
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou em uma postagem nas redes sociais que o líder venezuelano, Nicolás Maduro, teria sido capturado e retirado do país após ataques realizados na madrugada deste sábado em Caracas, capital da Venezuela. Explosões foram registradas em diferentes pontos da cidade, incluindo a base aérea de La Carlota, onde um veículo foi visto em chamas.
Os ataques representam o ponto mais alto da escalada militar entre Estados Unidos e Venezuela e levantam uma nova questão: que capacidade de reação ainda resta às Forças Armadas venezuelanas diante da maior potência militar do planeta?
Trata-se da maior mobilização militar norte-americana na América Latina desde a invasão do Panamá, em 1989. Naquele episódio, o então líder panamenho Manuel Antonio Noriega foi derrubado após uma ofensiva dos EUA, também sob acusações de envolvimento com o narcotráfico — acusações que ele negava. Mais de três décadas depois, Maduro enfrenta alegações semelhantes por parte de Washington, que ele também rejeita.
Até o início dos ataques, analistas afirmavam que os objetivos dos Estados Unidos ao reforçar sua presença militar próxima à Venezuela eram ambíguos. Com a ofensiva em Caracas e a declaração de Trump sobre a suposta captura de Maduro, esse cenário passou a ser interpretado como uma tentativa direta de desarticular o comando político e militar do país.
Mesmo antes do ataque, o governo venezuelano afirmava estar se preparando para um confronto. Em novembro, o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, anunciou um "deslocamento massivo" de forças terrestres, marítimas, aéreas, fluviais e de mísseis, além da mobilização de milícias civis em todo o território nacional, para enfrentar o que classificava como uma ameaça direta ao governo.
Em pronunciamento transmitido pela televisão estatal, Padrino López afirmou que Maduro havia ordenado o deslocamento de "quase 20 mil" soldados como parte da operação. A movimentação foi apresentada como resposta direta ao avanço da presença militar americana no Caribe.
A ofensiva em Caracas ocorre após meses de ações militares dos Estados Unidos no mar do Caribe, justificadas por Washington como parte do combate ao tráfico de drogas. Essas operações já haviam resultado na morte de mais de 75 pessoas a bordo de lanchas e embarcações semissubmersíveis, segundo estimativas citadas por autoridades.
Analistas vinham apontando que essa campanha poderia fazer parte de uma estratégia mais ampla, destinada a enfraquecer ou derrubar o governo de Maduro.
Washington considera o governo venezuelano ilegítimo, ao afirmar que as eleições presidenciais do ano passado foram fraudulentas — avaliação compartilhada por setores da oposição e por organismos internacionais.
Diante dos ataques e da alegação de captura do presidente, especialistas questionam até que ponto as Forças Armadas venezuelanas teriam condições reais de reagir ou de sustentar uma resistência prolongada.
'O exército é uma sombra do que já foi'
Maduro afirmou em setembro que mais de 8 milhões de pessoas teriam se alistado para defender a Venezuela, sugerindo a criação de uma milícia armada com esse contingente. Especialistas, no entanto, contestam amplamente esse número.
"Não está certo. O número real é muitíssimo menor. Maduro não chegou a ter 4 milhões de votos no ano passado", afirmou à BBC News Mundo James Story, ex-chefe da Unidade de Assuntos da Venezuela da Embaixada dos Estados Unidos em Bogotá entre 2020 e 2023.
Segundo Story, além da discrepância nos números, o Exército venezuelano enfrenta altos índices de deserção e problemas estruturais. "É um exército com muitos abandonos", afirmou.
Dados do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos indicam que a Venezuela conta com cerca de 123 mil soldados ativos, 220 mil milicianos e 8 mil reservistas. Ainda assim, especialistas apontam que os militares realizam poucos treinamentos regulares e enfrentam dificuldades de manutenção de equipamentos, além de parte significativa das milícias não estar armada.
"Talvez existam algumas unidades capazes de combater", disse Story. "Mas, como força militar organizada, não são particularmente competentes."
