
Aviso: Este artigo contém assuntos que podem ser sensíveis.
Gina Russo assistia a um show com seu noivo, Fred Crisostomi, em uma noite de 2003, quando percebeu que algo estava errado.
A banda Great White, que tocava um hair metal dos anos 1980, havia começado a apresentação com uma enxurrada de acordes de guitarra, enquanto quatro grandes sinalizadores pirotécnicos disparavam do palco.
Os sinalizadores incendiaram instantaneamente os painéis de espuma acústica ao redor, instalados para abafar o som.
"Foi imediato", conta Gina à BBC News.
"A situação piorou muito rápido. O clarão foi repentino."
Então veio "uma chuva negra de fumaça", acrescenta Gina. O calor derretia e estilhaçava as luzes de vidro acima das cabeças das pessoas.
Gina e seu noivo correram para a saída mais próxima, uma porta à direita do pequeno palco da casa de shows.
Um segurança bloqueou a passagem, mas Gina não faz ideia do porquê.
Foi então que começou "uma debandada" em direção à saída principal, lembra ela, e Fred a empurrou desesperadamente para a frente, em meio à multidão.
Gina conta que "os corpos se acumulavam" enquanto as pessoas se apressavam para sair — e sua última lembrança foi a de conseguir passar pela porta em segurança antes de desmaiar.
Quando acordou de um coma induzido 11 semanas depois, Gina descobriu que seu noivo havia salvado a vida dela, mas ele havia morrido no incêndio.
O fato aconteceu na boate The Station, na cidade nevada de West Warwick, Rhode Island, na costa leste dos Estados Unidos.
Cerca de 22 anos depois, houve um evento quase idêntico no bar Le Constellation, na igualmente nevada estação de esqui de Crans-Montana, na Suíça, nas primeiras horas do dia de Ano Novo de 2026.
Na boate The Station, 100 pessoas morreram. No Le Constellation, foram 40 mortes, principalmente de jovens.
Muitos sobreviventes de ambos os incêndios sofreram queimaduras graves.
Os dois desastres têm semelhanças impressionantes, e não apenas em seu impacto terrível sobre as vítimas.
Ambos foram causados ??por fogos de artifício em ambientes fechados, dizem os especialistas.
As vítimas parecem ter tido pouco tempo para encontrar uma rota de fuga, e os painéis de espuma podem ter espalhado as chamas na boate suíça de maneira idêntica ao incêndio na casa de shows americana.
O consultor britânico de investigação de incêndios, Richard Hagger, não hesita em comparar as duas tragédias.
Ele tem "99% de certeza" que o incêndio suíço foi desencadeado pelos fogos de artifício. Segundo o especialista, se a espuma fosse feita de materiais que retardam as chamas, ela teria queimado lentamente, e não pegado fogo com rapidez.
Essas semelhanças levantam questões: será que realmente entendemos o quão perigosas são essas situações? E o que devemos fazer se nos encontrarmos algum dia em uma delas?
Uma questão de segundos
Tanto na tragédia de Rhode Island quanto na Suíça, acredita-se que um "incêndio de flashover" tenha ocorrido.
Isso acontece quando o ar quente sobe, mas, à medida que o calor e a fumaça atingem o teto, não há para onde ir.
Então ele se espalha para baixo, incendiando rapidamente móveis, roupas e a pele das pessoas.
Em 2003, Phil Barr tinha 22 anos e estava de volta a Rhode Island para passar as férias de inverno depois de morar em Nova York.
Ele estava determinado a seguir carreira em Wall Street, mas Phil adorava uma banda de rock barulhenta, então ir ver o Great White naquela noite parecia algo ótimo.
Ele chegou cedo e quando seu amigo apareceu pouco antes do show, Phil ofereceu uma cerveja e o empurrou animadamente para a frente da multidão.
Quando o fogo começou, o vocalista da banda se virou e disse, calmamente, pelo sistema de som: "Nossa, isso não parece bom."
E não era: Phil diz que, no momento do "flashover", as chamas rapidamente "chegaram acima da minha cabeça e estavam em cima de mim".
