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Morre Jesse Jackson: quem foi o protegido de Martin Luther King que abriu caminho para figuras como Barack Obama na política dos EUA

O ativista dos direitos civis se candidatou duas vezes à Presidência americana, abrindo o caminho que levou à eleição de Barack Obama para a Casa Branca.

Jesse Jackson falava para muitos americanos que se sentiam cidadãos de segunda classe -  (crédito: Getty Images)
Jesse Jackson falava para muitos americanos que se sentiam cidadãos de segunda classe - (crédito: Getty Images)

O pastor Jesse Jackson, um dos líderes do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos e duas vezes candidato à Presidência do país, morreu na manhã desta terça-feira (17/2).

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Diagnosticado com Parkinson em 2017, Jackson foi hospitalizado para observação em novembro, após receber o diagnóstico de outra condição degenerativa.

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Em comunicado, seus familiares declararam que Jackson morreu "pacificamente, rodeado pela sua família".

"Nosso pai foi um líder servidor, não apenas para a nossa família, mas para os oprimidos, os que não têm voz e os menosprezados de todo o mundo", diz o comunicado.

Jesse Jackson foi uma figura proeminente durante o movimento dos direitos civis dos anos 1960, nos Estados Unidos. Ele também ficou conhecido por ser o primeiro afro-americano a deixar o ativismo para ser candidato à presidência americana por um dos principais partidos políticos do país.

Protegido de Martin Luther King Jr. (1929-1968), Jackson construiu sua carreira trabalhando para organizar politicamente e melhorar a vida dos afro-americanos. Com isso, ele se tornou uma força nacional nas suas duas campanhas para a Casa Branca, em 1984 e 1988.

Outros afro-americanos buscaram a Presidência americana antes dele, mas Jackson foi o primeiro a receber votação significativa nas primárias, abrindo o caminho para outros que viriam posteriormente, como Barack Obama e Kamala Harris.

Ao longo da sua carreira, Jackson formou um movimento para reunir a população americana, cada vez mais diversificada. Sua mensagem se concentrava nos americanos pobres e da classe trabalhadora.

"Nenhum outro membro do Partido Democrata falava em uma democracia multiétnica, multirracial", declarou o senador Bernie Sanders em Chicago, no Estado americano de Illinois, durante um evento em homenagem a Jackson em agosto de 2024.

"Este movimento não pretendia apenas nos reunir, mas nos levar juntos rumo a uma agenda progressista."

Foto em preto e branco de Jesse Jackson, ainda jovem
Getty Images
Jesse Jackson falava para muitos americanos que se sentiam cidadãos de segunda classe

Orador talentoso, Jackson articulava as frustrações daqueles que se sentiam cidadãos de segunda classe na democracia mais próspera do mundo.

Seu discurso na Convenção Nacional Democrata de 1988 terminou com o refrão "mantenha a esperança viva". Sua frase retornaria duas décadas depois, com o slogan "esperança e mudança" da campanha presidencial vitoriosa de Barack Obama, em 2008.

Após suas históricas campanhas presidenciais, Jackson conquistou a posição de ancião estadista do Partido Democrata.

Mas os anos que se seguiram seriam marcados por escândalos, que incluíram revelações de infidelidade conjugal e desacertos financeiros envolvendo seu filho e herdeiro político, Jesse Jackson Jr., que foi congressista por Illinois.

Em 2017, Jesse Jackson praticamente saiu da vida pública ao ser diagnosticado com Parkinson. Este diagnóstico foi alterado posteriormente por paralisia supranuclear progressiva, uma doença cerebral degenerativa com sintomas similares.

Jesse Jackson em início de carreira. Ele está sentado em um escritório, olhando de frente para a câmera
Getty Images
O trabalho de Jesse Jackson na defesa dos direitos civis começou na década de 1960

Jesse Louis Burns (seu nome original) nasceu em 8 de outubro de 1941 na cidade de Greenville, no Estado americano da Carolina do Sul. Sua mãe, Helen Burns, tinha então 16 anos de idade.

Solteira, ela foi expulsa da sua igreja batista local quando ficou grávida, fruto de um caso amoroso com um vizinho casado de 33 anos, chamado Noah Robinson.

Quando Jackson tinha dois anos, sua mãe se casou com Charles Jackson, que adotou o novo enteado. Jesse Jackson permaneceu em contato com Robinson e considerava os dois homens como seus pais.

Charles Jackson era religioso e seu filho foi criado na igreja, que era um centro tradicional da resistência política negra desde a época da escravidão.

Durante sua juventude na Carolina do Sul, Jackson foi segregado dos seus vizinhos brancos, como todos os negros americanos.

