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Como foi deposição de Maduro: a linha do tempo do ataque de Trump à Venezuela

Relembre como foi a operação que acabou com a deposição de Nicolás Maduro e entenda o que aconteceu desde então.

Maduro se encontra detido em local próximo de tribunal em que responderá a acusações em NY -  (crédito: Tasos Katopodis/Getty Images)
Maduro se encontra detido em local próximo de tribunal em que responderá a acusações em NY - (crédito: Tasos Katopodis/Getty Images)

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, comparecerão a um tribunal federal em Manhattan nesta segunda (5/1) às 12h (14h no horário de Brasília), após terem sido capturados pelos Estados Unidos durante um ataque surpresa nas primeiras horas de sábado (3/1).

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Maduro é indiciado por conspiração narcoterrorista, conspiração para importação de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos e conspiração para possuir metralhadoras e dispositivos destrutivos e outros crimes.

O presidente dos EUA, Donald Trump, descreveu a ação militar que resultou na detenção do venezuelano e sua esposa como "um dos ataques mais precisos" da história do país.

Ele afirmou ainda que os Estados Unidos irão governar a Venezuela até que seja concluída uma "transição segura, adequada e criteriosa".

Relembre, a seguir, como foi a operação que acabou com a deposição de Nicolás Maduro e entenda o que aconteceu desde então.

'Operação Resolução Absoluta'

Os EUA afirmam que a ação militar que capturou Maduro vinha sendo planejada há meses. Mas quando Donald Trump deu a ordem de lançamento, a "Operação Resolução Absoluta" durou apenas cerca de cinco horas.

O ataque surpresa na madrugada de sábado marcou um evento sem precedentes na política moderna.

A ação precedeu meses de tensão elevada entre os dois países com uma enorme mobilização militar americana nas águas do Caribe, próximas à costa da Venezuela, desde agosto. Os EUA também realizaram diversos ataques contra embarcações que, segundo os americanos, transportavam drogas ilegais.

Em novembro, o governo americano fechou o espaço aéreo venezuelano, e, em dezembro, Trump ordenou um bloqueio "total e completo" de todos os petroleiros sancionados que entram e saem da Venezuela.

A operação que capturou Maduro foi liderada pelo general John Daniel "Razin" Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA.

Em entrevista coletiva na residência de Trump na Flórida, Caine descreveu como foi a operação: "discreta, precisa e executada no momento mais escuro da noite".

Segundo o comandante militar, a preparação para a ação incluiu o envio de tropas, navios e aeronaves para a região, bem como operações da Agência Central de Inteligência (CIA), da Agência de Segurança Nacional (NSA) e da Agência Nacional de Inteligência Geoespacial (NGA).

Durante a fase de preparação, foram estudados os hábitos de Maduro e seu entorno, segundo Caine: como ele se movia, onde morava, para onde ia, como se vestia e até mesmo quais animais de estimação o cercavam.

Já a ação militar para a "extração" de Maduro e sua esposa acabou durando apenas cerca de cinco horas.

As primeiras explosões em Caracas foram reportadas às 2h da manhã do horário local (3h em Brasília). A cidade estava no escuro, após os EUA cortaram o fornecimento de energia.

Quando se aproximaram do complexo onde Maduro estava hospedado, as aeronaves americanas enfrentaram uma reação: "Os helicópteros foram alvo de tiros e responderam com força avassaladora para se defenderem", afirmou Caine.

Trump, que acompanhou a operação ao vivo de uma sala especial em sua residência na Flórida, afirmou que eles estavam em "uma casa que era mais como uma fortaleza". Supostamente, o presidente venezuelano tentou entrar em um local seguro reforçado com aço, chegou até a porta, mas não conseguiu fechá-la.

De acordo com uma fonte da CBS News, Maduro foi capturado pela Força Delta do Exército, a principal unidade antiterrorista dos EUA.

Maduro e a primeira-dama foram então embarcados em um navio, o USS Iwo Jima, para serem transferidos para território americano.

