ANÁLISE

Ameaças de Trump à Groenlândia colocam Europa e Otan sob tensão

A Dinamarca afirma que, se Trump tomar posse da Groenlândia, será o fim da aliança de defesa transatlântica que sustenta a segurança da Europa desde o final da Segunda Guerra Mundial

A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, enfrentou pressão dos seus colegas europeus para não antagonizar com os Estados Unidos em relação à Groenlândia, durante as discussões para um acordo de paz para a Ucrânia -  (crédito: AFP)
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, enfrentou pressão dos seus colegas europeus para não antagonizar com os Estados Unidos em relação à Groenlândia, durante as discussões para um acordo de paz para a Ucrânia - (crédito: AFP)

A chamada Coalizão dos Dispostos, composta principalmente por líderes europeus, se reuniu na terça-feira (6/1), em Paris, na França, com enviados do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A intenção foi tentar fazer novos progressos rumo a um acordo de paz sustentável para a Ucrânia.

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O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, insiste que o plano para pôr fim à guerra com a Rússia está "90% pronto". Assim, ninguém naquele encontro quis prejudicar a participação americana nas negociações.

Mas, na sala onde se realizava aquela grandiosa reunião em Paris, havia um imenso elefante, do tamanho da Groenlândia.

A Groenlândia é a maior ilha do mundo. Ela tem quase quatro vezes o tamanho do Estado da Bahia, ou seis vezes a área da Alemanha.

A ilha fica no Ártico, mas é um território autônomo da Dinamarca. E Trump insiste que quer a posse do território; que ela é necessária para a segurança nacional dos Estados Unidos.

A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, compareceu à reunião em Paris. Ela é uma importante aliada de muitos dos líderes da União Europeia também presentes — e do Reino Unido na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar formada por 32 países.

Nenhum dos países quis correr o risco de antagonizar com Donald Trump. Mas, com a temperatura política subindo em Washington e em Copenhague, seis grandes potências europeias (entre elas, o Reino Unido, a França e a Alemanha) emitiram uma declaração conjunta nos bastidores das negociações sobre a Ucrânia.

Os países declararam que a segurança do Ártico deve ser atingida coletivamente, em conjunto com os aliados da Otan, incluindo os Estados Unidos. E que apenas a Dinamarca e a Groenlândia devem decidir questões referentes à Dinamarca e à Groenlândia.

Mas será que esta declaração realmente é suficiente para conter as ambições de Donald Trump?

A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen
AFP
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, enfrentou pressão dos seus colegas europeus para não antagonizar com os Estados Unidos em relação à Groenlândia, durante as discussões para um acordo de paz para a Ucrânia

A resposta veio em questão de horas: não.

A Casa Branca divulgou sua própria declaração, afirmando que está "discutindo uma série de opções" para adquirir a Groenlândia. Todas elas, unilaterais, incluindo a própria compra da ilha.

O que assustou os líderes europeus é que o comunicado da Casa Branca, fornecido pela secretária de imprensa Karoline Leavitt, afirmou que "o uso das forças armadas dos Estados Unidos é sempre uma opção à disposição do Comandante-em-Chefe".

Esta não é a primeira vez em que Trump expressa sua intenção de tomar a Groenlândia. Especialmente no seu primeiro mandato presidencial (2017-2021), muitas pessoas na Europa ridicularizavam a ideia a portas fechadas.

Mas, depois da controversa intervenção militar do governo Trump na Venezuela, no último fim de semana, ninguém mais está rindo sobre esta possibilidade.

Europa em risco de ser pisoteada

A primeira-ministra dinamarquesa declarou que as intenções de Trump sobre a Groenlândia devem ser levadas a sério e os líderes deixaram a reunião sobre a Ucrânia realmente muito preocupados.

Imagine a ironia da situação.

Diversos líderes nacionais europeus e de organizações como a Otan e a União Europeia se reuniram para tentar fazer com que o governo Trump ajudasse a proteger o futuro da soberania de um país europeu (a Ucrânia) contra as ambições territoriais agressivas de uma força externa (a Rússia).

Tudo isso, pouco depois que os Estados Unidos se precipitaram militarmente sobre a Venezuela, levando seu presidente em custódia e mantendo ativa sua ameaça à soberania de outra nação europeia (a Dinamarca).

Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, algemados após aterrissarem em Nova York (EUA), escoltados por agentes federais americanos
Getty Images
Os Estados Unidos se lançaram militarmente sobre a Venezuela para capturar o presidente do país, Nicolás Maduro

Para agravar ainda mais a questão, a Dinamarca e os Estados Unidos são membros da aliança transatlântica, a Otan.

