Turquia

A luta de mãe para descobrir verdade sobre desabamentos em terremoto na Turquia há um ano

Um ano depois de um forte terremoto ter atingido o sul da Turquia, ficou claro que milhares de vidas poderiam ter sido salvas se os regulamentos de construção tivessem sido observados.

Nurgül Göksu: de dona de casa a investigadora -  (crédito: BBC)
Nurgül Göksu: de dona de casa a investigadora - (crédito: BBC)
BBC
Esra Yalç?nalp em Istambul e Osman Kaytazoglu em Londres - Da BBC Turkish
postado em 06/02/2024 11:30 / atualizado em 06/02/2024 11:35

O dia 6 de fevereiro marca um ano desde que um poderoso terremoto atingiu o sul da Turquia, matando mais de 50 mil pessoas. Hoje está claro que muitas vidas poderiam ter sido salvas se todos os regulamentos de construção civil tivessem sido observados.

Uma mãe assumiu para si a missão de descobrir o que causou o desabamento do prédio onde sua família morava.

Antes de fevereiro do ano passado, Nurgül Göksu era, como ela diz, uma dona de casa normal. Ela adorava cozinhar o "içli köfte", prato tradicional de almôndegas, uma de suas receitas favoritas.

Ela morava nos arredores de Istambul, enquanto seu filho de 31 anos, Ahmet Can Zabun, casado e com um filho pequeno, morava no sudeste da Turquia.

Ahmet Can não era filho único de Nurgül, mas como filho mais velho que ela teve quando mãe adolescente, o relacionamento deles era especial.

Ela pagou sua universidade e tinha muito orgulho do que ele conquistara na vida. Ela própria não conseguiu cursar a universidade e teve que terminar a escola por correspondência.

No dia 6 de fevereiro de 2023, o seu mundo virou de cabeça para baixo: a cidade de Kahramanmaras, onde vivia Ahmet Can, tornou-se o epicentro de um poderoso terremoto.

Pelo menos 7 mil edifícios na cidade desabaram com o terremoto, incluindo o de Ahmet Can.

Nurgül correu para Kahramanmaras em busca de seu filho, sua esposa e seu filho, ou, como ela diz, suas "três crianças".

O Edifício Ezgi

Embora muitos edifícios em Kahramanmaras tenham sido destruídos no terremoto, a área onde vivia o filho de Nurgül não parece ter sido tão afetada.

Seu bloco residencial de dez andares, conhecido como Edifício Ezgi, foi um dos poucos que foram demolidos. O resto do bairro quase não foi danificado.

Discrepâncias semelhantes ocorreram também em outras zonas afetadas pelo terremoto, e muitos na Turquia começaram a perguntar por que é que alguns edifícios ruíram e outros não, mesmo que estivessem situados um ao lado do outro e tivessem altura, idade e estilo de construção semelhantes.

Nurgül esperou as equipes de resgate vasculharem as ruínas do Edifício Ezgi.

Oito dias depois, os corpos de Ahmet Can, de sua esposa Nesibe e de sua filha Asude, neta de Nurgül, foram encontrados.

Tanto Ahmet Can quanto Nesibe eram advogados. O bebê Asude tinha apenas seis meses.

"Perder não apenas uma, mas três crianças é realmente difícil", diz Nurgül.

Ela costuma compartilhar fotos de família em contas de mídia social que criou após o desastre.

"Eu não queria que eles morressem em vão e que eu simplesmente os esquecesse”, diz Nurgül.

No total, 35 pessoas morreram no desabamento do Edifício Ezgi. Apenas dois sobreviveram.

Virando investigadora

Nurgül decidiu descobrir por que o prédio de seu filho desabou e outros não. Mas ela precisava de evidências e conhecimento especializado.

Ela conversou com engenheiros civis locais e especialistas em construção. Ela aprendeu como encontrar fotos de "antes" e "depois" das construções na internet, começou a entender os regulamentos de construção e quais processos eram necessários para aprovar quaisquer alterações.

Então, em junho do ano passado, ela encontrou um vídeo no YouTube que a BBC Turkish (serviço de notícias em turco da BBC) fez sobre o colapso de um edifício na cidade de Izmir após um terremoto em 2020.

Nurgül nos enviou mensagens nas redes sociais pedindo ajuda para analisar o colapso do Edifício Ezgi.

Mantivemos contato com ela durante meses, enquanto ela continuava investigando se as alterações no Edifício Ezgi estavam corretas.

Colocamos suas descobertas em uma série de gráficos para ilustrar o que aconteceu.

"Tentei encontrar o máximo de provas que pude no local onde perdi meu filho. Isso não deveria ser atribuição minha", diz Nurgül.

"Mas parece que se eu não tivesse feito isso, não teríamos encontrado nada."

