
Países europeus estão tentando construir planos para reagir a uma eventual ocupação militar da Groenlândia pelos Estados Unidos. A França lidera as conversas nos bastidores, que já contam com a adesão da Alemanha. Ontem, os chanceleres francês, alemão e polonês se reuniram, em Paris, para discutir a tensão sobre a ilha no Ártico. Ainda não há, porém, nenhuma informação sobre a estratégia em análise para contornar a situação.
Depois de um dia em que fez questão de aventar a possibilidade de agir militarmente para tomar a ilha, território autônomo ligado à Dinamarca, a Casa Branca optou ontem por amenizar o tom. Embora não tenha recuado e descartado o uso das Forças Armadas, o governo dos EUA resolveu divulgar que sua equipe de segurança nacional avaliava "ativamente" a possibilidade de fazer uma oferta de compra do território.
A conversa dos líderes europeus sobre a Groenlândia ocorreu nos bastidores de um encontro na França em que o tema era a segurança do continente, com ênfase na guerra na Ucrânia. Com a recente ofensiva militar norte-americana na Venezuela, porém, e o aumento da pressão da Casa Branca sobre o território no Ártico, o foco da cúpula acabou virando para as ameaças de Trump à soberania groenlandesa.
Uma fonte da alta cúpula do governo da Alemanha confirmou, à agência Reuters, que Berlim está trabalhando em conjunto com os países europeus e com a Dinamarca, especificamente, para cooperação sobre os próximos passos quanto à ilha.
O ministro da Defesa da Bélgica, Theo Francken, disse estar convencido de que, nos próximos dias, serão tomadas iniciativas, "nos bastidores ou publicamente", para "sair dessa situação". Já Emmanuel Macron, presidente da França, disse que é "inimaginável" que os Estados Unidos "se coloquem em uma situação de violar a soberania dinamarquesa".
Também ontem, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, confirmou que se reunirá na semana que vem com representantes da Dinamarca para falarem sobre a questão groenlandesa. Desde terça-feira e também ontem ao longo do dia, a primeira-ministra dinamarquesa e o líder da Groenlândia cobravam publicamente uma reunião "urgente" com Rubio. Até agora, no entanto, não há confirmação da presença de representantes da ilha nesse encontro.
Integração europeia
As respostas dos países europeus às ameaças de Trump têm se intensificado à medida em que a Casa Branca aumenta seu tom de ameaça sobre uma eventual anexação da Groenlândia. Mesmo após Marco Rubio dizer que os EUA querem "comprar" o território, a porta-voz, Karoline Leavitt, manteve em aberto a possibilidade de uma ação militar. Segundo ela, "o uso do Exército americano é sempre uma opção à disposição do comandante-em-chefe".
As posições de Washington têm oscilado. Ontem, por exemplo, o chanceler da França, Jean-Noël Barrot, disse ter conversado por telefone com Rubio e ter ouvido do secretário de Estado dos EUA que não há possibilidades de invasão ou de alguma operação militarizada contra a ilha no Ártico.
Otan pressionada
Em meio às reuniões europeias para definir um plano de reação para uma eventual ofensiva militar estadunidense, a Otan, aliança de defesa europeia integrada pelos Estados Unidos, tem se mantido distante das negociações de resposta a Trump. Embora as negociações envolvam nações integrantes da aliança, o grupo ainda não se manifestou oficialmente sobre uma possível ação conjunta contra Trump.
Segundo a agência de notícias AFP, uma fonte da Otan afirmou que a aliança ainda não vai debater oficialmente o tema, pois isso poderia causar "divisões". E acrescentou que os aliados tratam apenas de "ameaças militares externas, e não de problemas internos entre os países do bloco". As regras da Otan preveem que a aliança defenda um país-membro que tiver seu território atacado.
Se a Casa Branca agredir a ilha, formalmente um espaço dinamarquês, haveria um paradoxo dentro da aliança, com seu mais poderoso membro atacando a soberania de outro. O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, tentou colocar "panos quentes" na situação, dizendo que, para ele, é "impensável" um ataque militar norte-americano.
