
Ao menos 40 pessoas morreram e 119 ficaram feridas após um incêndio na estação de esqui de Crans-Montana, na Suíça, nesta quinta-feira (1º/1), de acordo com a polícia.
O incidente ocorreu à 1h30 do horário local (21h30 do horário de Brasília) no Bar Le Constellation, onde ocorria uma comemoração de Ano Novo.
Nesta sexta-feira (2/1), a procuradora-geral do cantão de Valais, Beatrice Pilloud, disse que o incêndio teria começado quando velas de faísca - no mercado brasileiro, também chamadas de vela vulcão -, colocadas em garrafas de champanhe, entraram em contato com o teto do estabelecimento.
Autoridades dizem não saber quantas pessoas estavam no bar no momento da tragédia, mas isso será apurado nas investigações.
Mathias Reynard, chefe do governo regional do cantão de Valais, onde ocorreu a tragédia, afirmou que há "um número significativo" de feridos em estado crítico.
Ele afirmou que a identificação dos feridos e das vítimas fatais vai "levar tempo", reconhecendo no entanto que esta espera é "insuportável".
O time francês FC Metz confirmou que um de seus jogadores, da categoria juvenil, está entre os feridos e foi transferido um hospital na Alemanha. Tahirys dos Santos, de 19 anos, foi "queimado de forma grave", disse o clube.
O presidente suíço, Guy Parmelin, classificou o incêndio como "uma das piores tragédias que o país já viveu".
Falando à BBC Radio 4, Robert Larribau, chefe do Centro de Comunicação Médica de Emergência dos Hospitais Universitários de Genebra, disse que algumas das vítimas são muito jovens, com idades entre 15 e 25 anos.
Algumas sofreram queimaduras internas no corpo, após inalarem fumaça.
Entre os mortos e feridos, acredita-se que há pessoas de várias nacionalidades, que estavam passando o fim de ano nos Alpes suíços.
Entre os 119 feridos, 71 são suíços, 14 franceses, 11 italianos, quatro sérvios, um bósnio, um belga, um luxemburguês, um polonês e um português. Outros 14 ainda não tiveram a nacionalidade revelada.
Três cidadãos italianos foram transferidos para um hospital em seu país, na cidade de Milão.
O Ministério das Relações Exteriores da França afirmou que oito cidadãos do país são considerados desaparecidos após a ocorrência na Suíça e podem estar entre os mortos.
O Ministério das Relações Exteriores da Itália chegou a informar que 16 cidadãos italianos estavam desaparecidos.
Testemunhas relatam uso de velas
Duas pessoas de nacionalidade francesa, Emma e Albane, relataram ao canal francês BFMTV que o incêndio teria começado porque uma vela foi colocada muito próxima ao teto, que teria então pegado fogo.
Ambas estavam no bar Le Constellation comemorando o Ano Novo.
Elas disseram que uma das garçonetes colocou velas de aniversário em cima de algumas garrafas de champanhe e que uma delas foi erguida.
"Em questão de segundos, todo o teto estava em chamas. Tudo era de madeira", acrescentaram, emendando que as chamas "começaram a subir muito rápido" e que "todo o teto estava pegando fogo, até o primeiro andar".
A BBC encontrou um aparente vídeo promocional do bar Le Constellation no YouTube, publicado em maio de 2024. As imagens mostram mulheres usando capacetes de motociclista caminhando pelo bar enquanto carregam sinalizadores em garrafas de bebidas alcoólicas acima da cabeça.
A evacuação foi "muito difícil", afirmaram as turistas francesas, porque a rota de fuga do local era "estreita" e a escada que levava para a rua era "ainda mais estreita".
Havia "cerca de 200 pessoas tentando sair em 30 segundos por uma escadaria muito estreita", relataram.
"Tivemos muita sorte", concluíram as sobreviventes.
Um homem contou à agência de notícias AFP que ficou preso dentro do local em chamas e precisou quebrar uma janela para conseguir escapar.
"Ficamos presos, muita gente ficou presa. Não conseguíamos enxergar devido à fumaça", disse. "Não sabíamos como iríamos sair."
"Eu estava no subsolo. Eu e meus amigos estávamos nos divertindo; infelizmente, alguns dos nossos amigos não estão mais conosco por causa do incêndio."
Sobre os momentos antes do início do incêndio, ele afirmou que havia garçonetes no bar "com garrafas de champanhe com sinalizadores muito próximos do teto", e que o "fogo se espalhou de repente".
Outra testemunha, Alex, de 21 anos, contou à emissora suíça RTS que tinha acabado de chegar do lado de fora do bar quando as primeiras vítimas do incêndio começaram a sair correndo.
"Vi alguém só de roupa íntima, queimado", disse Alex. "Foi aí que percebi que definitivamente havia algo muito errado."
Ele recorda um "cheiro de gás, de plástico derretido, uma mistura muito desagradável. E então meia dúzia de pessoas queimadas saíram".
Alex afirma que "deu um arrepio na espinha pensar que possivelmente ainda havia cerca de cinquenta pessoas presas lá dentro".
A testemunha Dominic Dubois disse à agência de notícias Reuters que um bar próximo ofereceu abrigo e usou cortinas para ajudar a manter as pessoas aquecidas.
"Eles fizeram um trabalho incrível ao permanecer abertos. Estava quente lá dentro, e isso era o necessário", afirmou.
Uma agência local do banco UBS também foi aberta, acrescenta ele: "Empurramos todas as mesas para o lado, todas as mesas foram afastadas, e as pessoas entraram. Estava quente lá dentro e havia mais luz também".
Dubois disse ter visto "muitas cenas chocantes", acrescentando: "Havia muitas pessoas muito fortes, que se mantiveram firmes e entenderam que suas vidas estavam em perigo, mas decidiram que, mentalmente, era mais importante manter a calma".