Nurgül descobriu que em muitas áreas atingidas pelo terremoto as investigações abertas após alegações de violações dos regulamentos de construção foram encerradas devido à insuficiência de provas.

Ela deu inúmeras entrevistas na TV denunciando seu caso.

Apesar de não ser profissional das redes sociais, ela abriu uma conta no Instagram para o Edifício Ezgi, tentando coletar informações de outras famílias de pessoas que morreram e de especialistas em construção.

Nurgül diz que o procurador do caso poderia ter reunido provas sobre a forma como o edifício foi inicialmente construído a partir de registros públicos.

Ela queria ter certeza de que todos os responsáveis pelo desabamento do edifício seriam levados à Justiça – razão pela qual ela se concentrou em reunir evidências de como as restaurações e alterações no edifício foram realizadas.

O Ministério Público da Turquia abriu um inquérito e encomendou um relatório pericial sobre o desabamento do Edifício Ezgi, que foi concluído em julho de 2023. As provas que Nurgül reuniu foram consideradas fundamentais no relatório.

O que diz o relatório?

O relatório concluiu que muitas alterações no edifício violavam os regulamentos de construção existentes e eram ilegais.

Beyza Ta?k?n, professor associado de Engenharia Civil na Universidade Técnica de Istambul, disse à BBC que o fato de os edifícios ao redor terem permanecido intactos indica que havia um grande problema estrutural com o Edifício Ezgi.

O relatório revelou que um elemento-chave de suporte nunca foi construído adequadamente ou foi alterado posteriormente.

A análise do laboratório oficial também mostrou que alguns materiais e processos de construção não atendiam aos padrões aprovados.

E então houve outra descoberta.

O café no térreo

Desde o colapso do edifício Ezgi, surgiram questões sobre a renovação anterior de um café no piso térreo.

A reforma envolveu a fusão de três unidades separadas no térreo em uma grande área. Um elevador de serviço também foi instalado, removendo parte do piso e várias grandes janelas para ventilação.

Outra alteração foi a remoção ou substituição de uma parede de sustentação, que estava incluída na concepção original do edifício, mas desapareceu posteriormente.

Em 2021, os residentes de Ezgi assinaram uma petição à autoridade local. Eles pediram uma inspeção, pois temiam que as renovações tivessem comprometido a solidez estrutural do seu edifício.

A resposta das autoridades foi que "nenhum desvio" do projeto arquitetônico original havia sido encontrado.

Nurgül se pergunta agora porque é que o pedido foi ignorado e se as autoridades "sequer olharam para o edifício quando escreveram esta resposta".

Assim que o relatório chegou, o Ministério Público abriu um processo criminal.

O designer de interiores do café do piso térreo e o engenheiro principal responsável pela construção inicial do edifício foram presos em setembro de 2023 e agora aguardam julgamento.

Também foi emitido um mandado de prisão para o empreiteiro, mas que não foi executado, provavelmente devido à sua idade avançada.

Seu advogado rejeitou as acusações de que seu cliente era o responsável pelo colapso e atribuiu a culpa a alterações posteriores. O advogado ainda não respondeu às perguntas que enviamos.

Os proprietários do café, cuja prisão também foi ordenada pelo Ministério Público, desapareceram e continuam foragidos. Em setembro do ano passado, eles recorreram às redes sociais para negar serem responsáveis por quaisquer violações dos regulamentos de construção nas renovações do piso térreo.

As autoridades locais ainda serão questionadas.

Pedimos ao Ministério do Interior da Turquia que respondesse algumas perguntas, mas não tivemos retorno.

O legado

As prisões e acusações criminais não são exclusivas do caso Ezgi – dezenas de casos ligados a construções defeituosas e alterações ilegais de edifícios foram abertos em áreas atingidas pelo terremoto.

Em julho do ano passado, o Ministério da Justiça da Turquia disse que mais de 350 pessoas tinham sido presas.

Enquanto trabalha no seu próprio caso, Nurgül também tem ajudado outras pessoas, compartilhando o seu conhecimento sobre regulamentos de construção e engenharia civil, bem como sua experiência na coleta de dados.

Ela diz que está determinada a encontrar os responsáveis pelo colapso para garantir que ninguém se sinta tentado a ignorar ou violar os regulamentos de construção civil no futuro.

"Talvez por causa do Edifício Ezgi, tais coisas não aconteçam no futuro. Estou lutando para dar o exemplo."

Gostou da matéria? Escolha como acompanhar as principais notícias do Correio:
Ícone do whatsapp
Ícone do telegram

Dê a sua opinião! O Correio tem um espaço na edição impressa para publicar a opinião dos leitores pelo e-mail sredat.df@dabr.com.br