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Os imensos desafios que Lula e outros líderes mundiais poderão enfrentar no 'Conselho de Paz' de Gaza criado por Trump

Apesar das preocupações e complexidades do plano de paz de Trump, ele continua sendo o único viável, com muitos líderes mundiais prometendo apoiá-lo, escreve John Sudworth, correspondente sênior da BBC.

Grupos de ajuda humanitária acusaram Israel de manter as restrições ao seu trabalho -  (crédito: Getty Images)
Grupos de ajuda humanitária acusaram Israel de manter as restrições ao seu trabalho - (crédito: Getty Images)

A Casa Branca anunciou os primeiros membros de seu "Conselho de Paz" para Gaza, e a lista de nomes pouco contribui para dissipar as críticas de alguns setores de que o plano do presidente dos Estados Unidos se assemelha, em sua essência, a uma solução colonial imposta aos palestinos.

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Ainda existem várias incógnitas — principalmente quem mais poderá ser adicionado e a estrutura exata do que atualmente é um plano bastante complexo.

Até o momento, nenhum nome palestino consta nos dois conselhos seniores separados que foram oficialmente divulgados.

Um deles é um "Conselho Executivo fundador", com foco em investimento e diplomacia.

O outro grupo, chamado de "Conselho Executivo de Gaza", é responsável por supervisionar todo o trabalho em campo de mais um grupo administrativo, o Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG, na sigla em inglês).

Esse comitê é composto por palestinos supostamente tecnocratas e apolíticos, liderados pelo Ali Shaath, engenheiro civil de formação que ocupou cargos ministeriais na Autoridade Palestina.

Mas dos sete membros do "Conselho Executivo fundador", seis são americanos – incluindo o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e outros membros do círculo íntimo de Trump, como seu genro, Jared Kushner, e Steve Witkoff, que é Enviado Especial dos EUA para o Oriente Médio, mas também amigo do presidente e incorporador imobiliário.

Ajay Banga, presidente do Banco Mundial, é uma exceção, por ser cidadão americano com dupla nacionalidade, nascido na Índia.

Tony Blair, por sua vez, é um ex-primeiro-ministro do Reino Unido, e sua inclusão provavelmente alimentará ainda mais as preocupações sobre como o Conselho da Paz irá operar.

Nas últimas semanas, críticas à possível inclusão de Blair vieram de figuras proeminentes como o político Mustafa Barghouti, secretário-geral da Iniciativa Nacional Palestina, e de reportagens jornalísticas citando autoridades não identificadas de países árabes da região.

O papel central de Blair na guerra do Iraque, somado ao próprio histórico colonial britânico no Oriente Médio, é considerado por seus oponentes como um fator que o torna totalmente inadequado.

Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para os direitos humanos nos territórios palestinos ocupados, escreveu nas redes sociais no ano passado: "Tony Blair? De jeito nenhum. Tire suas mãos da Palestina."

Até mesmo Trump pareceu reconhecer a questão.

"Eu sempre gostei do Tony, mas quero ter certeza de que ele é uma escolha aceitável para todos", disse o presidente em outubro passado.

Há uma sobreposição significativa entre os dois conselhos de alto escalão, com Kushner, Witkoff e Blair aparecendo em ambos.

Mas o Conselho Executivo de Gaza inclui os nomes de algumas figuras políticas e diplomatas importantes da Turquia, Catar e Emirados Árabes Unidos. Será presidido pelo ex-político búlgaro, Nickolay Mladenov, que recebeu o título de Alto Representante para Gaza.

Yakir Gabay, um empresário nascido em Israel e atualmente radicado no Chipre, é o único membro israelense.

Em sua declaração anunciando os nomes, a Casa Branca afirmou que os escolhidos trabalharão para garantir "governança eficaz e a prestação de serviços de excelência que promovam a paz, a estabilidade e a prosperidade para o povo de Gaza".

E, independentemente das preocupações e complexidades, o plano continua sendo a única opção viável, com muitos líderes mundiais prometendo seu apoio e compromisso para que seja um sucesso.

Sua arquitetura é ainda mais complexa pelo fato de que, acima de todas as estruturas anunciadas até agora, estará o próprio Conselho da Paz, com Trump como presidente.

Os nomes desse órgão supremo ainda não foram anunciados, mas o atual primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, o presidente egípcio, Abdel Fattah El-Sisi, e o líder canadense, Mark Carney, teriam sido convidados a participar.

O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, também foi convidado a participar, segundo informações do Itamaraty, assim como o argentino Javier Milei.

No fim, a possibilidade de apaziguar as críticas mais veementes dependerá da rapidez com que os novos membros das equipes de liderança conseguirem implementar mudanças que façam uma diferença real tanto no cotidiano dos palestinos quanto, crucialmente, em ações concretas rumo a uma paz duradoura.

Vista aérea, pessoas caminham em meio à destruição na Cidade de Gaza, no norte da Faixa de Gaza. Todos os prédios visíveis são ruínas, estendendo-se até o horizonte distante
Getty Images
Grupos de ajuda humanitária acusaram Israel de manter as restrições ao seu trabalho

Grandes desafios ainda persistem para ambos os objetivos.

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que cerca de 80% dos edifícios em Gaza foram destruídos ou danificados, e as famílias que sobreviveram à guerra agora enfrentam dificuldades com o inverno rigoroso e a falta de alimentos e abrigo.

Embora grupos de ajuda humanitária afirmem que houve algumas melhorias, acusam Israel de impor restrições contínuas ao seu trabalho.

Israel afirma que está facilitando a assistência humanitária e culpa a ONU por não distribuir os suprimentos já presentes em Gaza. Argumenta que quaisquer restrições visam impedir a infiltração do Hamas e a exploração dos esforços de ajuda.

Mostrar progressos significativos na reconstrução também será uma tarefa hercúlea, envolvendo não apenas a remoção de cerca de 60 milhões de toneladas de entulho, mas também a localização e o descarte dos corpos e bombas não detonadas ali contidos.

Talvez o maior desafio, porém, seja manter o próprio cessar-fogo, que está se deteriorando.

Outro nome foi divulgado pela Casa Branca: o do major-general Jasper Jeffers como comandante da Força Internacional de Estabilização (FIE).

Apoiada por um mandato da ONU, a FIE terá a difícil tarefa de garantir a desmilitarização de Gaza.

Até o momento, não há um roteiro claro sobre como persuadir o Hamas a entregar suas armas, nem uma ideia clara de qual país fornecerá tropas para essa força ou quais serão suas atribuições e regras de engajamento.

O Hamas afirmou que só se desarmará como parte de um acordo mais amplo para o estabelecimento de um Estado palestino.

Israel, cujas tropas terrestres ainda controlam mais da metade da Faixa de Gaza, afirmou que só se retirará se o Hamas se desarmar.

Como esse impasse será resolvido é talvez o maior desafio de todos.

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BBC
John Sudworth
postado em 17/01/2026 20:29
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