo mostra fumaça após bombardeio à siderúrgica Azovstal e estaleiro destruído, em Mariupol
    Imagem de vídeo mostra fumaça após bombardeio à siderúrgica Azovstal e estaleiro destruído, em Mariupol Foto: Conselho Municipal de Mariupol/AFP
  • Refugiados de Mariupol se reencontram com familiares e amigos, na cidade de Zaporizhzhia
    Refugiados de Mariupol se reencontram com familiares e amigos, na cidade de Zaporizhzhia Foto: Ed Jones/AFP

As crianças da guerra

 (crédito: Iryna Fedorenko
crédito: Iryna Fedorenko "Semira"/Divulgação

As crianças no meio dos bombardeios

Iryna Fedorenko, 38 anos, deixou Mariupol em 2015, um ano depois de a Rússia anexar a Península da Crimeia. "A cidade tinha acabado de sofrer um bombardeio com foguetes Grad. Uma semana antes da guerra, meu filho e eu buscamos a minha mãe em Mariupol e a levamos para Kiev", contou ao Correio. Para escapar do estresse e mostrar toda a gama de sensações que envolvem os ucranianos, Iryna — cujo nome artístico é "Semira" — escolheu retratar as vítimas do conflito. "O primeiro trabalho da série 'As crianças da guerra' foi finalizado em 10 de março. O propósito da minha arte é fazer o espectador pensar, por meio de seu estado emocional e da experiência. A série, por sua vez, teve o objetivo de retratar as crianças durante a guerra, mas também mostrar as emoções do povo. No fundo, todos nós somos crianças. Sentimos medo, preocupações, angústia sobre o futuro e esperança. Queremos felicidade e amor. Tudo isso está nas minhas pinturas. São emoções experimentadas pelas mesmas pessoas em diferentes momentos. Essa série mostra sentimentos universais", acrescentou. Semira perdeu vários amigos e familiares em Mariupol. "Não quero falar sobre isso", desabafou. 

 

  • Pintura da série
    Pintura da série "Crianças da Guerra", da artista ucraniana Semira Foto: Iryna Fedorenko "Semira"/Divulgação
  • Pintura da série
    Pintura da série "Crianças da Guerra", da artista ucraniana Semira Foto: Fotos:Iryna Fedorenko "Semira"/Divulgação
  • Pintura da série
    Pintura da série "Crianças da Guerra", da artista ucraniana Semira Foto: Iryna Fedorenko "Semira"/Divulgação
  • Pintura da série
    Pintura da série "Crianças da Guerra", da artista ucraniana Semira Foto: Iryna Fedorenko "Semira"/Divulgação

Eu acho...

 (crédito: Arquivo pessoal )
crédito: Arquivo pessoal

EU ACHO...

"Toda a política de Putin é construída sobre mentiras. Putin também mente sobre a captura de Mariupol. Os defensores de Mariupol continuam a resistir contra as tropas russas, destruindo seus equipamentos e eliminando seus soldados. Ainda que a situação seja muito difícil, o Exército ucraniano continua a defender Mariupol."

Sergiy Taruta, parlamentar ucraniano e ex-governador de Donetsk (no Donbass, leste da Ucrânia)

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