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O caminho indígena ancestral cujo traçado original é alvo de disputas no Brasil

Caminho conectava o que é hoje o Brasil às estradas incas. Segundo arqueólogos, alguns trechos já eram percorridos há mais de 10 mil anos.

O Paraná é um dos Estados que vem investindo na memória sobre Peabiru e tem um projeto turístico sobre a rota desde 2021 -  (crédito: BBC)
O Paraná é um dos Estados que vem investindo na memória sobre Peabiru e tem um projeto turístico sobre a rota desde 2021 - (crédito: BBC)

O Caminho de Peabiru, que durante séculos ligou povos e territórios na América do Sul, tem hoje sua herança "disputada" em municípios e Estados brasileiros.

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Nos últimos dez anos, governos locais no Paraná, em Santa Catarina e em São Paulo têm buscado exaltar a possível passagem desta rota indígena ancestral por seus territórios.

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No Estado catarinense, a reivindicação dessa herança virou polêmica que envolve dois municípios, empresários, pesquisadores e comunidades indígenas.

Mas a história da rota vem de muito antes da consolidação do que é hoje o Brasil e da chegada dos europeus ao continente americano.

O Caminho de Peabiru estende-se por 3,5 mil a 4 mil quilômetros em linha reta, ligando regiões costeiras do atual Brasil às margens do antigo sistema inca de estradas — chegando ao que hoje são Paraguai, Bolívia e Peru.

Alguns trechos do caminho já eram percorridos há mais de 10 mil anos, segundo arqueólogos.

Em comparação, a Grand Trunk Road, rota de 2,4 mil quilômetros que atravessa Bangladesh, Índia, Paquistão e Afeganistão, é considerada a via de movimento contínuo mais antiga do mundo, utilizada há cerca de 2,5 mil anos.

Para os guaranis, o Peabiru está ligado à sagrada Terra sem Males (Yvy Márey), um lugar de perfeição e abundância.

Já um mito indígena-europeu considera que a rota teria sido usada por Sumé, uma divindade branca que teria chegado do oceano, para seguir rumo ao oeste.

As funções da rota eram muitas, desde a migração à troca e comércio de itens.

Hoje, pesquisadores, autoridades e comunidades indígenas protagonizam debates sobre a presença ou ausência de evidências da passagem dessa rota sobre determinados lugares e são atravessados por interesses pela exploração turística, cultural e comercial do Peabiru.

Mapa da América do Sul mostra a rota do Peabiru. As cidades marcadas, na ordem aproximada leste–oeste, são:

São Vicente, Florianópolis, Peabiru, Guaíra, Foz do Iguaçu, Puerto Casado, Corumbá, Santa Cruz de la Sierra, Potosí, Arequipa, Mogueguá, Tacna e Cusco 

O traçado acompanha o território de Brasil, Paraguai, Bolívia e Peru.
BBC

Polêmica com o 'braço catarinense' do Peabiru

Foi da região entre as atuais cidades de Florianópolis e Laguna que partiu, no século 16, o marinheiro português Aleixo Garcia, considerado o primeiro europeu a percorrer trechos do Peabiru e se encantar com suas trilhas, guiado por guaranis.

O navegador é apontado como o primeiro europeu a descobrir o Império Inca, quase uma década à frente do espanhol Francisco Pizarro.

O Peabiru não era uma única rota, mas sim uma rede de trilhas interligadas.

Além do sul catarinense, havia dois outros braços na costa brasileira: um partia da região entre Cananeia e São Vicente (SP), e outro de Paranaguá (PR), seguindo para o oeste.

A existência desses múltiplos braços ajuda a explicar por que há debates sobre qual região fazia parte do traçado.

O estopim da polêmica em Santa Catarina ocorreu com a tese de que o Peabiru passaria por Joinville e Garuva, a quase 200 quilômetros ao norte de Florianópolis.

A versão começou a ser divulgada em 2021 por um grupo de empresários e personalidades de Joinville, liderado pelo vereador Henrique Deckmann (MDB).

Entre as evidências apresentadas para justificar a inclusão de Joinville e Garuva na rota, estava a existência de uma escadaria de pedras no Monte Crista, na Serra do Quiriri, em Garuva.

Embora a escadaria, com mais de 3 mil degraus, tenha sido comprovadamente construída no século 19, a hipótese não confirmada de que teria origem indígena ou até mesmo inca ainda fascina a região.

Outro argumento apresentado por entusiastas da tese local é o de que o espanhol Alvar Núñez Cabeza de Vaca teria utilizado trilhas do Quiriri para se deslocar do Rio Itapocu, no litoral catarinense, ao Paraguai, do qual teria sido nomeado governador pela coroa espanhola.

A mobilização de Joinville e Garuva contribuiu para que ambos fossem incluídos entre os 14 municípios catarinenses da Rota Turística do Caminho de Peabiru, criada por uma lei aprovada na Assembleia Legislativa e sancionada em 2023 pelo governador Jorginho Mello (PL).