"De repente, tudo pegou fogo. Eu conseguia ver um brilho alaranjado por trás de uma densa fumaça preta, mas nada muito além disso", acrescenta ele.
"Passei de sentir o calor das chamas para sentir como se meu corpo inteiro estivesse dentro de um forno."
Na tentativa de escapar, Phil bateu o corpo em chamas contra uma porta lateral e caiu na neve, em segurança. Ele sofreu danos respiratórios que colocaram a vida em risco.
Por uma incrível coincidência, uma equipe de filmagem de uma emissora de TV local estava na boate, e gravava um vídeo sobre segurança em locais de eventos.
As imagens de 12 minutos do incêndio mostram que as chamas levaram apenas 25 segundos para atingir o teto e, em 90 segundos, a fumaça tóxica já havia tomado conta do prédio.
Com a porta bloqueada por pessoas amontoadas umas sobre as outras e fumaça preta a sair pelas janelas, o vídeo sugere que deixar o local imediatamente aumentou as chances de sobrevivência.
O professor Ed Galea, um dos maiores especialistas mundiais em incêndios e na forma como as pessoas reagem a eles, explica como o calor proveniente dos painéis acústicos de espuma inflamável que revestiam o teto da boate The Station, durante o incêndio, agravou muito a situação.
"É uma situação terrível quando o combustível está no teto. Você não tem a vantagem do tempo que o fogo leva para se desenvolver. Ele já está no teto. Você tem uma camada quente instantânea e, quando ocorre o flashover, a sobrevivência fica improvável", diz ele.
Como parte da investigação sobre o que aconteceu na boate The Station, especialistas do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA construíram uma versão em laboratório da boate e a incendiaram.
O relatório oficial constatou que as condições de flashover foram atingidas após cerca de 65 segundos.
Após 90 segundos, "as condições no meio da sala foram consideradas letais".
Galea se baseou nessas descobertas, ao insetir a planta da boate The Station em um simulador de computador que ele próprio criou, o qual prevê como os incêndios se propagam.
Ele mostrou uma explosão de ar aquecido em rápida expansão, com temperaturas dentro da boate atingindo 700 °C em apenas 80 segundos.
Embora a investigação oficial sobre o desastre suíço esteja em andamento, as imagens coletadas até o momento sugerem que este incêndio também consumiu o local em questão de segundos, espalhando-se pelo teto revestido de espuma.
As autoridades suíças afirmam que o incêndio provavelmente foi iniciado por fogos de artifício que soltam faíscas e estavam presos a garrafas de champanhe, que foram erguidas muito perto do teto durante as comemorações.
Elas acrescentam que o bar não havia passado por inspeções de segurança nos últimos cinco anos.
O fogo precisa de três coisas: calor, combustível e oxigênio.
E em um incêndio como este, há uma janela de segundos para tomar a decisão de sair, antes que a combustão espontânea ocorra, diz Galea.
Mas todos os desastres que o professor Galea estudou o convenceram de que as pessoas subestimam a velocidade com que os incêndios podem se alastrar.
'A sorte favorece a mente preparada'
"Chamamos isso de síndrome do fogo amigo", diz ele.
"Não estamos mais expostos ao fogo diariamente como estávamos há 100 anos, quando tínhamos experiência em acender fogueiras para cozinhar. Perdemos toda essa conexão com a rapidez com que o fogo pode se alastrar."
Hagger acrescenta: "Algumas pessoas ficam paradas observando o fogo, fixadas no que estão vendo. Elas não percebem o perigo. Algumas filmam, outras até tentam se esconder, em vez de fugir."
Em um famoso estudo de 1968, os psicólogos Bibb Latané e John Darley recrutaram estudantes do sexo masculino da Universidade Columbia, nos EUA, e pediram que preenchessem um formulário enquanto uma fumaça era bombeada para dentro da sala.
Os pesquisadores mediram quantos estudantes saíram para dar o alarme.
Quando estavam sozinhos na sala, 75% reagiram à fumaça e acionaram o alarme.
Mas quando duas outras pessoas estavam com eles — que participavam do experimento e haviam sido instruídas a não reagir — apenas 10% dos participantes relataram um possível incêndio.
