ESTADOS UNIDOS

O polêmico plano de Trump para construir uma 'Nova Gaza' repleta de arranha-céus

"Teremos muito sucesso em Gaza", declarou o presidente Trump em Davos, na Suíça, ao apresentar sua visão para a reconstrução do território palestino.

A ONU calcula que 81% de todas as estruturas da Faixa de Gaza estejam destruídas ou danificadas. -  (crédito: Reuters)
A ONU calcula que 81% de todas as estruturas da Faixa de Gaza estejam destruídas ou danificadas. - (crédito: Reuters)

Os Estados Unidos revelaram seus planos para uma "Nova Gaza", uma tentativa de reconstrução do zero do devastado território palestino.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Uma série de slides mostra dezenas de arranha-céus ao longo da costa do Mediterrâneo e bairros residenciais na zona de Rafah, no sul da Faixa de Gaza. E um mapa indica o empreendimento por fases, com novas zonas residenciais, agrícolas e industriais para os 2,1 milhões de habitantes do território.

As imagens foram apresentadas durante a cerimônia de assinatura do Conselho de Paz criado pelo presidente americano Donald Trump. O novo organismo se propõe a pôr fim à guerra de dois anos entre Israel e o Hamas e supervisionar a reconstrução de Gaza.

A cerimônia ocorreu durante o Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, na Suíça.

"Teremos muito sucesso em Gaza", declarou Trump. "Será um espetáculo digno de se ver."

"No fundo, sou um incorporador imobiliário e o importante é a localização. E eu disse: 'Vejam esta localização em frente ao mar. Vejam este belo terreno. O que ele poderia se tornar para tantas pessoas.'"

O genro de Trump, Jared Kushner, ajudou a negociar o cessar-fogo que entrou em vigor em outubro.

Ele afirmou durante a cerimônia que foram lançadas 90 mil toneladas de munições sobre a Faixa de Gaza e é necessário limpar 60 milhões de toneladas de escombros.

"Inicialmente, consideramos a ideia de dizer 'Vamos construir uma zona livre e uma zona do Hamas'. Mas, depois, dissemos: 'Querem saber? Vamos simplesmente planejar para termos um sucesso fenomenal", declarou Kushner.

"O Hamas assinou um acordo de desmilitarização e é o que vamos fazer cumprir. As pessoas nos perguntam qual é o nosso plano B. Não temos plano B."

Palestinos caminham junto aos edifícios destruídos em Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza, 22 de janeiro de 2026
Reuters
A ONU calcula que 81% de todas as estruturas da Faixa de Gaza estejam destruídas ou danificadas.

Um mapa do plano americano mostra uma zona reservada para o "turismo litorâneo".

Ali, haveria 180 prédios de apartamentos, diversas "zonas residenciais", "complexos industriais, centros de dados e indústrias avançadas", além de "parques e instalações agrícolas e esportivas".

Seria construído um novo porto marítimo e um aeroporto, perto da fronteira com o Egito. E haveria um "cruzamento trilateral", no ponto onde convergem as fronteiras com o Egito e Israel.

A reurbanização seria dividida em quatro fases, começando em Rafah e avançando gradualmente para o norte, até chegar à Cidade de Gaza.

O mapa também mostra uma faixa de terreno baldio, que se estende ao longo das fronteiras com o Egito e Israel.

Ela parece marcar o que o plano de paz de 20 pontos de Donald Trump chama de "perímetro de segurança", onde as forças israelenses permanecerão "até que Gaza esteja devidamente protegida".

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, ouve uma apresentação sobre os planos dos Estados Unidos para a 'Nova Gaza'
Getty Images
O plano americano para a 'Nova Gaza' foi apresentado no Fórum Econômico Global de Davos, na Suíça

Outro slide mostrou uma "Nova Rafah". A cidade contaria com mais de 100 mil moradias permanentes, 200 centros educacionais e 75 instalações médicas.

Cerca de 280 mil pessoas moravam naquela cidade localizada mais ao sul da Faixa de Gaza. Mas ela foi arrasada pelos ataques israelenses e pelas demolições controladas ao longo da guerra. Atualmente, ela se encontra dentro do território controlado por Israel.

Kushner afirmou que acredita ser "viável" concluir a construção da "Nova Rafah" em dois ou três anos.

"Já começamos a retirar os escombros e realizar parte das demolições", explicou ele. "E logo estará pronta a Nova Gaza. Poderia ser uma esperança, poderia ser um destino turístico, ter muitas indústrias."

