CURIOSIDADE

A ciência das almas gêmeas: existe mesmo alguém que 'foi feito para você'?

Para muitos, a ideia de alma gêmea ainda molda a forma como o amor é compreendido

Platão (à esquerda) imaginou que os seres humanos eram originalmente completos, com quatro braços, quatro pernas e dois rostos, até serem divididos por Zeus (à direita), passando então a buscar sua outra metade -  (crédito: Getty Images)
Platão (à esquerda) imaginou que os seres humanos eram originalmente completos, com quatro braços, quatro pernas e dois rostos, até serem divididos por Zeus (à direita), passando então a buscar sua outra metade - (crédito: Getty Images)

Em datas associadas ao amor — como 14 de fevereiro, considerado o Dia dos Namorados em vários países — surge a tentação de acreditar que, em algum lugar, existe "a pessoa certa": a alma gêmea, o par perfeito, alguém com quem você estava destinado a ficar.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Ao longo da história, os seres humanos sempre se sentiram atraídos pela ideia de que o amor não é aleatório. Na Grécia antiga, Platão imaginou que já fomos seres completos, com quatro braços, quatro pernas e dois rostos, tão radiantes que Zeus nos dividiu ao meio. Desde então, cada metade vagueia pela Terra em busca da outra metade, um mito que deu à noção moderna de alma gêmea sua origem poética e a promessa de que, em algum lugar, alguém nos fará sentir completos.

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

Na Idade Média, os trovadores e as lendas arturianas transformaram esse anseio no chamado "amor cortês", uma devoção intensa e muitas vezes proibida, como a de Lancelot por Guinevere, na qual o cavaleiro demonstrava seu valor por meio do sacrifício pessoal por uma amada que talvez jamais pudesse declarar publicamente.

Uma montagem de duas imagens: um desenho de Platão e um close em uma estátua de Zeus
Getty Images
Platão (à esquerda) imaginou que os seres humanos eram originalmente completos, com quatro braços, quatro pernas e dois rostos, até serem divididos por Zeus (à direita), passando então a buscar sua outra metade

No Renascimento, autores como William Shakespeare (1564-1616) falavam em "amantes marcados pelas estrelas", casais unidos por uma conexão avassaladora, mas separados por família, circunstâncias ou destino, como se o próprio universo escrevesse a história de amor e, ao mesmo tempo, impedisse um final feliz.

Em tempos mais recentes, Hollywood e os romances venderam histórias de amor dignas de contos de fadas.

Mas o que diz a ciência mais recente sobre as almas gêmeas? Existe, de fato, alguém especial destinado a cada um de nós?

Como nos apaixonamos pela 'pessoa certa'

Viren Swami, professor de psicologia social na Anglia Ruskin University (ARU), em Cambridge (Reino Unido), afirma que a compreensão contemporânea europeia do amor romântico remonta à Idade Média e às narrativas de Camelot, Lancelot, Guinevere e os cavaleiros da Távola Redonda, que se espalharam pelo continente.

"Essas histórias foram as primeiras a difundir a ideia de que você deve escolher um único indivíduo como companheiro, e que esse companheiro é para a vida toda", diz. "Antes disso, em grande parte da Europa, você podia amar quantas pessoas quisesse, e o amor era mais fluido, muitas vezes não centrado no sexo."

Com o tempo, afirma Swami, à medida que as pessoas foram deslocadas de comunidades agrícolas e a industrialização desfez vínculos tradicionais, os indivíduos passaram a se sentir "alienados". "Eles começam a procurar uma única pessoa que os salve, que os resgate da miséria de suas vidas."

Ilustração de Lancelot e Guinevere
Getty Images
Viren Swami afirma que as ideias atuais sobre amor romântico remontam a narrativas medievais europeias, como as de Lancelot e Guinevere

Os aplicativos de relacionamento de hoje transformam essa narrativa em algoritmo, o que Swami chama de "consumo de relacionamentos" (relation-shopping, em inglês). A busca por uma alma gêmea acaba se tornando o oposto do que se procura. "Para muitas pessoas, é uma experiência sem alma", diz Swami.