Segundo Copenhague, os dois países são aliados extremamente próximos. Ou, pelo menos, eram.

A Dinamarca afirma que, se o governo Trump tomar posse da Groenlândia unilateralmente, será o fim da aliança de defesa transatlântica que sustenta a segurança da Europa desde o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Alguns poderão observar que Trump nunca foi um grande admirador da Otan, para dizer o mínimo. E Copenhague tentou atrair o governo Trump em relação à Groenlândia.

Os Estados Unidos já possuem uma base militar na Groenlândia. Fruto de um acordo bilateral, ela foi estabelecida no início da Guerra Fria (1947-1991).

Os americanos reduziram a quantidade de pessoal na base, de cerca de 10 mil no auge das operações na Guerra Fria, para cerca de 200. E os Estados Unidos foram acusados há muito tempo de ignorar a segurança do Ártico, até agora.

Por outro lado, a Dinamarca prometeu recentemente investir US$ 4 bilhões (cerca de R$ 21,6 bilhões) na defesa da Groenlândia, incluindo navios, drones e aeronaves. Mas o governo Trump não demonstrou nenhum interesse em conversar com os dinamarqueses.

Mapa mostrando a localização da Groenlândia e da sua capital Nuuk, em relação à Dinamarca, ao Canadá e aos Estados Unidos e sua capital, Washington.
BBC

No domingo (4/1), Trump insistiu que a Groenlândia é "muito estratégica no momento".

"A Groenlândia está coberta de navios russos e chineses por toda parte. Precisamos da Groenlândia do ponto de vista de segurança nacional e a Dinamarca não será capaz de fazê-lo."

Os dinamarqueses refutam esta última afirmação.

Em condição de anonimato, uma autoridade da União Europeia afirmou que "toda esta situação simplesmente destacou, mais uma vez, a fundamental fraqueza da Europa em relação a Trump".

Os vizinhos da Dinamarca na região nórdica imediatamente se manifestaram em sua defesa, após os comentários de Trump sobre a Groenlândia no fim de semana. Mas houve inicialmente um silêncio ensurdecedor por parte dos chamados Três Grandes da Europa (o Reino Unido, a França e a Alemanha).

O primeiro-ministro britânico Keir Starmer acabou afirmando na segunda-feira (5/1) que somente a Dinamarca e a Groenlândia poderão decidir o futuro da ilha. E o chanceler alemão, Friedrich Merz, havia declarado algo similar no passado.

Já o presidente francês, Emmanuel Macron, visitou a Groenlândia em dezembro, em um gesto de solidariedade a Copenhague. E, na terça (6/1), veio a declaração conjunta.

Mas o comunicado claramente excluía críticas diretas aos Estados Unidos.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
NurPhoto via Getty Images
O comunicado da Casa Branca, fornecido pela secretária de imprensa Karoline Leavitt na terça-feira (6/1), afirma que 'o uso das forças armadas dos Estados Unidos é sempre uma opção à disposição do Comandante-em-Chefe'

"Se houvesse sido emitida uma declaração conjunta de todos os 27 parceiros da União Europeia, mais o Reino Unido como aliado da Otan, em apoio à soberania da Dinamarca, esta teria sido uma mensagem poderosa para Washington", declarou Camille Grand, do Conselho Europeu de Relações Exteriores. Ele foi vice-secretário-geral de Investimentos de Defesa da Otan entre 2016 e 2022.

Mas apenas seis aliados europeus da Dinamarca emitiram aquela declaração conjunta.

Este é o cerne da questão. A postura direta de Trump, que alguns chamam de tática de bullying, deixou os líderes europeus extremamente nervosos.

Eles geralmente preferem tentar administrar o presidente americano, muitas vezes tentando proteger as relações bilaterais, em vez de se opor individualmente ou em conjunto e se arriscar a confrontá-lo e enfrentar as possíveis consequências.

Vivemos em um novo mundo da política das grandes potências, dominado pelos Estados Unidos e pela China, ao lado de outros como a Rússia e a Índia. E a Europa, na melhor das hipóteses, parece estar nos bastidores e corre o risco de ser pisoteada.

Como a União Europeia cedeu a Trump

Em todos os anos em que cobri a política da União Europeia, o bloco prometeu exercer papel maior no cenário global. Mas, quando o assunto é Trump, a UE parece decididamente fraca.