Ele acrescentou que, nas próximas semanas, ocorrerá uma conferência em Washington, onde serão anunciadas as contribuições dos países e delineadas "incríveis oportunidades de investimento" para o setor privado.

Em fevereiro do ano passado, Trump provocou indignação em todo o mundo, ao sugerir que os palestinos da Faixa de Gaza poderiam ser permanentemente relocados em países vizinhos e que os Estados Unidos poderiam assumir o controle do território, para transformá-lo na "Riviera do Oriente Médio".

Slide da 'Nova Rafah', mostrando que a cidade contaria com mais de 100 mil moradias permanentes, 200 centros educacionais e 75 instalações médicas
Casa Branca
O slide da 'Nova Rafah' mostrou que a cidade contaria com mais de 100 mil moradias permanentes, 200 centros educacionais e 75 instalações médicas

Kushnner também declarou que a desmilitarização de Gaza "está começando agora" e destacou que "sem segurança, ninguém irá fazer investimentos".

Ele garantiu que o novo governo palestino tecnocrático do território — o Comitê Nacional para o Governo de Gaza (NCAG, na sigla em inglês) — "trabalharia com o Hamas para a desmilitarização, a fim de realmente levar os princípios definidos no documento para a fase seguinte".

Anteriormente, o Hamas havia se negado a entregar suas armas sem a criação de um Estado palestino independente. Mas Trump advertiu ao grupo que "eles têm que entregar suas armas e, se não o fizerem, será seu fim."

Trump também insistiu para que o Hamas entregue o corpo do último refém israelense morto na Faixa de Gaza, o que, segundo Israel, deveria ter ocorrido antes do início da segunda fase do plano de paz, na semana passada.

Na primeira fase, o Hamas e Israel concordaram com o cessar-fogo, o intercâmbio de todos os reféns israelenses vivos e mortos em Gaza por palestinos detidos em prisões israelenses, a retirada parcial de Israel e o aumento do fornecimento de ajuda humanitária.

O cessar-fogo permanece frágil, com pelo menos 477 palestinos mortos em ataques israelenses nos últimos três meses, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas.

O exército israelense afirma que três dos seus soldados foram mortos em ataques de grupos armados palestinos.

Cinco pessoas teriam sido mortas sob fogo israelense à Faixa de Gaza na quinta-feira (22/1). Quatro delas morreram em um ataque de artilharia no bairro oriental de Zeitoun, na Cidade de Gaza.

As condições humanitárias também continuam sendo alarmantes, com quase um milhão de pessoas sem refúgio adequado e 1,6 milhão enfrentando altos níveis de insegurança alimentar aguda, segundo a ONU.

Mulheres palestinas choram durante o funeral de pessoas que morreram em ataques israelenses apesar do cessar-fogo na Faixa de Gaza
Reuters
Cinco palestinos teriam sido mortos por disparos israelenses na Faixa de Gaza na quinta-feira (22/1), apesar do cessar-fogo

O Hamas emitiu um comunicado na quinta-feira (22/1), afirmando que mantém seu compromisso com o acordo de outubro e acusou Israel de tentar "minar os esforços internacionais para consolidar o cessar-fogo".

Durante sua intervenção em Davos, o presidente israelense, Isaac Herzog, elogiou os "esforços do presidente Trump e sua liderança". Mas advertiu que "o verdadeiro teste é fazer com que o Hamas saia de Gaza".

O presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmoud Abbas, que governa partes da Cisjordânia ocupada, exigiu a plena implementação do plano de paz, incluindo a retirada das forças israelenses e um papel central para a AP no governo da Faixa de Gaza.

Paralelamente, o chefe do NCAG, Ali Shaath, anunciou que o cruzamento fronteiriço de Rafah com o Egito seria aberto na próxima semana, nos dois sentidos. O cruzamento permanece praticamente fechado desde maio de 2024, quando as forças israelenses assumiram o controle do lado palestino.

"A abertura de Rafah demonstra que Gaza já não está fechada para o futuro e para a guerra", declarou ele.

A guerra foi desencadeada pelo ataque liderado pelo Hamas no sul de Israel, no dia 7 de outubro de 2023. Nele, morreram cerca de 1,2 mil pessoas e outras 251 foram feitas reféns.

Israel respondeu ao ataque lançando uma campanha militar na Faixa de Gaza, durante a qual foram mortas mais de 71.560 pessoas, segundo o Ministério da Saúde do território.

  • Google Discover Icon
BBC
David Gritten - BBC News
postado em 26/01/2026 06:51 / atualizado em 26/01/2026 07:18
x