"Você está comprando um parceiro… passando possivelmente por dezenas de perfis até chegar a um ponto em que pensa: preciso parar", afirma.

A pessoa certa

Jason Carroll, professor de estudos sobre casamento e família na Brigham Young University, em Provo, Utah (EUA), demonstra compreensão em relação ao anseio pela "pessoa certa".

"Somos criaturas movidas pelo apego", diz. "Desejamos esse vínculo." No entanto, em suas aulas, Carroll afirma aos estudantes que é preciso abandonar a ideia de alma gêmea, sem abrir mão do desejo de encontrar a "pessoa certa".

Pode soar contraditório, mas, para Carroll, trata-se da diferença entre destino e construção.

"Uma alma gêmea é simplesmente encontrada. Já está pronta. Mas 'a pessoa certa' é algo que duas pessoas constroem juntas ao longo dos anos, se adaptando, pedindo desculpas e, às vezes, cerrando os dentes", afirma.

A armadilha da alma gêmea

O argumento de Carroll, da Brigham Young University, se apoia em décadas de pesquisas reunidas em seu relatório The Soulmate Trap (A Armadilha da Alma Gêmea, em tradução livre). Boa parte desses estudos distingue o que psicólogos chamam de "crenças no destino" — a ideia de que o relacionamento certo deve ser fácil e natural — das "crenças de crescimento", que enfatizam o que os parceiros podem fazer para que a relação funcione.

Em uma série de estudos amplamente citados, conduzidos no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000 pelo professor C. Raymond Knee, da Universidade de Houston (EUA), pesquisadores constataram que pessoas que acreditavam que relacionamentos eram "feitos para acontecer" tinham maior probabilidade de questionar seu compromisso após conflitos. Já aquelas com uma visão orientada para o crescimento tendiam a manter maior comprometimento, mesmo em dias de discussão.

Segundo Carroll, quem adota a perspectiva de crescimento também deseja algo especial, mas reconhece que haverá dificuldades. "Essas pessoas perguntam… o que podem fazer para melhorar a relação, promover avanços e crescer juntos?"

Silhueta de um casal romântico
Getty Images
Pesquisas mostram que pessoas que acreditam que o relacionamento se constrói com esforço ainda querem algo especial, mas sabem que haverá dificuldades

Na visão de Carroll, a crença na alma gêmea é uma armadilha — não pelo romantismo em si, mas pela expectativa de que o amor nunca deve ser difícil. A parte mais "profunda" de um relacionamento duradouro, afirma, não é a intensidade digna de cinema, mas ter "lugar na primeira fila não apenas para as qualidades do outro, mas também para os seus desafios e suas fragilidades".

"É um espaço bastante sagrado", diz. "Só conhecemos essas coisas porque a outra pessoa nos permitiu estar ali."

Para Carroll, quando o amor é tratado como destino, as pessoas tendem a se mostrar menos dispostas a realizar o trabalho discreto que sustenta a relação. Segundo ele, a "armadilha da alma gêmea" torna muito mais difícil lidar com o primeiro grande obstáculo.

"Na primeira dificuldade, o pensamento imediato é: 'Eu achava que você era minha alma gêmea. Talvez não seja, porque as almas gêmeas não deveriam passar por isso'", afirma. "Mas, se um relacionamento vai durar, ele nunca será apenas uma descida suave."

Química ou trauma?

Vicki Pavitt, coach de relacionamentos em Londres (Reino Unido), costuma atender pessoas que acreditaram ter encontrado a alma gêmea e depois perceberam que o conto de fadas vinha acompanhado de manipulação emocional, instabilidade e ansiedade constante.

"Quando há uma química muito forte e aquela faísca, acho que às vezes isso significa reabrir padrões antigos e pouco saudáveis, como antigas feridas emocionais", afirma. "Uma pessoa inconsistente, que alterna entre proximidade e distanciamento, pode fazer você pensar 'mal posso esperar para vê-la de novo', mas o que está acontecendo é que ela gera tanta ansiedade que isso faz você querer ainda mais."

