
A prisão de Mehdi Mahmoudian, um dos roteiristas do filme iraniano Foi Apenas um Acidente, adicionou um novo capítulo de tensão política à trajetória recente da produção. Mahmoudian foi detido em Teerã no sábado (31/1), informação confirmada no domingo (1º/2) por representantes do longa. Até agora, as autoridades iranianas não divulgaram quais acusações pesam contra ele.
A detenção ocorre na esteira de uma manifestação pública assinada por Mahmoudian e outras 16 pessoas, na qual o grupo condena o aiatolá Ali Khamenei e denuncia a repressão violenta promovida pelo regime contra protestos populares. O texto afirma: “O assassinato em massa e sistemático de cidadãos que corajosamente foram às ruas para pôr fim a um regime ilegítimo constitui um crime de Estado organizado contra a humanidade”.
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O Irã atravessa um período marcado por grandes mobilizações contra o governo e pela intensificação da crise econômica. As manifestações têm sido reprimidas pelas forças de segurança, e organizações não governamentais estimam que mais de 6 mil pessoas morreram em decorrência dessa repressão.
Diante da prisão do coautor, o diretor Jafar Panahi se pronunciou por meio de um comunicado público. No texto, ele define Mahmoudian como alguém que ultrapassa a condição de preso político: “Mehdi Mahmoudian não é apenas um ativista de direitos humanos e um prisioneiro de consciência; ele é uma testemunha, um ouvinte e uma rara presença moral — uma presença cuja ausência é sentida imediatamente, tanto dentro dos muros da prisão quanto fora deles”.
Panahi também assinou a declaração crítica ao regime. O cineasta conheceu Mahmoudian durante um de seus períodos na prisão, experiência que inspirou diretamente o roteiro de Foi Apenas um Acidente. Segundo Panahi, o roteirista era “um pilar” para os demais detentos.
Além de Mahmoudian, o roteiro é assinado por Nader Saeiver e Shadhmer Rastin. O filme, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes no ano passado, acompanha um grupo de ex-prisioneiros do regime iraniano que se reúne para descobrir se um homem desconhecido é, na verdade, o agente responsável por torturá-los no passado.
A obra dialoga diretamente com a própria trajetória de Panahi, que já dirigiu filmes sob diferentes condições de privação de liberdade, incluindo prisão domiciliar e proibição de viajar. No ano passado, o diretor voltou a ser condenado, recebendo uma pena de um ano de prisão e a proibição de deixar o Irã por dois anos, sob a acusação de “atividades de propaganda contra o sistema”. Apesar da sentença, Panahi tem circulado internacionalmente para divulgar o filme e afirmou que retornará ao Irã, mesmo ciente das restrições impostas pelo Judiciário do país.

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