ESCÓCIA

A mulher que ajudou a prender estuprador que fingiu a própria morte para fugir da polícia

Jade Skea era adolescente quando conheceu o carismático comerciante de rua Kim Avis. Ela não sabia que esse encontro a levaria a um relacionamento controlador e abusivo de uma década, além de a uma caçada humana internacional.

A mulher que ajudou a prender estuprador que fingiu a própria morte para fugir da polícia -  (crédito: BBC Geral)
A mulher que ajudou a prender estuprador que fingiu a própria morte para fugir da polícia - (crédito: BBC Geral)
BBC
Myles Bonnar e Calum McKay - Da BBC Escócia
postado em 01/04/2024 08:02 / atualizado em 01/04/2024 11:47

Jade Skea era adolescente quando conheceu o carismático comerciante de rua Kim Avis.

Ela não sabia que esse encontro a levaria a um relacionamento controlador e abusivo de uma década, além de uma história que envolveu uma simulação de morte, uma caçada humana internacional e um julgamento em um tribunal superior da Escócia.

Pela primeira vez, Jade contou a história de como ela e outros levaram Kim Avis à Justiça.

Tudo começou no início dos anos 2000, quando Avis tinha uma banca de joias no coração de Inverness, na Escócia, que ela costumava visitar com amigos.

Avis era bem conhecido na cidade por sua arrecadação de fundos para caridade - incluindo por fazer ambiciosos percursos nadando no Lago Ness - e aparecia regularmente na imprensa escocesa.

"Era quase como se ele fosse uma espécie de celebridade local", diz ela.

Aos 18 anos, Jade via regularmente Avis, que estava na casa dos 40 anos.

"Ele não era como os outros adultos", lembra Jade. "Nós meio que sentíamos que ele era um de nós."

À medida que o relacionamento deles se tornou mais sério, Jade Skea se isolou de sua família e dos amigos e foi viver com Avis em uma casa nos arredores de Inverness.

"Olhando para trás agora, sei que parte do plano era apenas me isolar de tudo", diz ela.

Em pouco tempo, Jade começaria a ver o outro lado de Avis.

"Ele apareceu uma noite e agiu de forma bastante errática. Estava chateado com alguma coisa", diz ela.

"Ele subiu em uma mesa de piquenique que estava fora da casa e começou a uivar e a fazer barulhos estranhos de animais."

Jade conta que depois disso Avis bateu nela pela primeira vez.

Avis passou a submeter Jade a uma vida de violência física e abusos. Ele a estuprou novamente em sua casa, chamada por ele de "Covil dos Lobos".

"Lembro-me de sentir que aquilo era apenas o fim, que esta seria a minha vida para sempre”, diz Jade.

Em 2015, após anos de violência, Jade decidiu agir.

"Ele nunca pensou que eu iria denunciá-lo à polícia", diz ela.

"Não acho que ele pensasse que eu tinha isso em mim. Ele provavelmente ficou bastante chocado."

E Jade não estava sozinha.

Três outras mulheres se apresentaram para contar as suas histórias de como Avis as estuprou e abusou ao longo de décadas. Duas delas eram crianças na época do abuso.

"Quando outras pessoas se apresentaram, nesse ponto tudo se desfez completamente para ele", diz Jade.

Avis foi processado por múltiplos estupros e agressões sexuais contra quatro mulheres. Ele foi libertado sob fiança e a data do julgamento foi marcada para março de 2019.

O problema era que ele não estava mais no país.

Kim Avis vendeu rapidamente seu "Covil dos Lobos" por 245 mil libras, comprou uma passagem de avião e viajou para Monastery Beach, na Califórnia.

O local é conhecido por frequentes afogamentos acidentais. Era lá que Avis tentaria simular sua própria morte.

"Ele não tinha nada a perder naquele momento. Se ele não tem nada a perder, você simplesmente não sabe do que ele é capaz, porque ele está completamente perturbado", diz Jade.

O filho mais velho de Avis, que estava com ele nos EUA, denunciou seu desaparecimento, mas após três dias de buscas, ficou claro que o afogamento era uma farsa e que o estuprador em série estava à solta.