Uma foto do líder venezuelano na embarcação, com os olhos e ouvidos vendados, foi compartilhada por Trump no sábado.

'Vamos governar o país'

A detenção do presidente venezuelano foi comunicada por Donald Trump pelas redes sociais, ainda nas primeiras horas de sábado. Em uma coletiva de imprensa no final do dia, o republicano deu mais detalhes sobre a operação e os planos para a Venezuela.

Direto da Flórida, Trump disse que o governo administraria a Venezuela até que uma transição "segura, adequada e criteriosa" fosse concluída.

O presidente americano não estabeleceu um prazo limite para a ocupação americana, tampouco esclareceu qual mecanismo exato usará para governar. Segundo ele, caberia aos Estados Unidos decidir quando o país retornaria ao controle venezuelano.

Trump ainda prometeu tirar proveito das reservas de petróleo da Venezuela, afirmando querer que empresas petrolíferas norte-americanas invistam bilhões de dólares no país sul-americano, que possui as maiores reservas de petróleo bruto do planeta, para mobilizar um recurso em grande parte inexplorado.

"Não queremos que outra pessoa assuma o poder e nos deparemos com a mesma situação que tivemos nos últimos anos. Portanto, vamos governar o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa, e ela precisa ser criteriosa. Porque é isso que nos define."

Posteriormente, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, adotou um tom mais cauteloso e afirmou que os EUA não terão um papel direto no governo cotidiano da Venezuela, mas continuarão a aplicar a "quarentena do petróleo" sobre navios-tanque sancionados que já estava em vigor.

"É esse o tipo de controle a que o presidente se refere quando diz isso", afirmou, em entrevista ao programa Face the Nation, da CBS.

"Nós mantemos essa quarentena e esperamos ver mudanças, não apenas na forma como a indústria do petróleo é administrada em benefício da população, mas também para que se interrompa o tráfico de drogas", acrescentou.

Donald Trump
Tasos Katopodis/Getty Images

A bordo do Air Force One na noite de domingo, retornando de seu campo de golfe em Mar-a-Lago para Washington, Trump se referiu à Venezuela como "nossa área".

Questionado sobre declarações passadas contra mudanças de regime, ele afirmou: "Está na nossa área, a Doutrina Monroe".

"Estamos no negócio de ter países ao nosso redor que sejam viáveis e bem-sucedidos e onde o petróleo possa fluir livremente", disse.

O que acontecerá com Maduro?

Na noite de sábado, foram divulgadas novas imagens de Nicolás Maduro e de sua esposa, após eles desembarcarem em Nova York.

O casal foi levado de avião até a Base Aérea de Stewart, no estado de Nova York, e depois transportado de helicóptero até Manhattan, para o escritório da Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA). Em seguida, foi transferido para o Metropolitan Detention Center, no Brooklyn, também de helicóptero e depois em comboio policial.

Maduro e Cilia Flores devem comparecer a um tribunal federal nesta segunda-feira, às 12h (14h no horário de Brasília).

"Em breve, eles enfrentarão toda a severidade da justiça americana em solo americano, em tribunais americanos", disse a Procuradora-Geral Pam Bondi.

Mas a primeira aparição do casal em um tribunal federal nesta segunda será principalmente de caráter processual, marcando o início do que pode ser uma batalha judicial que se estenda por anos.

O casal comparecerá diante do juiz distrital Alvin K. Hellerstein, indicado ao cargo pelo então presidente Bill Clinton.

Maduro foi denunciado em um processo criminal por tráfico de drogas que o governo federal dos EUA vem conduzindo há 15 anos, período no qual Maduro figura como réu há seis deles.

Hellerstein supervisiona o caso há mais de uma década e também atuou em outros processos de grande repercussão.

Imagens mostrando locais em que Nicolás Maduro se encontrará em NY
BBC
Maduro se encontra detido em local próximo de tribunal em que responderá a acusações em NY

Como fica a Venezuela agora?

A detenção de Maduro colocou todos os olhos sobre Delcy Rodríguez, a vice-presidente escolhida pelo mandatário como seu braço direito.

