
Em uma tarde na cidade de São Paulo, o publicitário Arthur Santana Domingues, de 23 anos, abre o aplicativo da Food To Save no celular, empolgado para comprar comida acessível para um lanche.
Na tela, surge uma "sacola surpresa" de uma padaria próxima, com pães, bolos e salgados por menos da metade do preço. Arthur não pensa duas vezes antes de garantir a oferta.
"É sempre uma experiência divertida, pela curiosidade do que vem dentro. Quando tem mais itens, eu sinto que o valor vale a pena", conta o publicitário, que conhece a Food To Save desde 2022, após ver vídeos promocionais nas redes sociais.
"Eu acho muito legal poder economizar e ainda ajudar o meio ambiente."
A brasileira Food To Save foi lançada em 2021 e afirma ser a maior plataforma do tipo no país, conectando milhares de estabelecimentos a consumidores.
O acesso ao aplicativo é gratuito, assim como a participação das empresas na plataforma. Quando um cliente compra uma sacola com preço definido pelo estabelecimento, uma parte do valor pago fica com a plataforma — em um modelo que se repete ao redor do mundo.
Lucas Infante, CEO e cofundador da Food To Save, conta que a empresa surgiu de uma experiência própria: em 2017, durante uma temporada na Espanha, percebeu o tamanho do desperdício no mercado de uma grande rede.
Ao retornar ao Brasil, decidiu criar uma ponte entre estabelecimentos com excedentes e consumidores dispostos a aproveitá-los.
Hoje, a plataforma está presente em 14 Estados e 100 cidades brasileiras.
Na outra ponta, estão empresas parceiras, como as redes varejistas Cacau Show, Supernosso, Angeloni e Hortifruti Natural da Terra.
A St. Marche, rede paulistana de supermercados, participa da Food To Save desde agosto de 2024, quando iniciou um piloto em três lojas.
Antes da parceria, produtos próximos da validade eram direcionados a ações internas de redução de perdas e, em alguns casos, descartados.
"A plataforma nos foi apresentada como uma solução inovadora para reduzir desperdício de alimentos que fez muito sentido para o nosso modelo de operação", explica Karina Bandeira, diretora de Vendas e Operações da St. Marche.
Segundo ela, a decisão de aderir foi motivada por temas já importantes para a companhia, como o combate ao desperdício de alimentos e a redução de quebras (perda financeira causada por produtos que não podem mais ser vendidos por vencimento, deterioração, danos ou descarte), além de transformar os produtos próximos da validade em receita em vez de perdas.
Até setembro de 2025, o St. Marche vendeu 84.284 sacolas-surpresa e evitou mais de R$ 2,7 milhões em quebras. As sacolas incluem itens de hortifruti, padaria, mercearia e produtos refrigerados.
Em 2024, segundo um relatório próprio, a Food do Save evitou que mais de 4 mil toneladas de alimentos fossem parar no lixo e evitou a emissão de 10 mil toneladas de CO?.
Além disso, gerou R$ 30 milhões em receita adicional para parceiros e proporcionou R$ 110 milhões em economia aos consumidores — o equivalente ao plantio de 1,6 milhão de árvores ou ao fornecimento de energia para 5 mil casas durante um ano, segundo a própria plataforma.
"Quando um alimento é perdido ou desperdiçado, não se perde apenas aquele quilo de comida — perde-se também a terra utilizada para cultivá-lo, a água usada, transporte, embalagem e trabalho humano envolvido", explica Cláudio Goldberg, especialista em varejo e professor de Gestão e Planejamento Estratégico na Fundação Getúlio Vargas (FGV).
De acordo com dados divulgados pela Food to Save, seu faturamento vem crescendo: R$ 30 milhões em 2023, R$ 70 milhões em 2024, e a projeção é de atingir R$ 160 milhões em 2025 (os valores são nominais, ou seja, não consideram a inflação do período).
A plataforma brasileira é inspirada na dinamarquesa Too Good To Go, referência no setor e que tem mais de 100 milhões de usuários e 175 mil estabelecimentos parceiros em 19 países.
Além disso, oferece a Too Good To Go Platform, um sistema corporativo que ajuda varejistas a gerenciarem excedentes antes do descarte.
O sucesso do Too Good To Go inspirou iniciativas semelhantes ao redor do mundo, que buscam oferecer descontos em produtos próximos do vencimento ou fora do padrão estético. Os itens são entregues em kits "surpresa", sem que os consumidores saibam exatamente quais produtos e em quais quantidades eles serão entregues.
No Reino Unido, o Olio estimula a troca de alimentos entre vizinhos; na Suécia, o Karma conecta restaurantes e cafés; e, no Canadá e Estados Unidos, o Flashfood atua em supermercados, oferecendo descontos em produtos próximos do vencimento.
Um estudo da consultoria Boston Consulting Group, em parceria com a ONG World Wide Fund for Nature, projeta que o mercado global de soluções para redução de perdas de alimentos pode movimentar até US$ 700 bilhões até 2030.
E o Global Impact Investing Network, uma associação de investidores, aponta que empresas ligadas à circularidade e ao reaproveitamento de recursos estão entre as prioridades de investidores comprometidos com metas ambientais.
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O custo invisível de jogar comida fora
Daniel Balaban, diretor do Centro de Excelência contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos (WFP), diz à BBC News Brasil que o uso da tecnologia para evitar o desperdício de comida representa "um avanço real, ainda que inicial".
"Isso se traduz em redução de emissões, pois o lixo orgânico em aterros sanitários gera metano, um gás de efeito estufa muito mais potente que o CO?", explica, ressaltando que evitar o desperdício é uma forma direta de mitigar as mudanças climáticas.
