
É bem possível que circulando pelos labirintos da internet você tenha se deparado com um vídeo do ator Wagner Moura ao som da canção O Baiano Tem o Molho, d'O Kanalha, nome artístico do cantor Danrlei Orrico.
Numa proximidade tão improvável quanto a amizade da cantora Alcione com a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia, a música e a campanha do filme O Agente Secreto, dirigido por Kléber Mendonça Filho e protagonizado por Wagner Moura, caminham juntas rumo à indicação ao Oscar que acontece na manhã desta quinta-feira (22/01).
Mas para entender a relação da canção d'O Kanalha com a campanha do filme é preciso voltar algumas casas. Mais precisamente, até maio de 2025, quando uma cena ganhou o mundo.
Wagner Moura, acompanhado de sua esposa, Sandra Delgado, do diretor Kléber Mendonça Filho, da ministra da Cultura, Margareth Menezes, e parte da equipe de O Agente Secreto passavam pelo tapete vermelho do Festival de Cannes "frevando" ao som do Guerreiros do Passo, uma importante manifestação cultural recifense que firma na dança suas raízes.
"Tinha que ser o Guerreiros do Passo", revela o coordenador de lançamento do filme, Bernardo Lessa, sobre o pedido do diretor.
E no passo marcado do frevo, a música passou a acompanhar a campanha de divulgação de O Agente Secreto de maneira íntima e fez todo sentido a presença do tradicional ritmo pernambucano na campanha de divulgação do filme, já que há cenas de Carnaval e a principal locação do filme é o Recife, terra natal do diretor do longa.
Mas, de forma inesperada, uma outra canção deu um caloroso abraço nesta história, principalmente em seu protagonista Wagner Moura.
O estalo aconteceu, segundo Lessa, em setembro de 2025.
Ao chegar na cerimônia do 50º Festival Internacional de Cinema de Toronto, no Canadá, Wagner Moura foi recebido por algumas fãs com o refrão singular da canção d'O Kanalha — "O baiano tem o molho. O baiano tem o molho…" — e fez-se a luz.
"Naquele momento, encontramos a Bahia, achamos", afirma Lessa.
Criação da internet
Em entrevista à BBC News Brasil, Kanalha revela que o diretor criativo desta empreitada foi esse ser mitológico chamado internet.
"De início, essa ligação foi feita pelos fãs. A galera fez alguns vídeos, alguns cortes do Wagner, até antes do lançamento do filme e que viralizou muito, muito, muito mesmo."
Depois disso, a Vitrine Filmes, responsável pela distribuição do longa-metragem, entrou em contato com o cantor baiano e, como uma luva do tamanho certo, música e campanha passaram a andar juntas, viralizaram e foram parar até nas redes sociais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O historiador, professor e comediante Matheus Buente define essa relação de música com a campanha do filme da seguinte maneira:
"A internet foi maravilhosa quando resolveu juntar as duas coisas, fazer as edições com as imagens de Wagner, ele que é muito identificado com Salvador, sempre fala da cidade, do Vitória, que é o time dele. Ele não esconde isso, a carreira dele tem marcas disso, combina. Aí vira tendência", afirma.
"Apesar de ser um filme pernambucano, mas junta tudo. Tem uma hora que o nordestino é mais região e menos Estado", complementa o comediante.
A pré-estreia do filme em Salvador, no início de novembro de 2025, também ajudou a aproximar ainda mais a música da campanha do filme.
Na varanda do Cine Glauber Rocha estavam Kleber Mendonça Filho, Wagner Moura, um pouco tímido, Daniela Mercury e ele, O Kanalha, que fez a batedeira — sua já tradicional dança que consiste em chacoalhar da pélvis de forma bastante acelerada — e cantou, entre outras, O Baiano Tem o Molho num show improvisado e quase sem divulgação para o público que se aglomerou em frente à entrada. Ele se tornou protagonista.
"A equipe nos tratou super bem e eles tiveram total interesse para que a gente encontrasse o melhor jeitinho de fazer e teve a ideia brilhante de fazer o show ali na varanda e superou as minhas expectativas. E esse encontro foi o que faltava para a galera se divertir com essa ligação da música com Wagner. Eu não falei nada no dia, divulguei em cima da hora que estava no evento, pegou todo mundo de surpresa", explica O Kanalha
"A gente pensou num trio elétrico, quase conseguimos, mas aí não deu certo. E terminou que o dono do Cine Glauber Rocha (Cláudio Marques) falou: 'Olha, tem uma varanda no meu cinema, se vocês quiserem colocar umas caixas de som'", revela Bernardo Lessa.