Ele foi obrigado a frequentar escolas separadas e sua presença só era permitida nos locais públicos, como ônibus e restaurantes, em áreas designadas.

Foto em preto e branco do jovem Jesse Jackson participando de uma marcha reivindicando empregos
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Jackson liderou uma importante campanha pelos direitos civis antes de completar 30 anos

Protegido de Martin Luther King

Jackson se saiu bem no ensino médio. Ele foi eleito presidente da classe e teve desempenho excelente em quase todo tipo de esporte coletivo.

Uma bolsa de estudos para jogar futebol americano na Universidade de Illinois ajudou Jackson a buscar suas ambições e deixar o bairro pobre onde morava. Mas ele logo se transferiu da instituição, predominantemente branca, para uma faculdade historicamente negra na Carolina do Norte.

Ele contava que havia deixado Illinois porque seus técnicos não permitiam que ele jogasse como quarterback. Mas este relato é questionado.

Os registros demonstram que a equipe já tinha um quarterback negro e Jackson estava em período de experiência acadêmica.

Como estudante na North Carolina A&T (a Universidade Estadual Agrícola e Técnica da Carolina do Norte), Jackson se envolveu cada vez mais com o movimento dos direitos civis.

Em 1960, ele foi preso com sete outros estudantes, após um protesto silencioso em uma biblioteca pública somente para brancos, que levou à dessegregação do local.

Jackson se formou quatro anos depois e se mudou para Chicago. Lá, ele estudou para ser um líder religioso. Foi quando ele chamou a atenção do mais famoso líder dos direitos civis do país: Martin Luther King Jr.

Foto em preto e branco de Jesse Jackson sentado ao lado de Martin Luther King, inclinando-se na direção dele com a mão no ar. King ouve com a mão sobre o rosto, vestindo terno escuro e gravata listrada.
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Jackson conversa com Martin Luther King Jr., em 1963

Foi pela Conferência da Liderança Cristã do Sul dos Estados Unidos — fundada por King em 1957, para promover ações não violentas em busca de justiça social e econômica — que Jackson fundou a Operação Cesta de Pães.

A iniciativa incentivava homens e mulheres negras a frequentar empresas que oferecessem eles níveis básicos de cortesia e oportunidades de trabalho, boicotando as que não o fizessem.

Ainda na casa dos 20 anos, Jackson foi convidado a administrar o braço da operação em Chicago e, pouco depois, a assumir a liderança nacional.

Em 1968, a vida de Jackson sofreu mudanças dramáticas. Ele estava com King no Motel Lorraine em Memphis, no Estado americano do Tennessee, quando seu mentor foi assassinado.

Momentos antes do tiro fatal, King se apoiava sobre uma grade em uma conversa animada com Jackson, que estava de pé no estacionamento mais abaixo.

Jackson declarou aos repórteres ter segurado a cabeça de King quando ele morreu, embora outras testemunhas não tenham confirmado o relato.

No dia seguinte, Jackson apareceu de forma controversa na televisão com suas roupas ainda manchadas com o sangue de King, assumindo a liderança do movimento dos direitos civis.

Multidão após a morte de Martin Luther King em Memphis. Jesse Jackson está ao lado da esposa de King, Coretta. O músico Harry Belafonte também pode ser visto na imagem.
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Jesse Jackson ao lado da esposa de Martin Luther King Jr., Coretta Scott King, após o assassinato do líder

"Estávamos determinados a impedir que uma bala matasse o movimento", declarou ele posteriormente.

Como King havia feito nos anos anteriores à sua morte, Jackson começou falando sobre os problemas dos Estados Unidos, igualmente enraizados, segundo ele, na desigualdade de classes e no racismo.

Para Jackson, o principal cisma era entre os que têm e os que não têm.

"Quando transformarmos o problema racial em uma luta de classes, o jogo irá mudar", declarou ele ao jornal The New York Times.

Três anos depois, disputas sobre liderança causaram a divisão da Operação Cesto de Pães. Jackson formou, então, a Operação PUSH (sigla em inglês de Pessoas Unidas para Servir à Humanidade), um novo grupo defensor dos direitos civis, com ampla atuação.

Nos anos seguintes, Jesse Jackson se tornou uma das figuras políticas mais influentes dos Estados Unidos. Sua organização PUSH defendeu a educação nos bairros menos favorecidos das cidades e programas de ações afirmativas que viram empresas contratarem funcionários negros.

Jesse Jackson cumprimenta as pessoas em um evento em Washington
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Jackson estava determinado a impedir que uma bala "matasse o movimento"

A corrida à Presidência

Mas Jackson permaneceu sendo uma figura controversa.