Pavitt diz que o que interpretamos como destino pode ser, na verdade, uma reação do nosso sistema nervoso ao reconhecer algo que já nos causou dor no passado e tenta "consertar" essa experiência, um padrão que terapeutas chamam de vínculo traumático.

Segundo Pavitt, esse vínculo pode parecer amor e levar pessoas a se sentirem magneticamente atraídas por dinâmicas pouco saudáveis, não por serem compatíveis, mas por serem familiares.

Um estudo frequentemente citado é o dos psicólogos canadenses Donald Dutton e Susan Painter. Em pesquisa publicada em 1993, quando atuavam na Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá), eles acompanharam 75 mulheres após deixarem parceiros abusivos.

A equipe avaliou o grau de apego que as mulheres ainda sentiam pelos ex-companheiros e comparou esses dados com o tipo de relação que haviam vivido.

Eles constataram que os vínculos mais fortes não estavam entre as mulheres que sofreram abuso contínuo, mas entre aquelas cujos parceiros alternavam entre charme e crueldade.

Duas pessoas amarram uma fita vermelha nos dedos mindinhos
Getty Images
Pavitt afirma que o que parece destino pode, às vezes, ser um vínculo traumático

Dutton e Painter argumentam que o vínculo traumático ajuda a explicar por que algumas pessoas se sentem atraídas de volta a relações que, objetivamente, lhes fazem mal — não por serem saudáveis, mas porque a combinação de perigo e afeto lhes é familiar.

É essa distinção que Pavitt busca explorar em seus atendimentos. "É sobre discernir se a química que você sente indica compatibilidade ou se é apenas uma sensação familiar de ansiedade", explica.

"Na minha prática, nunca falo em almas gêmeas", afirma. "Não acredito que exista uma única pessoa para cada um de nós… mas acredito que podemos nos tornar 'a pessoa certa' para alguém."

Química real

Se negar a existência de uma alma gêmea soa pouco romântico, a biologia da atração aponta na mesma direção.

Os contraceptivos hormonais podem alterar de forma sutil a maneira como os parceiros se sentem um pelo outro. Pesquisas sugerem que as pílulas que reduzem as variações naturais da fertilidade ao longo do ciclo menstrual também podem atenuar mudanças na atração que normalmente ocorrem nesse período, o que pode influenciar a escolha inicial de um parceiro.

Um amplo estudo feito com 365 casais heterossexuais constatou que a satisfação sexual das mulheres era maior quando seu status atual em relação ao uso de contraceptivos coincidia com o que tinham quando escolheram o parceiro. O dado sugere que mudanças no uso da pílula podem alterar a forma como o parceiro é percebido. Os efeitos são pequenos, mas podem ajudar a explicar mudanças sutis na química do casal ao longo do tempo.

Se os hormônios e os contraceptivos podem influenciar quem parece ser "a pessoa certa", torna-se mais difícil sustentar a ideia de um único par predestinado — e é aí que entram os matemáticos.

A pessoa certa, mas não a única

A psicologia e a biologia oferecem uma forma de pensar sobre "a pessoa certa"; a matemática, outra.

Greg Leo, economista da Universidade Vanderbilt, em Nashville, Tennessee (EUA), desenvolveu um algoritmo de compatibilidade que indica que uma pessoa pode ter não apenas "uma", mas várias possíveis "pessoas certas".

No artigo "Matching Soulmates" (Almas Gêmeas Compatíveis, em tradução livre), publicado no periódico Public Economic Theory, todos os participantes integram um ambiente simulado de encontros, no qual milhares de perfis digitais se avaliam mutuamente. O algoritmo identifica "almas gêmeas de primeira ordem": pares que se escolhem em uma correspondência estável. Em seguida, remove esses pares e repete o processo com os restantes, gerando "almas gêmeas de segunda ordem", e assim sucessivamente.

