Venezuela em transe

O plano de Trump: controlar a Venezuela e o petróleo durante anos

Trump anuncia que pretende supervisionar o petróleo venezuelano por um longo período e promete reconstruir a nação "de forma muito lucrativa". Navios da empresa norte-americana Chevron começam a transportar a commodity para os EUA

Em entrevista ao jornal The New York Times, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou os planos de um longo controle sobre a Venezuela e suas reservas de petróleo — as maiores do mundo, com 303 bilhões de barris. O republicano declarou que o regime chavista, agora comandado por Delcy Rodríguez, vice de Nicolás Maduro, tem "cooperado totalmente" com Washington, e prometeu reerguer o país. "Vamos reconstruí-la (a Venezuela) de uma forma muito lucrativa. Vamos usar e extrair petróleo", afirmou. Ao ser questionado sobre até quando a Casa Branca supervisionará o país sul-americano, Trump respondeu: "Só o tempo dirá". No entanto, ele previu que o controle venezuelano pelos EUA ocorrerá por um período "muito maior do que um ano".

Três navios fretados pela companhia americana Chevron rumavam para os EUA com um carregamento de petróleo da Venezuela, revelou uma análise da agência France-Presse baseada em dados de acompanhamento marítimo. Dois outros petroleiros contratados pela mesma empresa estavam ancorados no porto da refinaria de Bajo Grande, no oeste do país sul-americano, e seis se dirigiam a atracadouros venezuelanos. 

Nesta sexta-feira, Trump se reunirá com CEOs de empresas petrolíferas dos Estados Unidos para debater sobre "a imensa oportunidade que se apresenta a elas" na Venezuela, segundo a Casa Branca. Na madrugada de sábado (3/1), forças norte-americanas bombardearam Caracas e outras regiões para capturar Maduro e a primeira-dama, Cilia Flores. Delcy Rodríguez ironizou o ataque dos Estados Unidos. A presidente interina declarou, na quarta-feira, que o narcotráfico e os direitos humanos foram as desculpas (para a operação militar). "O motivo era o petróleo", comentou. 

Em meio à polêmica sobre os motivos para a deposição do ditador venezuelano, o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, ressaltou: "Não estamos roubando o petróleo de ninguém". A Rússia acusou Washington de alimentar "tensões militares e políticas", em reação à apreensão do petroleiro Marinera, batizado de MV Bella 1, antes de navegar sob bandeira. A embarcação foi apreendida e invadida por forças especiais americanas no Atlântico Norte, próximo à costa da Islândia, depois de 19 dias de perseguição em alto-mar.  "É lamentável e alarmante que Washington esteja disposto a provocar graves crises internacionais", disse o Ministério das Relações Exteriores do Kremlin, por meio de um comunicado à imprensa. 

AFP - Imagem de vídeo mostra a interceptação do petroleiro MV Bella-1, de bandeira russa, no Atlântico Norte

Incertezas

A deposição de Maduro e a continuidade do regime chavista impõem dúvidas em relação ao futuro. A venezuelana María Isabel Puerta, professora de ciência política da Universidade do Colorado (EUA), não acredita no risco de uma guerra civil na Venezuela. "O chavismo controla o uso das armas. A situação aponta para uma normalização, com o governo Trump fortalecendo a ditadura. A decisão dos Estados Unidos de manter o regime chavista intacto é contraproducente para as aspirações a uma transição democrática. Além da decapitação de Maduro como símbolo de poder, também conseguiram decapitar a liderança da oposição", explicou ao Correio. Ela assegura que a intenção de Trump é controlar a Venezuela por meio do petróleo. "Isso inclui dominar a coalizão chavista para garantir a estabilização do país", acrescentou. 

AFP - Membros da Força Armada Nacional Bolivariana carregam caixão de colega morto no ataque dos EUA, em Caracas

Orlando Vieira-Blanco — cientista político, advogado e colunista do jornal El Universal (de Caracas) — destacou o ineditismo da transição na Venezuela. "É algo sem precedentes. Nunca antes houve uma transição de um Estado sequestrado por uma organização criminosa para um Estado democrático. Falar em termos de assepsia, expurgo e reinstitucionalização é normal e prudente. Isso não quer dizer que se trata de uma transição ocupacional", advertiu à reportagem. Vieira-Blanco reconhece o risco de conflitos internos e de disputas dentro do chavismo. "É parte da complexidade que a etapa de estabilização deverá enfrentar. Creio que os EUA detêm o poder e a influência necessários para controlar e tornar sustentáveis as fases de transição propostas."

Especialista em direito energético, o advogado venezuelano Yon Goicoechea (leia Três perguntas para) — ganhador do Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento — afirmou ao Correio que a única maneira de a Venezuela desenvolver a indústria petroleira envolve investimentos massivos de capital estrangeiro. "Será preciso ver como essa influência dos EUA favorece o crescimento da indústria do petróleo", disse, ao apontar a necessidade de uma segurança jurídica. "Delcy Rodríguez é a aposta de Trump para guiar uma transição, não se sabe exatamente por quanto tempo e com qual objetivo. O presidente americano fez uma aposta política e as razões para isso, apesar de não explicadas de forma adequada, têm a ver com a estabilidade da Venezuela. Trump não queria uma invasão terrestre, pois isso poderia supor perda de vidas americanas, conflitos políticos em Washington e investimentos importantes. A Casa Branca tentou evitar um cenário catastrófico, ao capturar Maduro e forçar o governo venezuelano a mudar de posição em relação aos EUA. Isso parece estar ocorrendo, ao menos parcialmente." 