No final do ano passado, a União Europeia não cumpriu a promessa de apoiar financeiramente a Ucrânia, usando os ativos do Estado russo congelados na UE.

Eles encontraram o dinheiro por outros meios, mas os críticos afirmam que o bloco perdeu publicamente a oportunidade de enviar uma mensagem potencialmente forte para Moscou e para o governo Trump, que desprezou repetidamente a UE, considerada frágil.

E até em uma área que é motivo de orgulho internacional há muito tempo, como enorme potência comercial, a União Europeia preferiu novamente ceder a Trump.

Quando o presidente americano impôs tarifas de importação de 15% sobre os produtos da UE no ano passado, o bloco engoliu o seu orgulho e prometeu não retaliar, segundo fontes internas, por medo de perder o apoio dos Estados Unidos ao continente para sua segurança e defesa.

O presidente da França, Emmanuel Macron
LUDOVIC MARIN/POOL/EPA/Shutterstock
'Toda esta situação simplesmente destacou, mais uma vez, a fundamental fraqueza da Europa em relação a Trump', segundo uma autoridade da União Europeia

E, agora, há a questão da Groenlândia e da Dinamarca, com profundas divisões entre os países da UE sobre sua posição frente ao governo Trump e até que ponto cada um deles pode se manifestar a favor de Copenhague.

Com isso, Julianne Smith, que foi embaixadora americana na Otan até a eleição de Trump para a presidência, declarou que esta situação "ameaça o rompimento da UE" e representa um dilema existencial para a Otan.

"A Europa deveria levar o presidente Trump e sua equipe a sério, quando eles falam em 'tomar' a Groenlândia", segundo Smith. "Isso significa fazer mais do que pedir contenção."

"As principais potências da Europa podem desejar iniciar planos de contingência; examinar como eles podem usar melhor as reuniões internacionais, como a próxima Conferência de Segurança de Munique, na Alemanha, e a conferência de Davos, na Suíça, onde estarão presentes altas autoridades dos Estados Unidos; e também considerar ideias ousadas e inovadoras, como novos pactos de defesa."

Os tratados da Otan não fazem distinção entre ataques a aliados vindos de países externos ou de outro aliado da Otan.

Mas existe o entendimento de que o Artigo 5 da aliança (apelidado de "cláusula um por todos e todos por um") não se aplica a ataques de um país da Otan a outro.

Um exemplo foi o conflito ocorrido entre dois Estados membros, Turquia e Grécia, em relação a Chipre.

O pior episódio de violência ocorreu em 1974, com a invasão turca. A Otan não interveio, mas seu membro mais poderoso (os Estados Unidos) ajudou na mediação.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
Reuters
No ano passado, a União Europeia não cumpriu a promessa de apoiar financeiramente a Ucrânia usando os ativos estatais russos congelados no bloco

Se retomarmos a geografia, a Dinamarca é um dos menores aliados da Otan, mas muito ativo. E os Estados Unidos são, de longe, o maior e mais poderoso membro da aliança.

O profundo nervosismo arraigado na Europa no momento é palpável.

As grandes potências europeias podem ter emitido sua declaração conjunta, destacando a Otan como fórum adequado para discutir a segurança no Ártico e defendendo que apenas a Dinamarca e a Groenlândia podem decidir o futuro da ilha.

Mas até onde irão o Reino Unido, a França, a Alemanha e outros países para garantir esta soberania?

"Ninguém irá enfrentar os Estados Unidos militarmente sobre o futuro da Groenlândia", afirmou sonoramente o confiante vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, em entrevista à rede de TV CNN na segunda-feira (5/1).

Camille Grand afirma que as tensões sobre a Groenlândia destacam (novamente, segundo ele) "a necessidade dos europeus de reduzir sua dependência dos Estados Unidos em questões de segurança e falar com uma única voz".

No ano passado, Trump conseguiu fazer com que todos os aliados da Otan, exceto a Espanha, se comprometessem a aumentar massivamente seus gastos com a própria defesa.

Mas a Europa ainda depende muito dos Estados Unidos em diversas áreas, incluindo a coleta de inteligência, comando, controle e capacidades aéreas. E Washington sabe muito bem disso.

Fontes internas da Otan afirmam que, mesmo em reuniões realizadas a portas fechadas, os Estados membros da aliança na Europa raramente conseguem contemplar o que poderá acontecer se Washington atingir militarmente a Groenlândia.

Talvez eles tenham que fazê-lo.

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BBC
Katya Adler - Editora de Europa da BBC News
postado em 07/01/2026 18:10 / atualizado em 07/01/2026 22:05
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