Documentos policiais do Departamento do Xerife do Condado de Monterey registraram denúncias de pessoas que dizem ter visto Avis por toda a costa da Califórnia nos dias seguintes ao desaparecimento.

Uma testemunha descreveu Avis como um "escocês maluco", outra falou sobre como o homem desaparecido estava indo para Montana, onde comprou uma propriedade.

Meses depois, um homem misterioso com um sotaque incomum chegou a uma barraca que vendia pedras preciosas nas montanhas perto de Colorado Springs, a cerca de 2.100 quilômetros de onde Avis havia “desaparecido”.

O homem, que disse se chamar Cameron MacGregor, gastou cerca de U$ 3 mil na barraca, administrada por uma mulher chamada Angie.

"Ele era realmente esquivo", diz ela. "Eu sabia que algo estava errado."

O homem alegou ser escocês e exibia uma tatuagem inacabada de um lobo gigante nas costas.

Angie diz que ele era um homem simples, mas que sempre tinha muito dinheiro.

"Ele estava sempre jogando dinheiro por aí”, diz ela. "Ele comprava comida para todo mundo e poderia estar comprando amigos."

Ele disse a Angie que era cidadão americano.

"Pedi para ver o passaporte dele e ele ficou bravo. Ele dirigiu por cerca de uma hora. Pensei: 'isso é estranho, isso é realmente peculiar, ele está falando sobre uma caça às bruxas, algo não está certo aqui.'"

Angie não acreditava mais que Cameron MacGregor fosse quem dizia ser.

"Tirei uma foto das placas do carro dele. Eu tinha um amigo policial. Pedi que ele verificasse as placas", conta.

Angie diz que recebeu um telefonema do US Marshals, uma agência governamental que caça fugitivos além das fronteiras estaduais.

"Eles disseram 'fique longe dele, ele é perigoso'", diz ela.

Eles pediram a Angie informações sobre o paradeiro de Avis.

Os US Marshals reuniram várias denúncias, relatos de testemunhas e transações financeiras do escocês na área.

Depois, receberam outra informação que dava conta de que Avis estava em um hotel.

Os policiais procuraram todas as rotas de fuga possíveis durante horas enquanto esperavam que Avis aparecesse.

Seus últimos momentos de liberdade foram capturados por câmeras corporais usadas pela polícia local.

Ele foi processado em Denver antes de ser transferido para uma prisão federal para aguardar a extradição para a Escócia.

Quando foi preso, Avis tinha mais de US$ 50 mil em dinheiro, além de moedas de ouro. Ele também tinha uma van nova que comprou nos EUA.

Angie diz que o dinheiro ficou com Avis, então ela recebeu uma procuração. Ela acabou vendendo a van por US$ 20 mil e devolveu a maior parte do dinheiro restante para Avis.

Enquanto ele estava na prisão federal, Angie o visitou três vezes. Avis não tinha ideia de que ela provavelmente estava por trás de sua prisão.

A sua última visita foi depois de Avis ter regressado à prisão na Escócia. Quando ela o viu na prisão em Edimburgo, ela decidiu lhe contar um segredo.

"Eu disse: 'quer saber, fui eu quem entregou você'", lembra ela.

"Ele estava chateado. Eu disse 'você não entende. Você mentiu para a garota americana errada'."

Mais de dois anos após desaparecer na costa da Califórnia, Avis foi condenado por estupro e crimes sexuais contra quatro mulheres em junho de 2021 na Escócia.

Foi condenado a 15 anos de prisão – 12 anos por crimes sexuais e três anos por não comparecer ao tribunal.

Ele foi levado para um presídio em Edimburgo, onde permanece até hoje.

"Não acho que ele deveria ser libertado", diz Jade.

"Ele é um perigo para qualquer pessoa com quem tenha contato de alguma forma. Ele arruinará absolutamente qualquer pessoa com quem estiver por perto por tempo suficiente. E eu não acho que ele deveria ser solto novamente."

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