INVESTIGAÇÃO

Rússia usou toxina de rã da América do Sul para matar opositor Alexei Navalny, afirma Reino Unido; relembre o caso

Em declaração conjunta com Suécia, França, Alemanha e Holanda, Reino Unido afirma que somente o Kremlin tinha acesso à substância e responsabiliza o governo russo pela morte do dissidente.

Esposa de Navalny, Yulia Navalnaya, sempre afirmou que o marido foi envenenado pela Rússia -  (crédito: Ministério das Relações Exteriores da Alemanha via Getty Images)
Esposa de Navalny, Yulia Navalnaya, sempre afirmou que o marido foi envenenado pela Rússia - (crédito: Ministério das Relações Exteriores da Alemanha via Getty Images)

A morte do líder da oposição russa Alexei Navalny em uma prisão na Sibéria dois anos atrás foi causada por um veneno criado a partir da toxina de uma rã-flecha, de acordo com informações divulgadas neste sábado (14/2) pelo Reino Unido.

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A conclusão veio da análise de amostras de material extraído do corpo de Navalny que revelaram a presença da toxina epibatidina, encontrada em rãs-flecha venenosas que habitam a América do Sul.

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Para o Ministério das Relações Exteriores britânico, não há explicação "inocente" para a presença da toxina nas amostras, sinalizando a responsabilidade do Kremlin no episódio.

"Somente o governo russo tinha os meios, o motivo e a oportunidade de usar essa toxina letal contra Alexei Navalny durante seu encarceramento na Rússia", declarou Yvette Cooper, Secretária de Relações Exteriores do Reino Unido, quando anunciava os achados na Conferência de Segurança de Munique.

"A Rússia via Navalny como uma ameaça", ela acrescentou.

"Ao usar essa forma de veneno, o Estado russo demonstrou as ferramentas desprezíveis que tem à sua disposição e o medo avassalador que nutre pela oposição política", completou.

Cooper também se encontrou com a viúva de Navalny, Yulia Navalnaya, no evento neste fim de semana.

Yulia Navalnya
Ministério das Relações Exteriores da Alemanha via Getty Images
Esposa de Navalny, Yulia Navalnaya, sempre afirmou que o marido foi envenenado pela Rússia

Em uma declaração conjunta, Reino Unido, Suécia, França, Alemanha e Holanda afirmaram: "Somente o Estado russo tinha os meios, o motivo e a oportunidade de usar essa toxina letal contra Navalny durante seu encarceramento em uma colônia penal russa na Sibéria, e o responsabilizamos por sua morte".

"A epibatidina pode ser encontrada naturalmente em rãs-flecha selvagens na América do Sul. Rãs-flecha em cativeiro não produzem essa toxina e ela não é encontrada naturalmente na Rússia."

"Não há explicação inocente para sua presença no corpo de Navalny", diz o texto.

O Ministério das Relações Exteriores britânico informou que o Reino Unido comunicou à Organização para a Proibição de Armas Químicas a suposta violação da Convenção sobre Armas Químicas pela Rússia.

O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, disse que seu país "presta homenagem" a Navalny, que, segundo ele, foi "morto por sua luta em prol de uma Rússia livre e democrática".

Envenenado em 2020

Navalny — um ativista anticorrupção e um dos líderes da oposição mais aguerridos da Rússia — morreu repentinamente na prisão em 16 de fevereiro de 2024, aos 47 anos.

Quatro anos antes, ele havia ficado entre a vida e a morte depois de ter sido envenenado com o agente neurotóxico Novichok, um episódio com grande repercussão internacional.

Em 20 de agosto de 2020, Navalny desmaiou durante um voo entre Tomsk, na Sibéria, e Moscou e só sobreviveu porque o avião fez um pouso de emergência em Omsk, onde foi levado às pressas para a UTI.

Mais tarde, após negociações de alto nível com autoridades russas, ele foi transportado de avião para Berlim, na Alemanha, e tratado lá enquanto era mantido em coma induzido.

Laboratórios europeus confirmariam mais tarde que o Novichok, substância que ataca o sistema nervoso fabricada na Rússia e também usada para envenenar o ex-oficial de inteligência militar russo Sergei Skripal e sua filha, Yulia Skripal, em Salisbury, Reino Unido, havia sido encontrado em seu corpo.

Depois que se recuperou, Navalny rastreou os indivíduos que acreditava terem participado do atentado.

Passando-se por uma autoridade da área de segurança, ele disse ter conseguido enganar um agente do serviço de segurança da Rússia e o levado a admitir que a arma química havia sido colocada em sua roupa íntima em um hotel em Tomsk.

Ao retornar para a Rússia, em janeiro de 2021, Navalny foi detido no aeroporto logo após o desembarque.

Sua prisão gerou uma onda de protestos contra o Kremlin na época. Milhares de pessoas foram às ruas na Rússia, apesar da forte presença policial, pedindo por sua libertação. Houve cenas de violência em Moscou.

'Agora há provas'

Mesmo detido sob acusações vistas como forjadas, o dissidente foi mantido na prisão e pouco antes de sua morte havia sido transferido para a colônia penal do Círculo Polar Ártico.

Segundo relatos, ele havia feito uma breve caminhada na prisão quando disse que se sentiu mal, desmaiou e nunca mais recuperou a consciência.

Desde que isso aconteceu, em 2024, a esposa de Navalny, Yulia Navalnaya, afirmava reiteradamente que o marido havia sido morto por envenenamento.

Em setembro do ano passado, ela chegou a dizer que análises de amostras biológicas contrabandeadas feitas em laboratórios em dois países haviam mostrado que seu marido havia sido "assassinado".

Navalnaya não forneceu detalhes sobre o veneno supostamente usado, sobre as amostras ou sobre as análises, mas desafiou os dois laboratórios a publicarem seus resultados.

"Desde o primeiro dia, eu tinha certeza de que meu marido havia sido envenenado, mas agora há provas", comentou após o anúncio de sábado.

"Sou grata aos países europeus pelo trabalho meticuloso que realizaram ao longo de dois anos e por descobrirem a verdade", acrescentou.

O Kremlin não comentou as alegações.

O presidente russo, Vladimir Putin, que evitava tocar no nome de Navalny enquanto ele estava vivo, fez uma breve referência a ele um mês após sua morte, afirmando que a morte de uma pessoa é "sempre um evento triste".

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BBC
Adam Goldsmith; Tom McArthur
postado em 14/02/2026 13:20 / atualizado em 14/02/2026 16:43
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