No final da tarde de sábado, após a captura do presidente, a Suprema Corte da Venezuela determinou que Rodríguez assumisse a chefia do Estado diante da "ausência forçada" de Maduro.

Horas antes do pronunciamento do tribunal, a nova presidente interina também condenou a ação dos EUA e classificou a captura de Maduro e sua esposa como "sequestro ilegal e ilegítimo".

"O que está sendo feito com a Venezuela é uma barbaridade", afirmou Rodríguez em discurso transmitido em rede nacional de rádio e televisão.

No domingo, o ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino, anunciou que o Exército venezuelano apoia Rodríguez como presidente interina.

Delcy Rodríguez
Getty Images
Delcy Rodríguez faz parte do núcleo de poder de Maduro.

Em seu primeiro pronunciamento após a operação militar no sábado, Trump deu a entender que Rodríguez poderia ficar à frente do governo após a saída de Maduro, mas trabalhando em alinhamento com o governo dos EUA na recuperação da Venezuela.

O líder americano afirmou que Rodríguez havia feito contato com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e sugeriu que ela aparentemente estaria disposta a aceitar todas as exigências de Washington.

Mas, pouco depois da entrevista coletiva de Trump, Rodríguez reafirmou em pronunciamento sua posição de considerar Maduro como "o único presidente da Venezuela" e afirmou que o país sul-americano "não se entrega, não se rende e nunca será colônia de ninguém".

Trump então ameaçou tomar medidas contra Rodríguez. "Se ela não fizer o que é certo, pagará um preço muito alto, provavelmente maior do que Maduro", disse ele em entrevista à revista americana The Atlantic publicada no domingo (04/01).

Sobre o futuro da Venezuela, o republicano afirmou: "Uma mudança de regime, ou qualquer outro nome que se queira dar, é melhor do que a situação atual. Não dá para piorar".

Pouco depois da divulgação das declarações, Rodríguez publicou uma mensagem em inglês em sua conta no Instagram convidando os EUA a trabalhar em conjunto com a Venezuela em uma "agenda de cooperação, orientada para o desenvolvimento compartilhado, dentro da estrutura do direito internacional".

A mensagem, que fala ainda em soberania e equilíbrio na relação com Washington, não cita a captura de Maduro.

Os moradores de Caracas gravaram em vídeo as diferentes explosões durante a incursão dos EUA em Caracas
Reuters
Os moradores de Caracas gravaram em vídeo as diferentes explosões durante a incursão dos EUA em Caracas

Em seus pronunciamentos, Trump também falou sobre María Corina Machado, líder da oposição na Venezuela e ganhadora do Nobel da Paz. O presidente dos EUA surpreendeu ao afirmar que ela não tem o apoio nem o respeito da maioria dos venezuelanos para assumir o governo.

Machado, por sua vez, defendeu, em uma carta publicada em suas redes sociais no sábado, que Edmundo González assumisse o poder imediatamente. Diplomata aposentado, ele concorreu à Presidência contra Nicolás Maduro nas eleições de julho de 2024 e foi declarado vencedor pela oposição.

Maduro se declarou vencedor do pleito, mas, na ocasião, González foi reconhecido pelos Estados Unidos e por outros governos como presidente eleito da Venezuela.

Reações

A ação militar americana e a decorrente captura de Nicolás Maduro provocaram fortes reações ao redor do mundo.

Em nota conjunta divulgada no domingo (04/1), Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha criticaram a "gravidade dos eventos ocorridos na Venezuela" e afirmaram que as ações "criam um precedente extremamente perigoso para a paz, para a segurança regional e colocam a população civil em risco".

Mas uma reunião ministerial extraordinária da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) sobre o ataque dos Estados Unidos à Venezuela terminou sem acordo para uma declaração unificada.

Já a União Europeia faz um apelo por calma e moderação de todos os atores para evitar uma escalada da situação após a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela.