Ele avalia que o Exército venezuelano "é uma sombra do que já foi", embora reconheça que o país ainda dispõe de alguns recursos relevantes no contexto regional. Entre eles estão cerca de 20 aviões de combate Sukhoi adquiridos da Rússia em 2006, durante o governo de Hugo Chávez, além de caças F-16 comprados dos Estados Unidos nos anos 1980, quando Caracas era um aliado estratégico de Washington.
"Os Sukhoi são superiores a qualquer outro avião de ataque da região e alguns ainda estão em operação", afirmou. "Dos F-16, acredito que um ou dois ainda funcionem."
Mísseis antiaéreos e drones
Em meio às tensões com os Estados Unidos, Maduro afirmou, em fins de outubro, que a Venezuela havia colocado em "posições-chave de defesa aérea" 5 mil mísseis antiaéreos Igla-S, de fabricação russa.
"Qualquer força militar do mundo conhece o poder dos Igla-S", destacou Maduro, durante um evento militar transmitido pela televisão.
Os Igla-S são sistemas de defesa aérea portáteis de curto alcance e baixa altitude. Eles têm capacidade de derrubar mísseis de cruzeiro, drones, helicópteros e aviões que voem a baixa altitude.
A Venezuela também conta com veículos blindados chineses VN-4 e, nos últimos anos, passou a ser o único país sul-americano a contar com drones armados com capacidade de ataque. Nicolás Maduro exibiu esses drones em um desfile militar em 2022.
Os drones Antonio José de Sucre 100 e 200 (ANSU-100 e 200) são de fabricação venezuelana. Eles são derivados de versões modernizadas de drones iranianos.
A Venezuela também recebeu do Irã lanchas de ataque rápido Peykaap-III, equipadas com lançadores de mísseis antinavios.
Somam-se ainda sistemas de mísseis terra-ar Pantsir-S1 e Buk-M2E. Eles foram recentemente levados para Caracas em aviões de transporte Il-76, segundo o deputado russo Alexei Zhuravlev, primeiro vice-presidente do Comitê de Defesa da Duma Estatal da Rússia.
Mas grande parte deste material só existe na teoria, segundo o analista internacional Andrei Serbin Pont, especializado em defesa e política externa e presidente da Coordenadoria Regional de Pesquisas Econômicas e Sociais (CRIES).
"Existem grandes discrepâncias entre o que a Venezuela tem na teoria e o material que, na realidade, está em operação", declarou ele, em entrevista à BBC.
Rede pode ser neutralizada 'facilmente'
Em meio aos relatos indicando que uma escalada maior incluiria ataques diretos dentro da Venezuela, os sistemas de defesa antiaérea operados pelo país receberam maior interesse.
Mas Andrei Serbin Pont afirma que grande parte da rede se encontra fora de serviço ou pode ser "facilmente neutralizada" com tecnologia norte-americana. É o caso dos sistemas de mísseis terra-ar Pechora de fabricação russa, cuja tecnologia data dos anos 1960.
A Venezuela também conta com sistemas de mísseis Buk, instalados ao redor de Caracas e que são mais eficazes. Mas neutralizá-los também não seria particularmente difícil para os Estados Unidos, calcula Serbin Pont.
"Além disso, sua disponibilidade é muito baixa, devido à falta de peças de reposição", explica ele.
Em relação aos 5 mil mísseis Igla-S de que se vangloriou Maduro no final de outubro, Serbin Pont afirma que este número é real.
"Mas ele só tem cerca de 700 lançadores Igla-S, o que continua sendo uma grande quantidade e motivo de preocupação, já que eles poderiam ser muito perigosos nas mãos de grupos armados estatais", destaca ele. "Não necessariamente para as operações norte-americanas, mas para operações civis ou qualquer tipo de helicóptero ou aeronave voando em baixa altitude."
'Guerra prolongada'
Para o analista Andrei Serbin Pont, a estratégia adotada pelo governo de Nicolás Maduro nos últimos anos passa menos por uma capacidade real de enfrentar militarmente os Estados Unidos e mais por sinalizar que, em caso de ataque, armas e equipamentos das Forças Armadas poderiam ser dispersados entre a população venezuelana.
Especialistas ouvidos pela BBC demonstram preocupação de que esse tipo de estratégia leve à proliferação de armas fora do controle do Estado, com o risco de que elas acabem nas mãos de grupos armados que já atuam na região, como o Exército de Libertação Nacional (ELN) ou dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).