Mas alguns pesquisadores consideram improvável que a rota tenha passado por esses municípios e argumentam que essa associação ignora a tradição oral e a memória indígena sobre o Peabiru.

Comunidades indígenas de Santa Catarina e Paraná reagiram com veemência à associação de Joinville e Garuva ao Peabiru.

Jornalista e escritora que estuda o Caminho de Peabiru desde 1990, com pesquisa junto aos guaranis e outros povos indígenas, Rosana Bond afirma à BBC News Brasil que o movimento de Joinville e Garuva é motivado por uma "tentativa de auferir lucros financeiros através do turismo em agressão à cultura e à memória indígena".

"Um grupo de políticos e empresários bolsonaristas de Garuva e Joinville, incluindo vereadores, candidatos a vereadores, agências de viagem e outros comerciantes interessados, organizaram-se para ganhar dinheiro com o Peabiru, atropelando o fato de que o Caminho não passava por esses dois lugares", afirma Rosana, autora de A saga de Aleixo Garcia, o descobridor do Império Inca (Insular, 2021).

Bond justifica a própria indignação em torno do assunto ao caráter sagrado atribuído ao Peabiru pelos guaranis e à confiança que esses indígenas teriam demonstrado nela.

A jornalista afirma ter recebido dos guaranis a função de txondaria (guardiã das coisas físicas e espirituais) e de xeradji (sábia avó ou anciã).

"Os guaranis confiaram a mim, como pesquisadora, uma parte de sua memória ancestral acerca do Peabiru, um tesouro que ainda não haviam entregue a outra pessoa djuruá [branca]."

Argumentando que a rota não passava por Joinville e Garuva, a pesquisadora defende que sua oficialização e exploração nesses municípios resulta em "dinheiro do povo jogado fora".

Carlos André Dominguez, professor de Jornalismo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e autor de Peabiru: o mítico caminho sagrado do Atlântico ao Pacífico (In-Finita, 2023), também aponta para os interesses econômicos em torno do caminho indígena.

"A polêmica sobre Peabiru em Santa Catarina está relacionada à disputa comercial em torno de rotas turísticas e também ao desserviço prestado pela pseudociência", sintetiza Dominguez, referindo-se ao que considera fontes duvidosas sobre qual seria o traçado verdadeiro da rota indígena.

Outros, porém, sustentam que o estado atual da pesquisa arqueológica e historiográfica de fato não oferece todas as respostas.

"A ciência ainda não deu a palavra final sobre se o Caminho de Três Barras ou Ambrósio, na Serra do Quiriri, entre Garuva (SC) e Tijucas do Sul (PR), é ou não parte do Caminho de Peabiru", diz Ricardo Tiburtius Logullo, doutorando em Arqueologia da Universidade de Joinville (Univille).

"Há evidências de presença indígena na Serra do Quiriri, tendo em vista a existência de uma gravura rupestre no Caminho Três Barras. E os registros históricos bibliográficos demonstram que essa rota era conhecida desde o século 15."

O vereador de Joinville Henrique Deckmann (MBD), que liderou o movimento de valorização da rota em Joinville e Garuva, disse à BBC News Brasil que a intenção de seu grupo "nunca, nunca, nunca" foi "politizar ou polemizar".

Ele defende que há sim estudos que já indicaram que a região tem laços com a rota indígena.

Deckmann argumenta que seu propósito é estimular o turismo e que jamais utilizou dinheiro público para promover a tese de que o Peabiru passa por Joinville e Garuva.

"Até hoje, o Brasil não tem uma rota turística da região do mar até o Peru e de lá para cá", diz o vereador, lamentando o efeito dos impasses sobre o Peabiru sobre seu potencial turístico.

Pressionada, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina concordou em realizar uma audiência pública para tratar do assunto meses após a aprovação da lei.

O encontro, ocorrido em maio de 2024, não foi conclusivo, mas serviu para explicitar as diferenças entre adeptos e adversários da inclusão de Joinville e Garuva na rota.

A BBC News Brasil solicitou posicionamento do governador Jorginho Mello (PL) mas, até o fechamento desta reportagem, não havia obtido resposta.

Paraná e São Paulo também se voltam ao Peabiru

Trilha no meio da mata
Divulgação/Roberto Dziura Jr/Agência Estadual de Notícias do Paraná
O Paraná é um dos Estados que vem investindo na memória sobre Peabiru e tem um projeto turístico sobre a rota desde 2021

O movimento catarinense coincidiu com um contexto de valorização do patrimônio e com o aumento do interesse pelo turismo de trilhas e roteiros de aventura na região, o que potencializou o debate.

Em 2014, a Unesco reconheceu como patrimônio cultural da humanidade o Qhapaq Ñan, sistema de estradas do Império Inca.

