
Estabilização, recuperação e transição.
Foi assim que o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, detalhou as três fases do plano do governo de seu país para consolidar a mudança de regime na Venezuela após a queda de Nicolás Maduro.
A declaração foi dada nesta quarta-feira (7/1), ao apresentar a estratégia diante do Congresso americano, quatro dias após a captura do líder venezuelano e de sua esposa, Cilia Flores, e da transferência de ambos para Nova York para responder a acusações perante a Justiça.
O presidente dos EUA, Donald Trump, já havia adiantado que será ele quem "governará" a Venezuela até que se complete ali "uma transição segura, apropriada e criteriosa".
"Não queremos que isso descambe para o caos", confirmou agora seu secretário de Estado.
1. Estabilização
Rubio explicou que a primeira fase do plano estará focada na estabilização da Venezuela.
"Parte dessa estabilização, e a razão pela qual entendemos e acreditamos que temos a maior influência possível, é a nossa quarentena", sustentou o secretário.
Nesse ponto, Rubio adiantou que os EUA tomarão entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo venezuelano, irão vendê-los no mercado a preços internacionais e controlarão a forma como serão distribuídas as receitas obtidas com essas transações.
Isso é algo que Trump já havia antecipado na terça-feira, quando afirmou, em uma mensagem compartilhada em sua rede social Truth Social, que a Venezuela entregaria aos EUA essa quantidade de petróleo bruto.
O secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, disse também nesta quarta que seu país pretende manter um controle significativo sobre a indústria petrolífera venezuelana, incluindo a supervisão da venda da produção do país.
"Vamos comercializar o petróleo bruto proveniente da Venezuela: primeiro esse petróleo acumulado e armazenado e, depois, de forma indefinida, venderemos a produção que sair da Venezuela no mercado", afirmou Wright.
Segundo destacou o colaborador da BBC Mundo na Venezuela, Gustavo Ocando, o anúncio de Trump ocorreu horas depois de alguns meios de comunicação informarem que 11 navios-tanque da Chevron — a única companhia petrolífera americana que opera na Venezuela — estavam a caminho do país sul-americano.
De acordo com Ocando, em relato ao serviço de notícias em espanhol da BBC, a cifra entre 30 e 50 milhões de barris equivaleria a todo petróleo venezuelano que está retido desde que os EUA impuseram um bloqueio em dezembro.
Em coletiva de imprensa também nesta quarta, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que o petróleo da Venezuela chegará "muito em breve" aos EUA.
"Esse dinheiro será administrado de tal forma que controlaremos sua distribuição para beneficiar o povo venezuelano, e não a corrupção nem o regime", disse Rubio nesta quarta-feira.
Ele também fez referência à apreensão, poucas horas antes, de dois petroleiros vinculados ao petróleo venezuelano.
"Como vocês viram hoje, mais dois navios foram apreendidos. Estamos no meio desse processo e, de fato, prestes a fechar um acordo para tomar todo o petróleo que eles têm, o petróleo que está parado na Venezuela", explicou Rubio.
Um dos navios, o Marinera (anteriormente denominado Bella 1), navegava pelas águas do Atlântico Norte sob bandeira russa, enquanto o segundo, conhecido como M/T Sofia, operava no mar do Caribe.
Ambos, alegam os EUA, violavam as sanções impostas pelo governo americano.
2. Recuperação
Rubio classificou a segunda etapa da intervenção sob o termo "recuperação", vinculada à reintegração da Venezuela ao mercado global.
"A segunda fase será a chamada recuperação, que consiste em garantir que empresas americanas, ocidentais e de outros países tenham acesso ao mercado venezuelano de forma justa", detalhou.
Representantes das principais empresas petrolíferas americanas planejam se reunir com o governo Trump ainda esta semana, informou a CBS, emissora parceira da BBC nos EUA.
Mas analistas que falaram à BBC se mostraram céticos quanto aos impactos dos planos de Trump na oferta global e no preço do petróleo.
Para os entrevistados, as empresas do setor buscariam garantias de que um governo estável esteja no poder da Venezuela e, mesmo se investirem lá, seus projetos demorariam anos para dar resultados.
Trump argumenta que as empresas petrolíferas americanas podem consertar a infraestrutura petrolífera da Venezuela.
O país sul-americano tem reservas estimadas em 303 bilhões de barris — a maior reserva comprovada do mundo —, mas sua produção de petróleo está em declínio desde o início dos anos 2000.
O secretário de Estado dos EUA adiantou ainda que, em paralelo, será promovido um marco de reconciliação política na Venezuela.
"Começará a ser gerado um processo de reconciliação nacional na Venezuela para que as forças da oposição possam ser anistiadas e libertadas das prisões ou repatriadas ao país e começar a reconstruir a sociedade civil", enfatizou Rubio.
3. Transição
A sequência planejada pelo governo Trump culminará, segundo o secretário de Estado, em uma etapa definitiva que consolidaria a transformação política interna do país.
"E a terceira fase, claro, será a de transição. Parte disso se sobreporá", disse, sem dar maiores detalhes.
Neste momento, o governo Trump decidiu apoiar vice de Maduro, Delcy Rodríguez, em vez da líder da oposição na Venezuela, María Corina Machado.
"Ela é uma mulher muito simpática. Mas não tem o apoio nem o respeito do país", disse Trump no último sábado (3/1) ao deixar claro que não avalia um governo liderado por Corina Machado.
O governo americano tem falado em "transição", mas não em "eleições".
Também não tem mencionado as eleições de 2024, quando uma apuração paralela da oposição com atas de locais de votação mostrou que o candidato Edmundo González Urrutia, aliado de Corina Machado, saiu vencedor.
Corina Machado sustenta que a oposição que lidera transformaria a Venezuela em um centro energético para as Américas, que restauraria o Estado de Direito para garantir a segurança do investimento estrangeiro e que facilitaria o retorno dos venezuelanos que migraram.
"A transição precisa avançar", disse ela.
Em entrevista à NBC, Trump declarou "que não dá para haver uma eleição" agora na Venezuela. "Isso vai levar um período de tempo. Nós — nós temos que cuidar do país até que ele volte à saúde."
Por ora, Trump indicou que os Estados Unidos permitiriam que o círculo íntimo de Maduro mantivesse o controle do poder, desde que atendesse às exigências de política externa dos EUA.
O presidente americano disse que a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, "pagará preço muito alto" se não cooperar com os EUA.
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