EUROPA

Bar de incêndio trágico na Suíça não passava por inspeção há 5 anos, dizem autoridades

Incêndio em bar lotado durante o Réveillon deixou ao menos 40 mortos; autoridades investigam falhas na fiscalização, uso de velas de faísca e o papel de materiais inflamáveis no teto do local

Bar de incêndio trágico na Suíça não passava por inspeção há 5 anos, dizem autoridades -  (crédito: MAXIME SCHMID / AFP via Getty Images)
Bar de incêndio trágico na Suíça não passava por inspeção há 5 anos, dizem autoridades - (crédito: MAXIME SCHMID / AFP via Getty Images)

Autoridades suíças afirmaram nesta sexta-feira (2/1) que o bar atingido por um incêndio devastador durante as comemorações de Ano Novo na estação de esqui de Crans-Montana não passava por inspeções de segurança havia cinco anos.

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O fogo deixou ao menos 40 mortos e 116 feridos, segundo diferentes balanços divulgados ao longo do dia.

A principal hipótese investigada é que o incêndio tenha começado quando velas de faísca — conhecidas no Brasil como velas vulcão — colocadas em garrafas de champanhe entraram em contato com o teto do estabelecimento. A informação foi confirmada pela procuradora-geral do cantão de Valais, Beatrice Pilloud, durante uma entrevista coletiva.

Imagens do interior do bar, o Le Constellation, mostram que o teto era revestido por painéis de espuma usados para isolamento acústico. Segundo as autoridades locais, esses materiais nunca foram avaliados quanto à resistência ao fogo. Técnicos do município disseram que, no passado, apenas os níveis de ruído do local haviam sido verificados, quando os proprietários solicitaram autorização para estender o horário de funcionamento.

O prefeito de Crans-Montana, Nicolas Feraud, reconheceu que o bar não foi submetido a inspeções, auditorias ou vistorias de segurança por um período de cinco anos, apesar de a prefeitura realizar, em regra, revisões anuais em bares, restaurantes e hotéis da região para identificar riscos de incêndio, como cozinhas mal adaptadas ou equipamentos de combate a fogo sem manutenção.

"Nós lamentamos isso. Devemos isso às famílias e vamos assumir a responsabilidade", disse Feraud a jornalistas. Ele afirmou que a prefeitura quis ser "imediatamente transparente" assim que percebeu a falha, mas descartou renunciar ao cargo.

Pessoas chorando
MAXIME SCHMID / AFP via Getty Images

Segundo o prefeito, a equipe municipal responsável pelas inspeções é composta por apenas cinco pessoas, encarregadas de fiscalizar mais de 10 mil edifícios na região.

Ele disse que a legislação local não exige a verificação de materiais de isolamento acústico instalados em tetos e que caberá agora às autoridades decidir se essa exigência deve ser incorporada às normas.

Feraud também anunciou a proibição imediata de todos os tipos de velas de faísca em estabelecimentos da cidade, classificando a medida como "óbvia".

As autoridades acreditam que as faíscas chegaram muito perto do teto revestido de espuma, o que teria facilitado a rápida propagação das chamas.

A prefeitura informou que está colaborando com a administração do bar para reconstruir exatamente o que aconteceu, mas ressaltou que não cabe ao município determinar responsabilidades criminais.

"Isso será decidido pelas autoridades judiciais", disse o prefeito, reforçando que o objetivo do conselho municipal é garantir total transparência "porque devemos isso às vítimas e às suas famílias".

Em paralelo, promotores suíços colocaram sob investigação criminal os dois gerentes do bar, um casal francês identificado pela imprensa local como Jacques e Jessica Moretti. Eles são suspeitos de homicídio culposo, lesão corporal culposa e incêndio culposo.

Durante a coletiva, Feraud também afirmou que os gestores do local tinham a obrigação de conhecer e respeitar as normas de segurança, incluindo limites de lotação. Ele disse ainda que a prefeitura teria agido "imediatamente" se tivesse sido alertada previamente sobre qualquer risco. "Eu teria preferido muito que alguém tivesse batido à minha porta antes e dito que não era uma questão de 'se', mas de 'quando' algo iria acontecer", afirmou.

Ao encerrar a sessão com jornalistas, o prefeito disse que a semana havia sido "muito difícil" do ponto de vista pessoal. "Vou me lembrar daquela noite e da tristeza de todas aquelas famílias para sempre", declarou.

Mapa mostra local da tragédia
BBC

'Vi pessoas queimando da cabeça aos pés'

O incêndio ocorreu durante uma festa de Ano Novo no Le Constellation, bar que é uma "verdadeira instituição" local na estação de esqui de Crans-Montana, como descreveu Silvia Costeloe, uma das jornalistas da BBC que atuou na cobertura do incêndio.

Apesar de a região ser conhecida pelo luxo, o bar não era suntuoso. Tinha um espaço amplo, onde muitos turistas e moradores locais iam se divertir.

Na virada do ano, estava cheio principalmente de jovens, que estão entre as principais vítimas da tragédia.

Os relatos de desespero de testemunhas e pessoas que estavam no local no momento em que o bar pegou fogo dão dimensão do que aconteceu.

"As pessoas corriam em todas as direções, gritando e chorando", contou Daniella, uma turista italiana. "Um jovem veio até mim e disse que tinha visto o inferno — coisas que jamais esqueceria."

Um jovem de 18 anos que não quis se identificar disse que entrou no bar durante o incêndio para procurar seu irmão mais novo. "Vi pessoas queimando... Encontrei pessoas queimando da cabeça aos pés, sem roupa nenhuma", disse ele.

Axel Clavier disse que ficou preso no prédio em chamas e precisou quebrar uma janela para escapar. "Não conseguíamos enxergar nada por causa da fumaça", disse ele à agência de notícias AFP, "metade das minhas roupas sumiu, foi uma loucura."

O fogo teve início na parte de baixo do bar. Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram o momento em que o teto começa a pegar fogo, quando diversas garrafas com velas de faísca são erguidas para o alto.

"Em questão de segundos, todo o teto estava em chamas. Tudo era de madeira", disseram duas turistas francesas, Emma e Albane, emendando que as chamas "começaram a subir muito rápido" e que "todo o teto estava pegando fogo, até o primeiro andar".

As vítimas tinham entre 14 e 39 anos. O local era conhecido por atrair um público mais jovem na cidade turística, onde a idade legal para consumo de bebidas alcoólicas é 16 anos.

Fenômeno conhecido como 'flashover' pode explicar por que fogo se espalhou tão rápido

Um especialista ouvido pela BBC deu uma possível explicação para a velocidade com que o fogo se espalhou.

Em entrevista ao programa The World Tonight, Richard Hagger, presidente da Associação Britânica de Investigadores de Incêndios, afirmou que o fenômeno conhecido como "flashover" pode ter tornado o incêndio particularmente letal.

Segundo ele, o flashover ocorre quando um foco inicial de incêndio faz com que as chamas e a radiação térmica subam rapidamente até o teto, espalhando-se pelo ambiente. Em seguida, essa radiação se propaga para baixo, atingindo outros materiais combustíveis, como móveis e mesas.

Com o aumento extremo da temperatura, esses materiais passam por decomposição térmica e liberam gases inflamáveis, que acabam se incendiando quase instantaneamente. "Na prática, o local fica completamente tomado pelas chamas em questão de segundos", explicou.

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BBC
BBC Geral
postado em 06/01/2026 10:52 / atualizado em 06/01/2026 11:04
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