MEIO AMBIENTE

O misterioso retorno das 'aves perdidas' a Galápagos

Aves das ilhas Galápagos se recuperam e se reinventam após a erradicação de predadores invasores, 200 anos depois da visita de Charles Darwin ao arquipélago

O misterioso retorno das 'aves perdidas' a Galápagos -  (crédito: BBC Geral)
O misterioso retorno das 'aves perdidas' a Galápagos - (crédito: BBC Geral)

Por quase 200 anos, a ave sanã-das-galápagos esteve ausente de Floreana.

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Considerada extinta nessa pequena e inabitada ilha do arquipélago de Galápagos, a ave arisca e quase incapaz de voar ainda é encontrada em algumas das outras ilhas. Mas Charles Darwin (1809-1882) foi a última pessoa a registrar um avistamento da espécie em Floreana, quando visitou a ilha em 1835.

Neste ano, após a remoção de ratos e gatos selvagens de Floreana, a ave surpreendeu os ambientalistas ao reaparecer de forma inesperada na ilha. Ainda é um mistério como o animal retornou. Outras aves ameaçadas também se recuperaram, e algumas chegaram a cantar melodias novas, nunca antes ouvidas na ilha, que podem ser escutadas abaixo. A mudança oferece novos indícios de como um ambiente mais seguro, quase livre de predadores, pode permitir que os animais experimentem e inovem, afirmam cientistas.

"A sanã-das-galápagos era uma espécie que eu não esperava encontrar de jeito nenhum", conta Paula Castaño, veterinária especializada em vida selvagem que trabalha na Island Conservation, uma das organizações envolvidas na restauração de Floreana. "Ele simplesmente apareceu" na ilha, afirmou a especialista, acrescentando que talvez a espécie tenha sobrevivido todo esse tempo em uma população pequena, escondida e despercebida.

"[As sanãs] reapareceram e agora é muito comum encontrar essas aves simplesmente andando pela ilha. Dá para ouví-las, vê-las, é inacreditável", disse Paola Sangolquí, bióloga marinha da Jocotoco Conservation Foundation, que também integra o projeto de restauração.

O reaparecimento da sanã integra o que cientistas descrevem como um extraordinário retorno da vida a Floreana, após a eliminação de predadores invasores que haviam causado grandes danos às espécies nativas.

"É uma explosão instantânea dessas espécies que, até o ano passado, eram consideradas muito, muito raras", afirmou Sonia Kleindorfer, bióloga comportamental da Universidade de Viena (Áustria), que há 20 anos estuda, com sua equipe, diferentes espécies de tentilhões (aves pequenas, conhecidas pelo bico curto e forte e pelo canto característico) em Floreana e em outras ilhas. "É uma recuperação notável e imediata", acrescentou.

No fim de 2023, após uma década de trabalhos preparatórios, ratos e gatos selvagens foram erradicados como parte de um projeto de restauração do ecossistema nativo de Floreana. Em 2025, a contagem de aves revelou que várias espécies antes raras — como as pombas-das-galápagos, lagartos de lava, lagartixas e o papa-lagarta-acanelado — passaram a ser observadas com mais frequência, segundo Birgit Fessl, pesquisadora principal de conservação de aves terrestres da Charles Darwin Foundation, que integra o projeto de restauração de Floreana.

"Mas a descoberta mais empolgante foi a redescoberta da sanã-das-galápagos", disse Fessl. "Essa ave não era registrada em Floreana havia séculos — a única prova histórica de sua presença [era] um exemplar coletado pelo próprio Darwin."

Nos próximos anos, o plano é reintroduzir 12 espécies que existiam em Floreana quando Darwin visitou a ilha, mas que se extinguiram localmente. A lista inclui várias aves, além de tartarugas-gigantes, que serão transferidas de programas de reprodução e de outras ilhas onde sobreviveram. O projeto é liderado pela Direção do Parque Nacional de Galápagos e executado pela Jocotoco, Island Conservation, Charles Darwin Foundation e parceiros.

Mesmo antes das reintroduções, previstas para começar no próximo ano, cientistas que estudam Floreana afirmam que a ilha já passa por transformações surpreendentes, oferecendo um raro vislumbre, em tempo real, de como os ecossistemas podem se recuperar. O processo se soma a histórias semelhantes observadas em outras partes do arquipélago, como a ilha de Pinzón, onde a tartaruga-gigante caminhava para a extinção devido à predação de filhotes por ratos, mas agora registra crescimento populacional, com maior sobrevivência dos filhotes.

Um 'caso clássico de evolução'

"Nada poderia ser menos convidativo do que a primeira impressão [das ilhas Galápagos]", escreveu Charles Darwin ao relatar sua chegada ao arquipélago a bordo da embarcação Beagle, em setembro de 1835. "Chegamos a achar que os arbustos exalavam um cheiro desagradável."