Nas simulações de Leo, era extremamente raro que duas pessoas se escolhessem mutuamente como primeira opção. No entanto, muitos participantes apareciam como segunda ou terceira escolha um do outro. Nesse modelo, um casal é considerado bem-sucedido quando cada um está entre as primeiras posições da lista do outro e nenhum dos dois encontra alguém que ambos prefiram mais.

Pode parecer apenas exercício estatístico, mas o algoritmo do amor sugere que existem muitos parceiros possíveis — não apenas "a pessoa certa".

Valorize os pequenos gestos

Mas como um casal pode construir sua própria "pessoa certa"?

Jacqui Gabb, professora de sociologia e estudos da intimidade na The Open University (Reino Unido), investigou essa questão no projeto Enduring Love (Amor Eterno, em tradução livre), publicado na revista Sociology em 2015.

O estudo entrevistou cerca de 5.000 pessoas e depois acompanhou 50 casais em detalhes minuciosos, por vezes invasivos, combinando dados estatísticos com diários, entrevistas e "mapas emocionais" do cotidiano doméstico.

Quando perguntou o que fazia as pessoas se sentirem valorizadas, não surgiram pedidos de casamento ao pôr do sol ou viagens-surpresa a Paris.

As respostas incluíram "presentes inesperados, gestos atenciosos e a gentileza de levar uma xícara de chá na cama". Aquecer o carro numa manhã fria. Colher flores silvestres e colocá-las num vaso. Compartilhar um sorriso discreto numa festa.

Em termos quantitativos, esses "atos cotidianos de atenção", como ela os define, se mostraram mais significativos do que grandes gestos românticos.

Na pesquisa, 22% das mães e 20% das mulheres sem filhos apontaram pequenos gestos como um dos dois principais fatores que as faziam se sentir valorizadas — mais do que saídas sofisticadas ou presentes caros.

A satisfação no relacionamento, segundo os dados, não estava ligada principalmente a dinheiro ou a romantismo, mas ao que a pesquisadora chama de "conhecimento íntimo do casal" e à forma como ele se manifesta no cotidiano.

No diário de um casal jovem que participou do projeto, Sumaira descreve o parceiro chegando em casa, o jantar que ela preparou, o abraço no corredor, os dois comendo juntos à mesa.

"É perfeito", escreve em seu diário de pesquisa. "Só nós e a comida. O que mais eu poderia querer?"

Há também uma dança espontânea na sala de estar, uma caminhada na grama alta em que ela sente medo do escuro, e uma foto de que o parceiro gosta tanto que a transforma em plano de fundo do celular.

O relato se assemelha a uma história bonita do dia a dia, não a um conto de fadas: não há sapatinhos de cristal, mas galochas.

Mas Gabb ressalta que, no meio da doçura da relação, estão as preocupações financeiras, as obrigações familiares e um histórico de depressão que o casal aprende a enfrentar junto.

"A sensação de alma gêmea aqui não paira acima da vida; ela é construída, centímetro a centímetro, pela própria vida, na forma como o casal enfrenta essas pressões", afirma.

Jantar de Dia dos Namorados

Para Carroll, da Brigham Young University, a ciência não elimina o romantismo, mas ajuda a fazê-lo florescer, nos bons e nos maus momentos.

"Me sinto confortável com a aspiração de estar em um relacionamento único e especial, desde que nos lembremos de que ele precisa ser construído", diz.

Pavitt, coach de relacionamentos em Londres, avalia que "é válido, até útil, acreditar que existe alguém para você, desde que se reconheça que há muitas pessoas com quem é possível criar uma conexão profunda e se abandone a expectativa de perfeição".

Quanto às almas gêmeas, a ciência aponta um paradoxo: quem acaba vivendo relações que parecem "destinadas a acontecer" costuma ser quem deixou de esperar pelo destino, se voltou para a pessoa imperfeita à sua frente e, na prática, perguntou: vamos construir algo juntos?

Reportagem adicional de Florence Freeman

  • Google Discover Icon
BBC
Pallab Ghosh - Correspondente de Ciência
postado em 14/02/2026 15:47 / atualizado em 14/02/2026 17:10
x