EU ACHO...

Arquivo Pessoal - María Isabel Puerta, professora de ciência política da Universidade Estadual do Colorado

"Trump deixará de ser presidente em 20 de janeiro de 2029. Em toda o caso, a intervenção na Venezuela não será uma permanente. A próxima administração da Casa Branca entenderá essa situação como insustentável. A aspiração de Trump em relação à Venezuela não goza do apoio do povo norte-americano, segundo pesquisa publicada pela emissora CBS News na quarta-feira."

María Isabel Puerta, professora de ciência política da Universidade do Colorado (EUA)

TRÊS PERGUNTAS PARA...

Arquivo pessoal - Yon Goicoechea, líder opositor venezuelano exilado

YON GOICOECHEA, advogado, especialista em direito energético e membro da oposição a Maduro. Ganhador do Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento

Como vê o plano de Trump de intervir na Venezuela pelos próximos anos?

Na Venezuela, não existe intervenção. O que Donald Trump fez foi levar Nicolás Maduro. A Venezuela, hoje, possui muito poucas tropas norte-americanas. O governo está nas mãos de Delcy Rodríguez, vice-presidente de Maduro. Ela detém a mesma estrutura de poder de Maduro. O ditador caiu, mas não a ditadura. 

Existe o risco de guerra civil?

Não creio que o chavismo possa se levantar para uma guerra civil. Como em outras transições venezuelanas no século 20, pode-se esperar rebeliões militares de parte da cúpula chavista. Um lado pode entrar em conflito com o outro. É possível que parte dos militares se levantem contra os irmãos Delcy e Jorge Rodríguez (presidente da Assembleia Nacional). 

E de que maneira vê a intenção de Trump de controlar o petróleo venezuelano?

A Venezuela possui contratos com a China, em relação ao comércio de petróleo. Também tem algumas obrigações com a Rússia. Não creio que os planos de Trump afetarão os negócios com Moscou ou Pequim. As empresas norte-americanas chegarão ao terreno e levarão a maior parte dos negócios. A Venezuela não tem a capacidade de recuperar a indústria petroleira sozinha. É possível que os planos dos EUA terminem beneficiando a Venezuela. No século 20, toda a indústria petroleira venezuelana foi construída a partir de investimentos americanos. (RC)

Senado limita a capacidade militar do republicano

O Senado dos Estados Unidos deu um passo importante para a aprovação de uma resolução para frear as ações militares do presidente Donald Trump na Venezuela, uma rara reprimenda bipartidária que ocorre após a captura do líder Nicolás Maduro. A legislação impulsionada pelos democratas, que proíbe novas hostilidades dos Estados Unidos contra a Venezuela sem autorização explícita do Congresso, superou uma votação processual crucial e teve apoio de cinco republicanos. A votação final, prevista para a próxima semana, é considerada agora pouco mais que uma formalidade.

No entanto, o esforço é visto em grande medida como simbólico. A resolução terá um grande desafio na Câmara de Representantes, onde a maioria republicana, embora estreita, é mais propensa a seguir os interesses da Casa Branca. Trump classificou como "estupidez" a colaboração dos cinco senadores de seu partido na aprovação do projeto de lei. "Os republicanos deveriam se envergonhar dos senadores que acabaram de votar com os democratas para tentar nos tirar nossa capacidade de lutar e defender os Estados Unidos da América", declarou Trump em sua rede Truth Social. "De qualquer forma, e apesar de sua 'estupidez', a Lei de Poderes de Guerra é inconstitucional", sustentou, em alusão à resolução aprovada pouco antes no Senado.

"Os membros do Congresso menos corajosos fazem todo o possível para evitar assumir responsabilidades, para evitar a votação transcendental de declarar guerra", disse o senador Rand Paul, o republicano do Kentucky que rompeu com seu partido para copatrocinar a medida. "Mas que não haja dúvida: bombardear a capital de outra nação e destituir seu líder é um ato de guerra."

Para Chuck Schumer, líder da minoria democrata no Senado, o Congresso deu um "passo crítico" para reafirmar sua autoridade constitucional. "Também para impedir que Trump inicie outra guerra cara e interminável, enquanto os americanos lidam com um custo de vida em disparada. Na próxima semana, essa luta continuará no Senado. Quanto mais o povo americano ouvir sobre o que está ocorrendo na Venezuela, mais ele irá se opor (à guerra)", declarou.

X/Reprodução - Bandeira Betsy Ross no perfil do Departamento do Trabalho dos EUA, na rede social X

Bandeira Betsy Ross, a nova polêmica

O Departamento do Trabalho dos Estados Unidos decidiu homenagear a classe trabalhadora com uma imagem polêmica. Em seu site na internet e no perfil da rede social X, o órgão do governo de Donald Trump publicou a imagem da bandeira Betsy Ross, uma das primeiras versões do estandarte nacional dos EUA. Datado de uma época pré-Guerra Civil, o símbolo traz 13 estrelas brancas dispostas em círculo sobre um fundo azul — uma alusão às 13 colônias originais que formaram os EUA. "Durante dois séculos e meio, os trabalhadores americanos construíram este país, transformando-o em um símbolo brilhante de liberdade e oportunidade. O Departamento do Trabalho dos EUA se une à celebração oficial do 250º aniversário da América, reconhecendo as conquistas, as contribuições e os sacrifícios dos homens e mulheres que mantiveram vivo o sonho americano para as futuras gerações", afirma o texto no site. No X, a publicação foi acompanhada da frase "O patriotismo vai prevalecer. América em primeiro lugar. Sempre".

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