Apesar desse começo pouco promissor, as ilhas acabaram exercendo influência decisiva sobre o legado mais importante de Darwin: sua teoria sobre a evolução das espécies. As aves que ele registrou, mais de uma dúzia de espécies de tentilhões hoje conhecidas como tentilhões de Darwin, além de três espécies de sabiás revelaram-se, mais tarde, pistas especialmente valiosas.

"As ilhas Galápagos são um belo exemplo clássico da evolução em ação", disse Frank Sulloway, historiador da ciência e professor adjunto do Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia, Berkeley (EUA), especialista na vida e nas teorias de Charles Darwin.

Segundo Sulloway, as ilhas, que ficam muito próximas umas das outras, abrigam diferentes espécies de sabiás, iguanas terrestres, lagartos de lava e tentilhões. Por meio de um processo conhecido como seleção natural, cada espécie se adaptou às condições ambientais específicas, que variam ao longo do arquipélago. Os tentilhões, conhecidos como tentilhões de Darwin, por exemplo, evoluíram a partir de um ancestral comum em espécies com bicos distintos, adequados a diferentes tipos de alimento. Sulloway observa que Darwin só chegou a essas conclusões depois de retornar a Londres e consultar o ornitólogo John Gould.

Darwin também percebeu que ratos, camundongos e gatos selvagens já representavam uma ameaça à fauna das ilhas em várias partes do mundo, inclusive no arquipélago de Galápagos, e descreveu esses predadores como uma "grande praga" introduzida pelos humanos.

Quando um novo predador é introduzido, como o rato, ele altera o ambiente, forçando as espécies nativas a se adaptar ou a entrar em extinção, acrescenta Sulloway. Foi isso que ocorreu nas ilhas Galápagos, segundo ele. "Assim como Darwin previu, quando há a introdução de espécies exóticas, um sistema antes estável é desestabilizado, e então passam a se revelar os princípios da evolução."

Na década de 2000, espécies invasoras já haviam causado grandes danos em todo o arquipélago, ameaçando espécies nativas e levando algumas à extinção local. Juntos, ratos e gatos devoravam filhotes de tartarugas, aves adultas e seus filhotes, lagartos de lava, iguanas e até caracóis. Em Floreana, a anã-das-galápagos, a tartaruga de Floreana e o sabiá-de-floreana estavam entre as espécies perdidas. Um levantamento realizado em 2017 mostrou que cerca de metade das espécies de aves terrestres que originalmente viviam na ilha havia desaparecido.

"A erradicação de gatos e roedores em Floreana começou no fim de 2023", disse Fessl, da Charles Darwin Foundation. O veneno foi lançado por aviões e também distribuído manualmente. Os pesquisadores monitoraram as aves da ilha antes e depois da operação. Como medida de precaução, algumas espécies foram removidas temporariamente durante o processo. Uma nova etapa de erradicação, voltada aos ratos e camundongos remanescentes, está prevista para o fim de 2026.

Canções experimentais dos tentilhões

O retorno da sanã não foi a única surpresa para os pesquisadores. Talvez o dado mais marcante seja que, agora livres dos predadores, alguns tentilhões de Floreana passaram a cantar músicas completamente novas, afirma Kleindorfer, da Universidade de Viena, na Áustria.

Ela e sua equipe estudam os tentilhões de Darwin em Floreana e em outras ilhas do arquipélago há cerca de 20 anos e já fizeram 8 mil gravações dos cantos deles, todos oriundos de um repertório bastante restrito. Originalmente, havia nove espécies de tentilhões de Darwin em Floreana, disse a pesquisadora, das quais quatro se extinguiram localmente nos últimos 100 anos. As populações restantes na ilha estavam envelhecidas e cantavam sempre o mesmo conjunto de sons, como "chee-chee-chee-chee", segundo Kleindorfer.

Mas neste ano, ela passou a ouvir tentilhões jovens experimentando melodias totalmente novas, que podem ser escutadas na gravação abaixo.

"Em vez do velho e conhecido 'chee-chee-chee-chee', agora aparecem esses jovens que cantam algo como: 'choo-waa! choo-waa! choo-waa!'", disse. "Nunca tinha ouvido esse canto antes."

Outros tentilhões jovens vão além e eliminam as sílabas por completo, extraindo sons de zumbido das canções antigas e transformando-os em novos cantos:

"Alguns machos, neste ano, em vez de produzir qualquer sílaba, estão inovando no zumbido e cantando 'bzz-bzz!' ou 'bzz-pshee!' como música. Coisas realmente estranhas", afirmou.

As aves jovens também passaram a se comportar de forma mais ousada, a interagir mais entre si e a trocar cantos. "O que vemos são esses filhotes reunidos em bandos mistos, com indivíduos de diferentes espécies, aprendendo uns com os outros", disse Kleindorfer, acrescentando que eles imitam os cantos alheios.

O que está acontecendo?

Para explicar a mudança, Kleindorfer, da Universidade de Viena, começa descrevendo um cenário sombrio do que significava ser um tentilhão antes da remoção de ratos e gatos.