Segundo analistas, o objetivo implícito dessa abordagem seria criar ou ameaçar criar um cenário de caos e instabilidade prolongada na Venezuela, que dificultaria a atuação de um eventual governo de transição no futuro, mesmo após uma possível queda de Maduro.
Nesse contexto, muitos especialistas avaliam que o círculo próximo ao presidente venezuelano vinha se preparando para um cenário de guerra de guerrilha, em vez de um confronto militar convencional. A ideia seria apostar em uma resistência prolongada, assimétrica, com alto custo político e humano.
Em setembro, o ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, afirmou publicamente que o país estaria preparado para uma "guerra prolongada". Pouco depois, o governo ordenou que integrantes da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) passassem a ensinar moradores de comunidades pobres a manusear armas, segundo anúncios oficiais.
Para James Story, ex-chefe da Unidade de Assuntos da Venezuela da Embaixada dos Estados Unidos em Bogotá, esse cenário é pouco plausível na prática. Ele descarta a possibilidade de que a população venezuelana se mobilize de forma ampla em apoio a Maduro em uma campanha desse tipo.
"Maduro não é uma figura muito querida, nem entre os militares, nem entre a população venezuelana", afirmou. "Por isso, não acredito que as pessoas o sigam ou o apoiem em uma guerra de guerrilhas."
Story também questiona a base de apoio eleitoral do presidente. "Ele não chegou nem mesmo a conseguir 4 milhões de votos nas últimas eleições", disse.
De acordo com os números divulgados pelo Conselho Nacional Eleitoral, órgão controlado pelo governo venezuelano, Maduro teria recebido cerca de 6,4 milhões de votos. Esse resultado, no entanto, é contestado pela oposição e por diversos organismos internacionais.
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Até que ponto a Venezuela está preparada para um conflito?
Com os ataques registrados em Caracas e a afirmação do presidente dos Estados Unidos de que Nicolás Maduro teria sido capturado, a questão sobre o grau de preparo militar da Venezuela deixa de ser apenas teórica. Ainda assim, analistas afirmam que, apesar do discurso beligerante adotado pelo governo venezuelano, o país não está estruturado para enfrentar um conflito direto com os Estados Unidos.
Segundo o analista Andrei Serbin Pont, ouvido antes dos ataques de 3 de janeiro, o Exército venezuelano não foi concebido para uma guerra convencional contra uma potência militar como os EUA. Ele explica que, nos últimos 25 anos, a Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) passou a operar sob o conceito estratégico conhecido como "periodização da guerra".
De acordo com essa doutrina, um eventual conflito não ocorreria de forma imediata e direta, mas se desenvolveria progressivamente em fases consideradas gerenciáveis pelo governo. A primeira etapa envolveria um cenário de instabilidade interna, supostamente fomentado pela ingerência de um país estrangeiro. Em seguida, viria uma fase de confronto com um país vizinho, caracterizada como um "conflito entre pares".
Somente em um estágio posterior, segundo essa lógica, haveria uma intervenção militar direta dos Estados Unidos. A etapa final seria a de "resistência popular prolongada", na qual forças armadas desmobilizadas e grupos civis armados se dispersariam entre a população para travar uma guerra de guerrilha contra uma eventual ocupação americana.
"Isso conduziria a uma quarta fase de resistência prolongada, quando se espera que militares desmobilizados e outros movimentos sociais mantenham armas e se misturem à população para combater as forças dos Estados Unidos", afirma Serbin Pont.
O analista observa que, em um confronto com países vizinhos, como a Colômbia ou até mesmo o Brasil, parte dos sistemas de armas convencionais da Venezuela poderia ter alguma utilidade operacional. No entanto, ele ressalta que esse tipo de capacidade não altera de forma significativa o equilíbrio de forças diante dos Estados Unidos.
"Para os EUA, esses sistemas não representam uma ameaça real", diz. Segundo Serbin Pont, a disparidade tecnológica, logística e operacional entre as Forças Armadas venezuelanas e as americanas torna inviável qualquer resistência convencional sustentada, restando ao governo de Caracas apenas estratégias assimétricas, de longo prazo e alto custo humano.
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