
Horas após o inédito ataque dos Estados Unidos à Venezuela e captura do presidente Nicolás Maduro neste sábado (3/1), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda não se manifestou.
Caracas foi bombardeara por volta de 2 horas da madrugada, no horário local (3h no horário de Brasília).
O silêncio de Lula ocorre num momento de estremecimento de sua relação com o antigo aliado venezuelano e de aproximação com o governo de Donald Trump.
À BBC News Brasil, o Itamaraty disse que ainda está apurando os acontecimentos na Venezuela para se manifestar. Nos últimos meses, durante a escalada da tensão entre os EUA e o país vizinho, fontes do Palácio do Planalto garantiam que a gestão Lula não deixaria de condenar um ataque ao território venezuelano.
"Esse não posicionamento ou posicionamento tardio mostra a dificuldade do governo brasileiro em retomar a envergadura do Brasil dos anos anteriores, especialmente nos governos I e II de Lula", disse à reportagem Marsílea Gombata, professora de relações internacionais da FAAP e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (NUPRI) da USP.
"Infelizmente, uma das primeiras manifestações na região veio do presidente argentino, Javier Milei, que comemorou o ataque exaltando a 'liberdade'", continuou.
Na sua avaliação, faz falta nesse momento instituições fortes de articulação regional, como foi no passado a União de Nações Sul-Americanas (Unasul).
"Lembremos que alguns momentos de tensão importantes tiveram a Unasul como um instrumento de mediação fundamental, como a crise da (Assembleia) Constituinte de 2008 na Bolívia", disse ainda.
Até o início da manhã, não havia qualquer manifestação pública do governo brasileiro.
Já o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Yván Gil, disse que conversou com o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, e que ele condenou os ataques.
"Conversei por telefone com o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, que expressou sua forte condenação a este ato sem precedentes de agressão militar criminosa contra o nosso povo. Agradecemos sinceramente suas manifestações de solidariedade", postou Yván Gil na rede social X.
Para a professora Marsílea Gombata, são aguardados momentos tensos na Venezuela.
"Domesticamente, coalizões do chavismo e atores cruciais não ficarão parados. Eles se beneficiavam de Maduro no poder, e a não existência disso pode ser um problema. Ou seja, não serão dias e semanas tranquilas. Nem para os EUA."
"Globalmente, China e Rússia, grandes aliados da Venezuela madurista, devem se manifestar prontamente condenando os ataques americanos. Resta ver o que estão dispostos a fazer", continuou.
Entenda o ataque dos EUA à Venezuela
Na rede social Truth Social, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o país realizou um ataque de grande escala contra a Venezuela e que o presidente Nicolás Maduro foi capturado, junto com sua esposa, e retirado do país por via aérea.
Segundo Trump, a operação foi conduzida em conjunto com forças de segurança americanas. Ele disse ainda que mais detalhes seriam divulgados posteriormente e anunciou uma coletiva de imprensa para as 11h (horário local; 13h em Brasília), em Mar-a-Lago, propriedade do presidente no estado da Flórida.
Explosões foram ouvidas e fumaça pôde ser vista subindo sobre a capital venezuelana, Caracas, na madrugada deste sábado.
Vídeos gravados por moradores mostravam colunas de fumaça e detonações, além de algumas aeronaves voando a baixa altitude.
Várias áreas de Caracas ficaram sem energia elétrica, segundo relatos de moradores e de jornalistas que colaboram com a BBC News Mundo, serviço de notícias em língua espanhola da BBC.
As explosões começaram a ser ouvidas pouco depois das 2h deste sábado em locais como a base aérea de La Carlota, em Caracas, e em áreas próximas.
Antes do post de Donald Trump afirmando a captura de Maduro, o governo da Venezuela havia denunciado o ocorrido como uma "agressão militar" dos Estados Unidos.
"A República Bolivariana da Venezuela rejeita, repudia e denuncia perante a comunidade internacional a gravíssima agressão militar perpetrada pelo atual Governo dos Estados Unidos da América contra o território e a população venezuelanos, nas localidades civis e militares da cidade de Caracas, capital da República, e nos estados Miranda, Aragua e La Guaira."
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