Os autores concluíram que, às vezes, "um indivíduo que observa a inação de outros julgará a situação como menos grave do que julgaria se estivesse sozinho".
No incêndio da boate The Station, nos EUA, segundos cruciais se passaram antes que Gina e Phil decidissem sair, quase como se estivessem esperando que algo acontecesse.
"Minha reação inicial ao fogo foi: 'Oh, que interessante'", diz Phil.
"Parecia que as chamas estavam apenas na superfície. Elas iam se extinguir sozinhas."
"Fomos condicionados a acreditar que há sprinklers ou extintores de incêndio por perto, certo? Lembro-me de ter pensado em um momento: 'Vamos todos nos molhar'. Obviamente, isso não aconteceu."
A boate The Station não tinha sprinklers ou extintores.
O relato de Phil sugere que outras pessoas na multidão podem ter reagido apenas quando o incêndio repentino e devastador começou.
"Você sai de um incêndio de forma ordenada. Você não empurra", orienta Phil.
Mas quando as pessoas perceberam o tamanho do perigo, "simplesmente virou um caos".
Gina diz que foi o alarme de incêndio que disparou, o que fez as pessoas reagirem — quase como se tivessem que ser avisadas para sair.
No incêndio na Suíça, imagens mostraram que alguns jovens na festa filmavam os estágios iniciais do fogo ou tentavam apagar as chamas com jaquetas.
Nas redes sociais, alguns questionaram essas ações e foram criticados por serem insensíveis.
Galea diz que a maneira como eles agiram não tem nada a ver com a idade deles.
"As pessoas dizem: 'É a Geração Z, eles não sabem o que estão fazendo', mas isso vem acontecendo desde que comecei a pesquisar sobre o assunto", diz ele.
O especialista tem um mantra que, segundo ele, deve guiar o pensamento de qualquer pessoa quando se trata de segurança em um incêndio: "A sorte favorece a mente preparada. Você aumenta suas chances quando está preparado. Sempre procure as rotas de fuga."
Prevenção de outras tragédias
De acordo com décadas de pesquisa do professor Galea, ocorreram 38 incêndios semelhantes, que causaram cerca de 1,2 mil mortes desde o ano 2000.
Quinze envolveram algum tipo de pirotecnia — e cerca de 13 estiveram relacionados com espuma acústica ou materiais decorativos.
Diante desses precedentes, alguns podem se perguntar por que não parecemos aprender com os erros.
Embora existam especificações compartilhadas para testes de incêndio e uma indústria dedicada a melhorar a segurança, não existe um "código de incêndio" aplicado internacionalmente.
O risco é que um incêndio em um país não leve a ações para evitar que algo muito semelhante ocorra em outro lugar.
Após o desastre da Torre Grenfell em Londres, em 2017, um inquérito público constatou que o Corpo de Bombeiros da cidade tinha amplo conhecimento de incêndios relacionados aos revestimentos inflamáveis em todo o mundo, mas não preparou adequadamente sua equipe para lidar com um evento do tipo.
Compare isso com a indústria da aviação internacional, que tem a vantagem de ser altamente centralizada.
Acidentes aéreos são investigados de forma independente, as conclusões são compartilhadas globalmente e diretrizes internacionais são emitidas para corrigir problemas — o que resulta em um bom histórico de segurança.
Gina e Phil ainda convivem com as cicatrizes sofridas no incêndio da The Station.
Cerca de 80 vítimas do incêndio na Suíça permanecem hospitalizadas.
Antes daquela noite de 2003, Phil era um nadador competitivo, mas a fumaça danificou gravemente os pulmões dele.
"Eu lutei para recuperar minha vida", diz ele. "Eu não ia deixar que esses ferimentos me limitassem ou me definissem."
"Eu olho para aquele momento e digo: 'Foi isso o que quase perdi'", diz Phil.
"Percebi que precisava sair e me dedicar às coisas que realmente importam."
Gina ainda lamenta a morte de Fred naquela noite.
Ela agora tem um novo parceiro: seu marido é um bombeiro aposentado.
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