O special sauce de Wagner Moura
O ator baiano, com seu molho, seu sotaque brasileiro e seu carisma foi conquistando a crítica, o público e hoje, aos 49 anos, chama atenção na maior potência do cinema mundial.
Podemos dizer que ele se tornou um dos "gringos" queridinhos de Hollywood, ao lado de Pedro Pascal?
Em uma entrevista recente, Wagner comentou que não gostava de disfarçar o sotaque brasileiro para falar inglês, como ele também nunca disfarçou o sotaque baiano para fazer novela, para fazer filme nacional.
"Eu como baiano, olho para ele e me identifico muito, parece que é meu vizinho, um cara muito próximo que está chegando nesses lugares importantes. É um carisma absurdo, uma auto referência muito forte sem ser arrogante", comenta Matheus Buente.
Capa da revista The Hollywood Reporter, ao lado de Adam Sandler, Dwayne Johnson e Michael B. Jordan, Jeremy Allen White… entrevista para Drew Barrymore, beijo da Julia Roberts no Globo de Ouro, de alguma forma o ator baiano de Rodelas representa sua cidade, seu estado, sua região, seu país em cada uma dessas aparições.
Destrinchando o molho d'O Kanalha
A música O Baiano tem o Molho foi lançada em fevereiro de 2025, atrasada para o verão de 2025, mas em tempo para o de 2026, a princípio, seria cantada de outra forma, muito mais auto-referente.
Seria algo como "O Kanalha tem o molho, O Kanalha tem o molho", mas o cantor entendeu que estender esse dendê à todos baianos traria mais potencial para a canção.
A faixa de 2 minutos e 9 segundos começa com a frase: "É papo de maluquice" e seguida por um clima dançante, mas tenso, composto com acordes menores, uma pegada roqueira da guitarra, escondida embaixo da percussão veloz, bem característico do pagodão.
É importante abrir um pequeno complemento.
O pagodão, ou pagodão baiano, é um ritmo soteropolitano que carrega a ancestralidade do samba de roda, samba duro, samba reggae, entre outros gêneros, numa percussão, ritmo acelerado e sincopado bem característico para a dança rápida, apesar dos tons baixos e orquestração mais soturna. É também um pilar muito forte na cultura periférica em que se destacam nomes como Edcity e Fantasmão e Iggor Kannário.
O Kanalha ganhou o Prêmio Multishow de Música Brasileira na categoria Axé/Pagodão em 2025 e a faixa tem números expressivos: 8,6 milhões de plays no Spotify e 8,4 milhões de views no YouTube.
Baiano de Camaçari, na região metropolitana de Salvador, Danrlei Orrico tem 28 anos e muitos ingredientes desse "molho" que canta.
Filho de baiana do acarajé, dança a batedeira, joga capoeira e toca percussão, mas suas habilidades vão muito além dos estereótipos e seu personagem, O Kanalha, representa um estado de cabeça erguida, que se orgulha de sua origem.
"É uma forma ousada de se referir, mas de fato a música foi feita para poder chamar a atenção sobre uma forma de falar, dizer que o baiano é arretado. É sobre você ser baiano, nascer baiano, ter axé", explica o cantor.
Mas afinal, o que tem nesse molho?
Matheus Buente traz um ponto de vista para esta pergunta.
"O molho é uma coisa subjetiva, que vai do charme até a coisa do fazer diferente, ter personalidade, a fama, toda coisa da sexualidade. Inclusive, passa por questões da população negra da Bahia."
Ele complementa. "É um bairrismo positivo, ainda que reforce certos estereótipos, mas é uma exaltação ao baiano fazer diferente, a ter muita personalidade, da Bahia ser a Bahia, dela ser simpática, legal, ser um lugar diferente, de pessoas animadas. O molho da correria, o molho do trabalho, de não ter a vergonha de não ser quem é."
O Kanalha também contribui para desvendar quais são os têmperos.