Surgiram acusações de que, certa vez, ele fez comentários antissemitas. E, como pastor ordenado e ele próprio nascido de uma gravidez indesejada, Jackson era contrário ao aborto.

Esta questão convulsionava a política americana na época, com a histórica decisão da Suprema Corte no caso Roe x Wade, em 1973. A maioria dos democratas, tradicionalmente alinhados ao movimento dos direitos civis, apoiava a manutenção do aborto legal.

"Seres humanos não podem dar nem criar vida por si próprios, é realmente uma dádiva de Deus", escreveu Jackson em 1977. "Por isso, ninguém tem o direito de tirar aquilo que ele não tem a capacidade de dar."

Ele sugeriu que Moisés e Jesus não teriam nascido se houvesse aborto disponível nos tempos bíblicos.

Em 1983, Jackson viajou para a Síria, para pedir a libertação de um piloto americano capturado, o tenente Robert Goodman. Ele teve sucesso na missão, o que serviu de grande promoção do seu perfil nacional.

Com o desemprego entre os jovens negros atingindo cerca de 50% no país, Jackson anunciou sua candidatura à Presidência.

Jackson em campanha à Presidência dos Estados Unidos em 1984, em frente a um grande cartaz com a palavra
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Jackson em campanha à Presidência dos Estados Unidos, em 1984

Sua decisão causou comoção entre alguns dos seus apoiadores naturais, como a viúva de King, Coretta Scott King (1927-2006). Ela receava que Jackson não conquistasse a indicação do Partido Democrata e prejudicasse as chances de outros candidatos progressistas.

Durante a campanha, Jackson falou sobre a "coalizão arco-íris", um amplo grupo de eleitores de diversas etnias e crenças, tradicionalmente desfavorecidos. E que, segundo ele, haviam sido prejudicados pelas políticas do então presidente Ronald Reagan (1911-2004), do Partido Republicano.

"Nossa bandeira é vermelha, branca e azul, mas nossa nação é um arco-íris — vermelha, amarela, marrom, preta e branca — e todos somos valiosos na visão de Deus", declarou ele em um discurso, na Convenção Nacional Democrata de 1984. Na oportunidade, ele convocou a união do partido.

Jackson registrou a expressão e fundou um grupo político com o mesmo nome. A medida irritou alguns membros da organização Panteras Negras, que havia usado a expressão nos anos 1960, para descrever uma aliança entre grupos ativistas em Chicago.

Jackson acabou perdendo a indicação do Partido Democrata, mas sua campanha se tornou um fenômeno político e cultural. E, em outubro de 1984, ele apresentou o Saturday Night Live, um popular programa humorístico semanal da TV americana.

Sua candidatura à Presidência também teve efeito profundo entre os democratas.

Jackson chegou em terceiro lugar nas eleições primárias, com mais de três milhões de votos. Ele demonstrou que um candidato negro poderia conquistar apoio nacional e, possivelmente, chegar à Casa Branca.

Paralelamente, ao concorrer com uma plataforma liberal, Jackson levantou e promoveu muitas questões importantes para a ala mais à esquerda do partido, como a assistência médica universal e o pagamento de compensações aos descendentes de escravos.

Jackson era também reconhecido como apoiador de um Estado palestino e havia chamado o primeiro-ministro de Israel de "terrorista".

Ele também prometeu nunca ser o primeiro a usar armas nucleares e reduzir os gastos com a defesa, se fosse eleito presidente. Eram promessas aparentemente impossíveis na época, com o auge da Guerra Fria (1947-1991).

Jesse Jackson, fotografado sorrindo para alguém
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Jackson saiu na frente nas eleições primárias do Partido Democrata em 1998, mas acabou perdendo a indicação para Michael Dukakis

Quatro anos depois, ele tentou novamente chegar à Casa Branca.

Jackson manteve sua campanha baseada em uma agenda liberal, que incluía aumento de impostos e dos gastos públicos, além da assistência médica universal, financiada pelo Estado.

Novamente, sua participação impressionou. Ele começou liderando em relação ao eventual indicado, Michael Dukakis. Mas perdeu novamente, conquistando pouco menos de sete milhões de votos e 1.023 delegados na Convenção Nacional Democrata.

Estes delegados passaram a apoiar reformas no processo de eleições primárias do partido, possibilitando que candidaturas insurgentes como a de Jackson concorressem à indicação presidencial democrata, sem o apoio do establishment do partido.

Bill e Hillary Clinton com Jesse Jackson
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Jackson manteve poder significativo no Partido Democrata

Figura controversa

Em 1991, Jackson tentou repetir seu triunfo na Síria. Ele visitou o Iraque às vésperas da Guerra do Golfo, para pedir a Saddam Hussein (1937-2006) que libertasse reféns ocidentais.

