Estados Unidos

Zohran Mamdani assume a prefeitura de Nova York e promete governar com "ousadia"

No primeiro discurso para os apoiadores após a posse, o primeiro prefeito muçulmano e socialista de Nova York reconheceu os desafios que tem pela frente. Mas garantiu que mostrará "que a esquerda pode governar"

Entre a procuradora-geral (E) e a esposa, Zohran Mamdani presta juramento sobre um exemplar do Corão: solenidade ponteada de simbolismos -  (crédito:  Amir Hamja/POOL/AFP)
Entre a procuradora-geral (E) e a esposa, Zohran Mamdani presta juramento sobre um exemplar do Corão: solenidade ponteada de simbolismos - (crédito: Amir Hamja/POOL/AFP)

No primeiro discurso para uma multidão de apoiadores, horas depois de assumir formalmente o cargo, o novo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, prometeu que governará "com ousadia", sem renunciar ao perfil autoproclamado de "socialista democrático e sem remorsos". Estrela em ascensão no Partido Democrata, esse político de 34 anos era praticamente desconhecido até um ano atrás. Primeiro muçulmano eleito para comandar a principal metrópole dos Estados Unidos, ele fez o juramento de posse pouco depois da 0h de quinta-feira (1/1), com a mão pousada não sobre a Bíblia, como de costume no país, mas sobre o Corão, livro sagrado do islã.

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Diante da sede da prefeitura, já no fim da manhã, Mamdani reafirmou a disposição de fazer uma gestão fiel às ideias que apresentou desde a campanha vitoriosa nas primárias democratas, em que prevaleceu sobre o ex-governador Andrew Cuomo. Dividindo o palanque com aliados da ala progressista do partido, como o senador Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, ele reconheceu o tamanho do desafio a que se propõe. "Muitos vão estar observando", advertiu os correligionários. "Querem saber se a esquerda pode governar. Querem saber se os problemas que os afligem podem ser resolvidos", prosseguiu, para depois prometer: "Faremos algo que os nova-iorquinos fazem melhor do que qualquer outra pessoa. Seremos um exemplo para o mundo".

Simbolismos

O ato formal e solene de posse foi realizado no subsolo da estação de metrô (desativada) City Hall, que fica debaixo da prefeitura, sob a presidência da procuradora-geral de Nova York, Letitia James — como Mamdani, uma opositora ferrenha do presidente Donald Trump. Colocado entre ela e a própria esposa, Rama Duwaji, que segurava o Corão, o prefeito prestou o juramento, com os pais na assistência. De acordo com a assessoria, o local foi escolhido para sinalizar, simbolicamente, o compromisso do novo titular "com os trabalhadores da cidade".

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O jornal The New York Times revelou que Mamdani usou, no juramento, três exemplares do livro sagrado islâmico. Dois pertencem à família, e o terceiro foi de Arturo Schomburg, acadêmico e ativista de origem porto-riquenha conhecido por seus estudos sobre a diáspora africana nos EUA. Nascido em Uganda, filho de um professor universitário e uma cineasta, o novo prefeito não é apenas o primeiro muçulmano a assumir o cargo, e também o seu ocupante mais jovem: é também pioneiro pela ascendência sul-asiática — os pais são originários da Índia, e a família se mudou para Nova York quando ele tinha 7 anos. Portanto, depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, e com a comunidade muçulmana cercada por suspeitas e preconceitos. Mamdani obteve cidadania norte-americana em 2018.

"Esperança política"

No centro de Manhattan, milhares de pessoas se aglomeraram para assistir à cerimônia de posse em telões. Muitas usavam gorros amarelos e azuis com o primeiro nome do prefeito estampado. "É a primeira vez nas nossas vidas, para ambos, que sentimos um lampejo de esperança política", disse Jacob Byerly, cientista de 31 anos, acompanhado da mulher, Auburn, uma arquiteta de 34.