Outro efeito desse tipo de iniciativa é a mudança cultural que começa a ser semeada.
"Esses apps ajudam a reduzir desperdício, mas também educam sobre validade, aproveitamento dos alimentos e o valor da comida."
Entretanto, um desafio que permanece, para ele, é o desperdício em outras fases da cadeia da produção de alimentos.
"Os aplicativos atuam principalmente no varejo e no final da cadeia, não abordando em grande escala as perdas que ocorrem na produção, transporte e armazenamento. Para ampliar o impacto, eles podem se conectar a feiras, CEASAs [Centrais Estaduais de Abastecimento] e agricultores familiares, onde o desperdício também é muito alto."
Cláudio Goldberg aponta que esse tipo de iniciativa precisa de "fatores estruturais" para dar certo, como infraestrutura adequada — com armazenamento, transporte refrigerado e pontos de coleta — e integração tecnológica com o varejo para monitorar estoques em tempo real.
Segundo a FAO, braço das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, um terço de toda a comida produzida no mundo é perdida ou desperdiçada — cerca de 1,3 bilhão de toneladas por ano —, com impacto econômico estimado em US$ 940 bilhões.
Se o desperdício fosse um país, estaria entre os maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima que, em 2022, foram desperdiçadas aproximadamente 1,05 bilhão de toneladas de comida no varejo, serviços alimentares e domicílios — cerca de 19% dos alimentos disponíveis aos consumidores no mundo.
Evitar essas perdas poderia reduzir em 8% a 10% as emissões globais de gases de efeito estufa, diz a entidade.
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O 'empurrão' das redes sociais
Cláudio Goldberg destaca que os consumidores mais jovens tendem a valorizar mais o impacto ambiental de suas escolhas.
E, com as redes sociais, tão usadas por esse público, aplicativos do ramo viraram tendência.
No TikTok e no Instagram, milhares de usuários postam reações — os chamados reacts abrindo suas "sacolas surpresa" e mostrando doces, salgados, bebidas e outros produtos de marcas que normalmente seriam mais caras, agora acessíveis com grandes descontos.
O brasileiro Weslley Pereira, de 28 anos, que mora na Inglaterra, ficou sabendo desse tipo de aplicativo pelas redes sociais.
"Vi um vídeo no TikTok de alguém na Irlanda, baixei e gostei do que recebi. Achei muito bom o valor pela quantidade de comida, e ainda diminui o desperdício", relata Weslley.
"Gosto de padarias e supermercados asiáticos, e sempre que compro, economizo mais de 50% do valor do produto. Uma vez consegui duas pizzas por menos de £4 (R$ 28), enquanto uma pizza no menu do mesmo estabelecimento custava mais de £10 (cerca de R$ 70)."
Daniel Balaban explica que esse tipo de aplicativo se enquadra no conceito de economia circular, que considera todo o ciclo de produção e descarte dos itens e busca o maior reaproveitamento possível.
Segundo Goldberg, startups "verdes" têm maior probabilidade de receber financiamento atualmente do que as "não verdes".
Entretanto, ele ressalta que a tecnologia acelera mudanças culturais e estruturais, mas não substitui políticas públicas e ações sistêmicas para tornar o setor de alimentos mais eficiente e sustentável.
O professor da FGV sugere, por exemplo, estímulos governamentais como crédito tributário para empresas que doam excedentes, incentivos fiscais para startups de economia circular e linhas de financiamento por bancos públicos.
A Food To Save foi selecionada em 2022 para um programa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que estimula startups com potencial de crescimento e impacto social ou ambiental.
Apesar do incentivo, o criador do aplicativo, Lucas Infante, aponta para um grande desafio que persiste pela frente no país.
"O maior desafio é cultural. O Brasil tem uma relação permissiva com o desperdício. É normal ver comida sendo jogada fora", lamenta o empreendedor.
No Brasil, ainda não há um levantamento consolidado anual que meça todas as perdas de comida ao longo da cadeia produtiva.
O Ministe?rio do Desenvolvimento Social (MDS) afirmou ter coordenado, entre 2024 e 2025, a elaboração de um documento (II Estratégia Intersetorial para Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos) que prevê metas como ampliar a medição de perdas no país e aperfeiçoar mecanismos de doação de alimentos.
De acordo com a pasta, o Brasil tem 350 bancos de alimentos, sejam públicos, privados sem fins lucrativos ou vinculados ao programa SESC Mesa Brasil. O ministério diz apoiar, desde 2005, a ampliação e modernização de bancos de alimentos.
O órgão destacou ainda o Programa Comida no Prato, que concede isenção de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para empresas doadoras de alimentos.
Afirma também ver com "cautela" aplicativos privados de resgate de alimentos.
"Aplicativos e serviços privados têm modelos de funcionamento variados — alguns com cobrança pelo serviço — e ainda há pouca clareza sobre critérios sanitários, logística e seleção de beneficiários", afirmou o ministério em nota.
"Por isso, o MDS acompanha o tema, mas reforça que o sistema público e comunitário de bancos de alimentos é hoje o canal mais seguro, consolidado e alinhado às políticas nacionais de combate às perdas e ao desperdício."
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) afirmou atuar em parceria com o MDS sobre o assunto. O Mapa disse também ter criado em 2022 um grupo de trabalho que propôs recomendações como o incentivo à produção de estatísticas nacionais sobre desperdício de alimentos; e o fortalecimento dos bancos de alimentos vinculados às Centrais de Abastecimento (Ceasas) e de programas como o Alimenta Brasil e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