Um ano depois, ele decidiu não se candidatar à Presidência pela terceira vez. Ele declarou seu apoio ao ex-governador do Estado de Arkansas, Bill Clinton, apesar das suas suspeitas sobre a política centrista de "Terceira Via" do então candidato.

Quando a divulgação do caso entre o presidente e a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky colocou seu mandato em risco, em 1998, Clinton pediu a Jackson que aconselhasse sua família ao longo da crise.

Jackson declarou que, embora Clinton houvesse mentido sobre o relacionamento, ele não merecia sofrer impeachment por "altos crimes". O presidente havia cometido um "pequeno crime", segundo ele.

Jesse Jackson com o então presidente Bill Clinton em 2000
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Jesse Jackson ao receber a Medalha Presidencial da Liberdade do então presidente americano Bill Clinton, em 2000

Em 2001, Jackson precisou prestar contas sobre seu próprio caso amoroso, quando veio a público um relacionamento com uma funcionária que gerou um filho.

Jackson prometeu se afastar da vida pública para "reviver meu espírito e me reconectar com minha família". Mas a rapidez do seu retorno prejudicou sua credibilidade entre parte dos membros da igreja nos Estados Unidos.

Ele se manteve em alta visibilidade, com programas de TV e missões humanitárias. Alguns críticos consideravam suas ações como autopromoção.

Em março de 2007, Jackson anunciou seu apoio à candidatura de Barack Obama, que se tornaria o primeiro presidente afro-americano do país.

As relações entre os dois, inicialmente, ficaram abaladas quando Jackson criticou Obama por "tratar as pessoas negras com superioridade".

Um microfone próximo captou seu comentário e Jackson se desculpou posteriormente, pelas suas "observações grosseiras e ofensivas".

Mas, nos momentos que antecederam ao discurso da vitória de Obama em Chicago, no mês de novembro, uma câmera de TV flagrou Jackson em meio ao público, com lágrimas correndo pelo rosto.

Muitos observadores indicaram que o sucesso de Jackson ao promover a participação de candidatos afro-americanos em campanhas presidenciais anteriores ajudou a garantir a vitória de Obama.

Jesse Jackson chorando na eleição de Barack Obama
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Jesse Jackson chora ao ver Barack Obama ser eleito o primeiro presidente afro-americano dos Estados Unidos, em 2008

Posteriormente, Jackson respaldou a decisão do novo presidente de apoiar o casamento gay. Ele comparou a situação com a luta ocorrida anteriormente no país contra as leis que proibiam o casamento inter-racial.

Jesse Jackson continuou a ser uma força política, mas enfrentava tensões domésticas.

Em 2013, seu filho mais velho, Jesse Jackson Jr., foi condenado por usar dinheiro de campanha para gastos pessoais. Ele foi sentenciado a 30 meses de prisão.

Cinco anos depois, Jackson foi diagnosticado com Parkinson. Ele precisou renunciar à diretoria da Rainbow/PUSH, a organização resultante da fusão dos seus dois grupos anteriores.

Ainda assim, a morte sob custódia policial do cidadão afro-americano George Floyd (1973-2020) fez com que Jackson viajasse para Minneapolis, pedindo que os policiais fossem acusados criminalmente.

Ele também foi voz ativa em favor da retirada das tropas americanas do Afeganistão e do aumento do salário mínimo.

Em 2024, Jackson pediu o perdão presidencial pela condenação do seu filho, que foi recusado pelo então presidente Joe Biden.

Naquele ano, o veterano ativista também retornou ao campo político que ele amava, com um raro comparecimento à convenção democrata em Chicago, quando o partido indicou oficialmente o nome da então vice-presidente Kamala Harris para a Presidência.

Jesse Jackson na convenção democrata de 2024, em Chicago
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Jesse Jackson na convenção democrata de 2024, em Chicago

Delegados importantes do partido homenagearam um homem cujas ações, segundo eles, haviam colaborado muito para que uma mulher negra tivesse possibilidades reais de chegar à Casa Branca. Harris viria a perder a eleição de 2024 para o atual presidente, Donald Trump.

"Aprendemos aos seus pés", declarou o veterano ativista dos direitos civis Al Sharpton. Ele havia trabalhado com Jackson décadas antes, na Operação Cesto de Pães.

A congressista Pramila Jayapal, do Estado de Washington, se dirigiu a ele durante seu discurso na convenção.

"Para cada autoridade eleita que veremos neste palco: estamos aqui porque você abriu o caminho para nós."

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BBC
Anthony Zurcher - Correspondente na América do Norte
postado em 17/02/2026 13:54
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