"Quando íamos verificar os ninhos, muitas vezes havia um rato espiando", afirmou Kleindorfer. "Eles estavam dentro dos ninhos, subiam nas árvores, a ilha tinha sido praticamente tomada por ratos. Chegavam a rastejar em nossas barracas."

O tentilhão-arbóreo-médio foi uma das espécies mais afetadas, segundo ela, porque seus ninhos ficavam a uma altura que favorecia todos os predadores da ilha, inclusive corujas nativas. Essa espécie também sofreu de forma intensa com um parasita introduzido conhecido como mosca-vampiro-aviária, cujas larvas se alimentam do interior do bico dos filhotes, deformando suas narinas. A perda de sangue e de tecido matou muitos filhotes, e as narinas deformadas impediam os tentilhões de cantar corretamente, o que comprometia suas chances de encontrar parceiros.

"Os ninhos eram destruídos pelos ratos ainda na fase dos ovos, [ou] os filhotes eram devorados vivos pela 'mosca-vampiro-aviária', ou aqueles poucos que conseguiam sobreviver, porque os pais passaram a construir os ninhos cada vez mais longe do tronco para escapar dos ratos, acabavam capturados pelas corujas", disse. "Assim, restaram pouquíssimos filhotes sobreviventes do tentilhão-arbóreo-médio, espécie criticamente ameaçada. A situação era desesperadora."

Esse cenário mudou de forma radical, para um ambiente quase livre de predadores. Ratos e gatos selvagens praticamente desapareceram da ilha. As corujas nativas foram removidas temporariamente, para evitar que se alimentassem de carcaças de ratos envenenados. Já o 'mosca-vampiro-aviária' vem sendo combatido com a pulverização dos ninhos e com a oferta de material para ninhos embebido em inseticida para os tentilhões, disse Kleindorfer.

Como resultado, os dados de monitoramento deste ano indicam uma reviravolta expressiva para os tentilhões, segundo a pesquisadora. "O que vimos? Boas notícias — o sucesso de saída dos filhotes do ninho foi tão grande que foge de qualquer padrão. Nunca tivemos tantos ninhos produzindo filhotes", afirmou.

Essa população mais jovem, agora revitalizada, passou a experimentar novos cantos graças ao ambiente mais seguro, disse Kleindorfer.

Os tentilhões aprendem um único canto de acasalamento quando jovens e o repetem por toda a vida, contou Kleindorfer. O canto é aprendido com um macho mais velho, embora o jovem possa optar por alterar a melodia, por exemplo, ao testar um novo som ou imitar o canto de outra espécie. Dependendo do ambiente, pode ser vantajoso se conformar e soar como todos os outros do grupo, ou experimentar e soar diferente, afirma a pesquisadora.

"Se todos estão cantando o mesmo tipo de música, 'chee-chee-chee-chee', e uma coruja passa voando, fica difícil isolar um", afirmou Kleindorfer.

"Agora imagine todo mundo cantando 'chee-chee-chee-chee' e um único indivíduo fazendo 'twee! twee!'. Você [como coruja] conseguiria triangular muito mais facilmente aquele que é diferente" e capturá-lo, acrescenta.

Quando predadores percorriam a ilha, os tentilhões tendiam a cantar todos as mesmas músicas, a partir de um repertório restrito de cerca de cinco a dez cantos por espécie, disse ela, o que ajudava, na prática, a se esconder no grupo.

"Há um custo enorme em parecer diferente e soar diferente em um ambiente com predadores", afirmou Kleindorfer. "Mas, quando você se livra dessa pressão, de repente, passa a poder experimentar."

Agora, em um ambiente seguro, estamos vivendo uma revolução cultural", sugere Kleindorfer, ao observar que os tentilhões passaram a adotar comportamentos mais ousados e a cantar melodias mais experimentais. "Todos os jovens que eram ousados agora não morrem. Antes, eles morriam", explicou.

Há evidências de padrão semelhante em outros lugares. Um estudo australiano com pisco-australianos constatou que indivíduos que vivem em ambientes livres de predadores são significativamente mais ousados do que aqueles que convivem com predadores.

"Espero um surto de inovação" entre os tentilhões nos próximos anos, afirma Kleindorfer, à medida que continuem a se adaptar a esse ambiente mais seguro. A próxima questão será como as fêmeas responderão às mudanças e se passarão a favorecer parceiros com comportamentos mais experimentais ou mais tradicionais.

"Quais [tipos de comportamento] vão se extinguir e quais vão prosperar, de maneiras que talvez ainda não tenhamos imaginado?", questiona. A resposta, espera ela, pode trazer novos entendimentos sobre como e por que o comportamento evolui.

Para Paola Sangolquí, que cresceu na ilha de Santa Cruz (Equador), no arquipélago, ver a esquiva sanã-das-galápagos de sua infância se tornar uma presença frequente tem sido uma experiência especialmente marcante. "Esta ilha está mostrando o quanto as espécies podem ser resilientes. Depois de 200 anos, você volta a vê-las", disse.

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BBC
Sophie Hardach - BBC Future
postado em 17/01/2026 08:31 / atualizado em 17/01/2026 09:57
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