Quatro anos depois, o Ministério do Turismo e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO) criaram a Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso (TLC) e Conectividade, que incluiu oficialmente um trecho do Peabiru no Paraná.

Em 2021, o governo do Paraná lançou seu próprio projeto turístico relacionado ao Peabiru, que hoje abrange 97 municípios e reforça a importância da rota como patrimônio histórico e turístico do Estado.

Em São Paulo, a Secretaria de Turismo e Viagens do Estado (Setur) firmou em junho de 2024 um protocolo de intenções (documento preliminar que sinaliza a intenção de firmar uma parceria, mas sem obrigações definitivas) com a instituição Dakila Pesquisas para buscar vestígios da rota em território paulista.

A Dakila pertence ao empresário Urandir Fernandes de Oliveira, que propagou a existência do fictício ET Bilu.

Em outubro de 2010, entrevistado pelo programa Domingo Espetacular, da TV Record, Urandir afirmou ter feito contato com um suposto extraterrestre de quem teria recebido a mensagem "Busquem conhecimento".

Tratado pela imprensa como desinformação e por comediantes e usuários de redes sociais como tema humorístico, o ET Bilu passou a fazer parte do folclore brasileiro.

Nos anos seguintes, outras teses de Urandir e de seu grupo, como a fantasiosa existência da cidade imemorial de Ratanabá na Amazônia, foram desacreditadas pela Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB) como "desinformação de má-fé, que distorce o conhecimento arqueológico".

Seis meses depois de firmar o protocolo com a Dakila, o governo paulista renunciou à parceria pois a instituição não teria entregado os objetivos previstos, segundo a coordenadora de Turismo da Setur, Ana Clemente.

"Uma das propostas era fazer um mapeamento das cidades que trabalham com o Peabiru, e isso não foi entregue."

A Dakila já fez também expedições relativas ao Peabiru em Garuva e outros pontos de Santa Catarina.

A BBC News Brasil tentou contato com a empresa, mas não teve retorno até o fechamento desta reportagem, ficando aberto o espaço a eventual manifestação da instituição.

O governo paulista continua determinado a impulsionar o Peabiru como rota turística.

Em novembro de 2025, a secretaria realizou com a prefeitura de Botucatu um seminário sobre a rota com a participação de indígenas, da comunidade científica e de representantes de municípios paulistas.

Um caminho feito de metamorfoses

Igreja na cidade de Peabiru
Flavio Benedito Conceição/Getty Images
O município de Peabiru (PR) é o único no Brasil a ostentar no próprio nome os laços com o velho caminho

O município de Peabiru (PR), no noroeste paranaense, distante 473 quilômetros de Curitiba, é o único no Brasil a ostentar no próprio nome os laços com o velho caminho.

Com pouco mais de 13 mil habitantes, o município mantém há 10 anos o projeto "Caminhos do Peabiru: História, Cultura e Turismo", além de abrigar um museu com peças arqueológicas e uma trilha de 10 quilômetros que atrai turistas do mundo inteiro.

"Antes de tudo, é necessário entender que o Peabiru não é de ninguém e é de todos", afirma Arleto Rocha, doutorando em Arqueologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e autor de Caminhos de Peabiru: história e memória (Heliograf, 2017).

Para o pesquisador, nascido em Peabiru, é equivocado e eurocêntrico falar em caminho principal, caminhos secundários e ramais da rota.

Ele prefere falar em uma "rede de trilhas".

"A suposta rota principal, que saía de Paranaguá, São Vicente e Florianópolis, se encontrava no centro do Paraná e ia até o Paraguai e a Bolívia, é principal para quem?", questiona Rocha.

"Para o europeu, que queria chegar às minas de prata de Potosí [hoje na Bolívia]."

Para Claudia Inês Parellada, professora do Programa de Pós-graduação em Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), as lacunas existentes no conhecimento contemporâneo sobre o Peabiru refletem as metamorfoses que a própria rota sofreu desde as origens.

"O caminho sofreu mudanças de traçados de acordo com as alianças e conflitos entre os povos que podiam ter acesso a seu curso", explica.

Registros arqueológicos, cartográficos e historiográficos sugerem a existência de múltiplas linhas associadas ao Peabiru, afirma a arqueóloga.

"Qual seria o traçado que daria maior legitimidade ao Peabiru? O do século 16, baseado na tradição oral sobre Aleixo Garcia, mas não em memórias do próprio Garcia, que não sobreviveram [enquanto registro escrito]?", questiona.

Parellada defende que mais pesquisas científicas de qualidade sejam realizadas para que emerjam respostas sobre o Peabiru.

"A ciência sempre avançou dessa forma, não existem verdades absolutas", diz a pesquisadora.

Mapa por Caroline Souza, da Equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil

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BBC
Luiz Antônio Araujo - De Porto Alegre para a BBC News Brasil
postado em 29/01/2026 15:19
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