A repórter da BBC News Silvia Costeloe, que está no local, ouviu uma pessoa que teria entrado no bar em chamas para tentar salvar quem estava lá dentro.
"Ouvimos uma grande explosão e, depois, vimos muita fumaça", disse o entrevistado.
"Pensei que meu irmão mais novo estivesse lá dentro, então entrei e tentei quebrar a janela para ajudar as pessoas a saírem."
O homem disse que, ao entrar, viu pessoas "queimando da cabeça aos pés, sem roupa nenhuma", acrescentando: "Foi muito chocante"
Ele tentou ajudar no que podia, oferecendo água e roupas aos feridos — inclusive dando sua jaqueta a um homem com queimaduras.
Quando os bombeiros e médicos chegaram, assumiram o controle da situação, relatou.
"É muito perturbador, porque eu fui a esse bar todos os dias da semana... Justo no dia em que eu não fui, ele pegou fogo."
A editora da BBC News Rorey Bosotti conversou com um hóspede de um hotel a cerca de 50 metros do Le Constellation.
O entrevistado relatou que ele e a família tinham acabado de comemorar a chegada de 2026 no quarto quando ouviram uma série de explosões.
"Pensamos que alguém tivesse soltado fogos de artifício na entrada do hotel", disse Oleh Paska, que está em Crans-Montana com a esposa e o filho.
Nos primeiros minutos, a família seguiu achando que o barulho se tratava de uma "comemoração normal".
Chegaram a ouvir alguém "chorando" do lado de fora, mas a princípio pensaram que uma briga tinha começado entre jovens que estavam celebrando o Ano Novo.
Os serviços de emergência começaram a chegar, contudo, e a esposa de Oleh percebeu "diferentes tipos de sirenes" tocando, sinalizando a chegada de ambulâncias, policiais e bombeiros.
Como é o bar Le Constellation
O Le Constellation é um bar grande no resort de esqui suíço de Crans-Montana, que existe há pelo menos 40 anos.
A luxuosa estação de esqui fica no coração dos Alpes Suíços, a aproximadamente duas horas da capital suíça, Berna.
Apesar da estação ser conhecida pelo luxo, o bar em si "é grande e não é suntuoso", segundo a jornalista da BBC Silvia Costeloe.
O Le Constellacion é uma "verdadeira instituição" local, descreve a repórter.
No andar de cima, há uma área com telas de TV onde as pessoas costumam assistir a partidas de futebol.
No andar de baixo, fica um grande bar onde os frequentadores provavelmente estavam bebendo e dançando.
Os feriados de Natal e Ano Novo são um dos períodos mais movimentados do ano para os resorts de esqui dos Alpes Suíços.
Hospitais recebem feridos
Mathias Reynard, chefe do governo regional de Valais, disse que a operação de resgate já envolveu 42 ambulâncias e 13 helicópteros.
Os feridos foram encaminhados para o hospital de Valais e de cidades em outras regiões da Suíça, como Zurique e Lausanne.
França e Itália ofereceram ajuda para receber feridos em unidades especializadas no tratamento de queimaduras.
Sabe-se que ao menos três pessoas foram transferidas para a Itália, duas para a Alemanha e outras para a França.
A diretora do Hospital Universitário de Lausanne, Claire Charmet, afirma que a unidade já recebeu 22 pessoas.
Ao jornal suíço 24 Heures, ela afirmou que esses pacientes, com idades entre 16 e 26 anos em média, seriam "os casos mais graves".
A recuperação dessas vítimas, segundo ela, será "um processo longo e intenso, que durará várias semanas, talvez até meses".
Ela acrescentou que é "muito cedo para determinar" se alguma delas corre risco de morte, dizendo que a prioridade tem sido "receber os pacientes, identificá-los, conectá-los com suas famílias e garantir que o processo de atendimento esteja funcionando".
Outras 60 pessoas estão recebendo atendimento no hospital de Sion.
A procuradora-geral de Valais afirmou ainda que as autoridades também estão trabalhando para identificar as vítimas fatais e encaminhar os corpos às famílias o mais rápido possível.
Histórico de tragédias em boates e bares
A tragédia do bar Le Constellation, já considerada uma das piores da história da Suíça, se soma a outras que deixaram centenas de mortos em boates e bares nas últimas décadas ao redor do mundo.
Em 2025, um dos casos mais graves foi o da boate Pulse, na cidade de Kocani, na Macedônia do Norte. Ao menos 63 pessoas morreram no incêndio, em março, causado por faíscas de dispositivos pirotécnicos.
Também no ano passado, no início, de dezembro, 25 pessoas morreram em um incêndio em uma boate popular na região costeira de Goa, na Índia. O motivo teria sido um cilindro de gás explodiu na cozinha.
Em abril, o teto de uma casa de shows desabou em Santo Domingo, na República Dominicana, deixando 232 mortos.
No Brasil, o caso mais emblemático é o da Boate Kiss, em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul. Na madrugada de 27 de janeiro de 2013, 242 pessoas morreram devido a um incêndio dentro da boate causado por um artefato pirotécnico.
Em 30 de dezembro de 2004, um incêndio matou 194 pessoas na boate República Cromañón, em Buenos Aires, capital argentina. O incêndio começou com o uso de fogos de artifício pela banda de rock que se apresentava no local.
Na cidade de Perm, na Rússia, um show com fogos de artifício dentro da boate Lame Horse provocou uma explosão que deixou 154 mortos em 4 de dezembro de 2009.
Mais recentemente, em outubro de 2015, 64 pessoas morreram num incêndio na boate Colectiv, em Bucareste, capital da Romênia, também devido a fogos de artifício.
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