"Cada um fala que tem o seu molho especial, então o ingrediente vai de você. O molho d'O Kanalha é fazer a batedeira, ser um cara família, dançar, jogar capoeira, fazer acarajé. Esse é o meu molho, esses são os meus ingredientes. O que você carrega da cultura baiana? Esses são os ingredientes."
Cleidiana Ramos, jornalista, doutora em antropologia, professora e pesquisadora, traz um conceito importante para esse "molho", a "brincadeiragem".
"[O antropólogo e historiador] Roberto Albergaria gostava dessa expressão, que é exatamente essa forma lúdica de levar o cotidiano, de traduzir o cotidiano e essas coisas vão para a arte. Fora de uma leitura política, que num primeiro momento pode gerar a reação de 'meu Deus, que horror', da estereotipização, mas a gente entende no contexto do cotidiano essa forma de ser, que não é nova."
E traz exemplos de grandes nomes.
"Dorival Caymmi, que é nossa primeira grande estrela da indústria fonográfica, que vai cantar, digamos assim, a baianidade, tem trocadilhos em Nega do Balaio Grande, em Vatapá, uma música que seria cancelada agora", afirma.
"Agora, em 2025, O Kanalha pega essa mesma tradição e aí vai lá. O baiano tem o molho. E que molho é esse? O molho da sensualidade nata."
Outros molhos
O molho que virou hit não é, porém, uma característica de todo baiano e também não só do baiano. O Kanalha comenta que por onde passa já está ouvindo falar de outras receitas.
"Nós fomos recebidos em Minas Gerais com o pessoal dizendo que BH tem um tempero. No Rio, a galera já disse que no Rio já tinha outra coisa."
Numa análise mais profunda, a antropóloga Jade Alcântara Lôbo afirma que "é um reflexo mais aproximado das vivências do cotidiano soteropolitano", mas também algo que pode ser visto de forma mais ampla.
"Para compreender o uso da música d'O Kanalha no caso de Wagner Moura, é importante reconhecer que a forma como um povo se percebe está profundamente vinculada aos processos de construção coletiva do cotidiano, às práticas, aos modos de existir e aos repertórios simbólicos, mas também atravessada pela imagética que produz sobre si e que o outro projeta."
Ele explica ainda que há outros molhos.
"Esse fenômeno não é exclusivo do contexto baiano. Entre populações negras nos Estados Unidos, por exemplo, circula a ideia de ter o sauce (molho, na tradução para o português), mobilizada por Beyoncé na estética e na narrativa do álbum Formation, "I got hot sauce in my bag, swag" (Eu tenho molho de pimenta na minha bolsa, estilo, na tradução para o português) como forma de afirmar excelência, ancestralidade e presença."
Segundo a antropóloga esse fenômeno opera como "expressões identitárias nas diásporas negras das Américas, utilizadas para traduzir um modo de estar no mundo que recusa a monotonia, a rigidez e a repetição normativa associadas ao ideal ocidental dominante, afirmando em seu lugar uma ética da invenção, da beleza cotidiana e da inteligência cultural."
A expectativa pelo Oscar

O Farol da Barra, popular praia da capital baiana, aguarda por um sábado de sol. Dezenas de guarda-sóis se acotovelam na estreita faixa de areia por 50 reais com duas cadeiras. Um primeiro grupo de altinha se concentra perto da água, seguido por um segundo e um terceiro.
Os banhistas que optaram por não pagar a taxa das barracas se concentram no canto direito. Bem perto dali, um homem solitário ostenta uma caixa de som de tamanho modesto, mas som potente. Entre uma bola que escapa dos boleiros e um vendedor de acarajé ele, e todo aquele canto da praia, escuta o profano e o sagrado em frases como: "Meu Deus do céu, que baianinho gostoso."
"O baiano tem o molho. O baiano tem o molho. Nós já nasce com a pimenta na cabeça da chibata e o dendê que molha o corpo todo."
Nesta quinta-feira, e no dia 15 de março, durante a cerimônia do Oscar, a música d'O Kanalha estará atrelada à Wagner Moura como o Tema da Vitória representou Ayrton Senna.
Até lá a canção circula pelas ruas de Salvador e no dia 29 de janeiro, O Kanalha faz seu disputado "Ensaio do Maridão" na Praça das Artes Pelourinho e mantém uma programação intensa de shows pelo Brasil.
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