Observadores da cena política norte-americana, e da nova-iorquina, em particulas, se debruçam desde logo sobre a questão de se o prefeito conseguirá cumprir sua agenda ambiciosa, que prevê o congelamento dos preços dos aluguéis, o acesso universal a creches e ônibus gratuitos. "O simbolismo tem alcance limitado entre os eleitores. Agora, os resultados começam a importar muito mais", analisa John Kane,d a Universidade de Nova York.

Além dos cuidados incontornáveis no trato com a influente comunidade judaica, parte importante da base eleitoral do Partido Democrata, Mamdani terá de administrar com tato e sutileza as relações com Donald Trump. Durante a disputa pela prefeitura, o presidente, que é um conservador do Partido Republicano e um nova-iorquino, chegou a ameaçar a cidade com um corte de verbas, caso o socialista muçulmano fosse o vencedor. Chamado de "lunático comunista", o agora prefeito chegou a classificar o Trump como "fascista". Dias depois da eleição, porém, os dois mantiveram na Casa Branca um encontro que ambos consideraram surpreendentemente cordial.

Um teste para a convivência serão as operações policiais ostensivas de combate à imigração irregular, um dos traços marcantes do primeiro ano de mandato do republicano em seu retorno à Casa Branca. Mamdani colocou a defesa dos estrangeiros e seus descendentes entre os temas centrais de sua campanha. Já como prefeito eleito, publicou nas redes sociais um vídeo orientando os ativistas da causa e os alvos potenciais sobre como se contrapor à caçada, e reafirmou a promessa de protegê-los.

 


Novos ataques contra o narcotráfico no Caribe

O ano terminou com mais oito mortes em ataques da força aeronaval dos Estados Unidos contra três embarcações suspeitas de serem utilizadas pelo narcotráfico em águas internacionais do Mar do Caribe. Os novos episódios elevam para ao menos 115 o número de vítimas da ofensiva ordenada em setembro pelo presidente Donald Trump, sob o lema de impedir a entrada de drogas enviadas para o país do litoral sul-americano — em especial, da Venezuela e da Colômbia.

O Comando Sul dos EUA (Southcom), responsável pelas Américas Central e do Sul, anunciou duas rodadas de ataques realizados nos últimos dois dias de 2025. Na terça-feira, "três embarcações do narcotráfico viajavam em comboio" quando foram atacadas em "águas internacionais", afirmaram os militares em um comunicado no X. "Três narcoterroristas a bordo da primeira embarcação foram abatidos no enfrentamento. Os restantes abandonaram as outras duas embarcações, saltando pela borda e se afastando", complementa o texto.

Um vídeo anexo mostrava três botes navegando próximos. Em seguida, uma série de explosões os atingiram. Como nas dezenas de ataques, SouthCom não apresentou provas de que se tratava de narcotraficantes. A localização exata dos ataques não foi informada de imediato. O Exército relatou que havia notificado a Guarda Costeira para "acionar o sistema de busca e resgate", sem oferecer mais detalhes sobre o destino dos que estavam a bordo dos outros botes. Um segundo comunicado informou sobre ataques contra outras duas embarcações, realizados na quarta-feira, nos quais cinco pessoas morreram. Novamente, não estava claro onde ocorreram os ataques.

"Execuções"

Especialistas em direito internacional e grupos de direitos humanos afirmam que as operações militares no Caribe equivalem a "execuções extrajudiciais", pois, aparentemente, tiveram como alvos civis que não representavam ameaça imediata para os EUA. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos tem insistido com as autoridades americanas para que investiguem a legalidade dos ataques.

A mobilização militar no Caribe, encabeçada pelo porta-aviões USS Gerald Ford, o mais poderoso do mundo, faz parte do cerco que o governo Trump procura montar em torno do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, apontado como o chefe de um cartel de drogas. Maduro refuta a acusação e sustenta que Washington tenta provocar a mudança do regime político em seu país para se apropriar de suas enormes reservas de petróleo e gás — tidas como as maiores do planeta.

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postado em 02/01/2026 05:50
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