Em uma das últimas declarações da alta representante da UE para Assuntos Exteriores, Kaja Kallas, assinada por todos os Estados-membros do bloco, com exceção da Hungria, afirma-se que "deve ser respeitado o direito do povo venezuelano de determinar o seu próprio futuro".

"Respeitar a vontade do povo venezuelano continua sendo o único caminho para que a Venezuela restaure a democracia e resolva a crise atual", acrescenta o comunicado. Até o momento, a representação da Hungria junto à UE não se pronunciou sobre os motivos pelos quais o país não assinou a declaração.

Lula
EPA/Shutterstock
Lula disse que ataque americano à Venezuela é 'inaceitável'

O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, disse que o ataque é "inaceitável", constitui uma violação da soberania venezuelana e que a ação americana abre um precedente perigoso para a região.

No domingo, o papa Leão 14 pediu que as necessidades dos venezuelanos sejam colocadas em primeiro lugar.

Em discurso para uma multidão no Vaticano após a oração de domingo, o Papa — que atuou cerca de duas décadas como missionário no Peru — disse: "O bem do amado povo venezuelano deve prevalecer sobre qualquer outro fator".

Leão 14, o primeiro papa dos Estados Unidos, ressaltou a importância de "garantir a soberania" da Venezuela e disse estar acompanhando a situação com "muita preocupação".

China, Rússia e Irã, aliados da Venezuela, condenaram o ataque americano.

Em nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores da China, o governo de Xi Jinping afirmou estar "profundamente chocado" com o que descreveu como o uso flagrante da força por parte dos Estados Unidos contra um Estado soberano.

Segundo o comunicado, a ação representa uma grave violação do direito internacional e dos princípios básicos que regem as relações entre países.

O Ministério das Relações Exteriores iraniano pediu ao Conselho de Segurança da ONU que "aja imediatamente para interromper a agressão ilegal" e responsabilize os culpados. O país também classificou a ação como "uma violação flagrante de sua soberania nacional e integridade territorial".

Já a Rússia condenou um "ato de agressão armada" dos Estados Unidos contra a Venezuela, informou o Ministério das Relações Exteriores do país.

Em nota divulgada no sábado, o governo russo disse estar "profundamente preocupado" e afirmou que, diante da situação, é importante evitar uma nova escalada e concentrar esforços na busca de uma saída por meio do diálogo.

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, que também é considerado um aliado venezuelano, exigiu uma reação urgente da comunidade internacional.

O governo em Havana afirmou ainda que 32 cidadãos cubanos morreram durante os ataques americanos à Venezuela. Segundo o governo, os cubanos mortos atuavam em missões oficiais de cooperação militar e de segurança no país.

A Casa Branca já havia confirmado que muitos dos guardas que ajudaram a proteger Maduro durante a incursão americana eram cubanos.

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, ainda enviou um recado ao governo cubano: "Se eu morasse em Havana e fizesse parte do governo, no mínimo estaria preocupado".

Em um tom semelhante, Trump ameaçou a Colômbia no domingo (4/1). A bordo do Air Force One, avião presidencial dos EUA, o presidente americano foi questionado por jornalistas se os EUA iriam realizar uma operação militar contra a Colômbia. Trump então respondeu: "Para mim, parece uma boa ideia."

"A Colômbia também está muito doente, governada por um homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la para os Estados Unidos, e ele não vai continuar fazendo isso por muito tempo", continuou Trump, em uma aparente referência ao presidente colombiano, Gustavo Petro.

Trump já havia mencionado Petro e seu governo no sábado (3/1). "É melhor ele ficar esperto", disse durante a primeira coletiva de imprensa após os ataques.

Petro classificou as ações de Trump na Venezuela como "abomináveis".

"Condenei as prisões políticas de membros da oposição na Venezuela e pedi uma anistia geral para todos, mas o governo de Donald Trump está agora fazendo exatamente a mesma coisa que o governo Maduro fez, com centenas de mortes de venezuelanos", disse.

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BBC
Julia Braun - BBC News Brasil
postado em 05/01/2026 09:52 / atualizado em 05/01/2026 10:14
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