Novos rumos

Observatório de vítimas de abuso lança plataforma para monitorar cardeais

Associação de vítimas de abusos sexuais cometidos por clérigos vai a Roma, às vésperas do conclave, lançar site no qual é possível consultar como cada um dos chamados Príncipes da Igreja se posicionaram em relação a denúncias de crimes do tipo

A uma semana do conclave, uma associação de vítimas de crimes sexuais lançou, em Roma, um observatório (www.conclavewatch.org) no qual é possível pesquisar a conduta dos cardeais em relação a abusos do tipo cometidos por membros da Igreja. No início da semana, os religiosos que participarão da escolha do novo pontífice ressaltaram, em uma reunião, que esse é um dos principais desafios a serem enfrentados pela Cúria. 

"O Vaticano, ao anunciar o conclave, disse que o abuso sexual será uma prioridade máxima para o próximo papa, o que é, novamente, uma admissão de que os papas anteriores não fizeram esse trabalho", disse, em uma coletiva de imprensa transmitida pela internet, Sarah Pearson, porta-voz da Rede de Sobreviventes de Abusados por Padres (Snap), organização norte-americana responsável pelo observatório. "O que pedimos é tolerância zero."

No site, que está sendo atualizado, é possível pesquisar como os cardeais se comportaram em relação a denúncias de abuso sexual no seio da Igreja. No dia do lançamento, havia informações sobre 20 religiosos, mas, segundo a Snap, até o início do conclave, em 7 de maio, o perfil dos 252 estará disponível. Desses, 133 votarão para escolher o novo pontífice. "Não estamos dizendo que esses indivíduos são culpados", ressaltou Peter Isley, membro fundador da Snap. "Estamos dizendo que há evidências convincentes de que deveria haver uma investigação completa sobre a conduta desses cardeais em particular."

As informações citadas no observatório são públicas e há indicação das fontes. Não há denúncias sobre a prática de abuso sexual por parte dos cardeais cujos perfis estão disponíveis. Porém, eles são acusados pela Snap de omissão diante de relatos sobre outros membros do clero. É o caso do húngaro Peter Erdo, arcebispo da Arquidiocese de Esztergom-Budapeste. O clérigo, que consta em algumas listas de candidatos em potencial ao pontificado, teria acobertado crimes cometidos pelo então Frei András Pajor, depois suspenso e aposentado por Erdo. 

Desculpas

Para observadores que acompanharam o caso, embora tenha destituído Pajor, o arcebispo em nenhum momento reconheceu publicamente os atos do padre, que teria abusado de uma série de crianças. Além disso, a Conferência Episcopal Húngara não pediu desculpas diretas às vítimas, que foram identificadas pela imprensa.

Segundo Peter Isley, as vítimas de abuso sexual por membros da igreja — ele mesmo se identifica como uma — exigem "tolerância zero", o que inclui punir casos de omissão. "Você tem que disciplinar e punir qualquer autoridade da Igreja, incluindo qualquer bispo ou cardeal que tenha encoberto esses crimes. Eles não podem mais exercer nenhuma posição de autoridade na Igreja Católica. Isso é tolerância zero."

Isley e Pearson não pouparam o papa Francisco, que, apesar de medidas como a criação, em 2014, de um painel internacional para recomendar proteção aos menores dentro da Igreja. Controversa, a comissão foi acusada pelos próprios membros de falta de cooperação. Em março de 2023, o último integrante, Hans Zollner, um padre jesuíta alemão, renunciou ao cargo, alegando preocupação com "responsabilidade, conformidade, prestação de contas e transparência".

A Snap também critica a falta de envolvimento de Francisco com a denúncia sobre abusos de crianças surdas no Instituto Próvolo, província de Mendoza, Argentina. Os padres Nicola Corradi e Horacio Corbacho foram julgados e condenados a mais e 40 anos de prisão. As 25 vítimas ouvidas pela Justiça tinham entre 4 e 17 anos na época dos crimes. Algumas tentaram audiências com o papa argentino, mas não receberam resposta. 

Chile

Nos 12 anos de atuação no Vaticano, porém, Francisco foi o papa que mais se posicionou em relação aos escândalos de abusos sexuais na Igreja. Em 2018, durante uma viagem ao Chile, o pontífice se envolveu em uma crise que o teria levado a enfatizar a luta contra esses crimes. 

Em uma viagem ao Chile, primeiramente o papa defendeu um padre idoso, acusado de abuso sexual, mas uma série de revelações sobre a Igreja do Chile o fez admitir que foram cometidos "graves equívocos". A atitude é considerada sem precedentes. Em resposta à omissão da Arquidiocese, Francisco demitiu todos os bispos chilenos. No ano seguinte, o pontífice destituiu e expulsou da Igreja o ex-cardeal norte-americano Theodore McCarrick, considerado culpado em um tribunal do Vaticano de abusar sexualmente de um adolescente na década de 1970.

No mesmo ano da expulsão de MCarrick, que morreu recentemente aos 93 anos, Francisco eliminou o sigilo pontifício sobre as agressões sexuais de crianças. Assim, denúncias, testemunhos e documentos dos julgamentos internos na Igreja podem ser entregues à Justiça civil, embora não haja nenhuma obrigação. As vítimas também têm acesso a arquivos e sentenças.

Com o texto Vos Estis Lux Mundi, o papa argentino tornou obrigatório comunicar à Igreja sobre qualquer suspeita de agressão sexual ou assédio, assim como qualquer tentativa da hierarquia de encobrir o fato. Contudo, associações de vítimas acreditam que ainda há pouca transparência pública. "O que precisamos do próximo papa é uma ação significativa, não mais retórica (...) que revele os nomes dos milhares de sacerdotes declarados culpados até a data, segundo a lei da Igreja", disse, à agência AFP, Barrett Doyle, codiretora da organização não governamental norte-americana Bishop Accountability, que documenta a violência clerical.

 

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