OPERAÇÃO DA PF

A prisão de brasileiro que abalou rede global de abusadores de crianças

Gravado ao longo de cinco anos, documentário da BBC Eye com BBC News Brasil retrata a rotina de policiais de diferentes países que se infiltram em fóruns na dark web para capturar abusadores sexuais de crianças e libertar suas vítimas.

Rafaella Parca, delegada da Polícia Federal que trabalha no combate ao abuso sexual infantil. -  (crédito: BBC)
Rafaella Parca, delegada da Polícia Federal que trabalha no combate ao abuso sexual infantil. - (crédito: BBC)

Em uma manhã de 2019, a Polícia Federal (PF) deflagrou uma operação que caiu como uma bomba atômica sobre redes globais de abusadores sexuais de crianças, mas quase ninguém ficou sabendo.

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Naquele dia, após vários meses de investigação e com o apoio de policiais de diferentes países, investigadores brasileiros prenderam um homem que administrava cinco dos maiores fóruns de materiais de abuso sexual infantil na dark web, uma parte oculta da internet só acessível por ferramentas específicas.

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Segundo a PF, os fóruns tinham quase 2 milhões de usuários espalhados pelo mundo. Discreto e dotado de grande conhecimento técnico, o dono dos sites era conhecido na dark web como Lubasa e vinha conseguindo escapar das forças globais de segurança fazia alguns anos.

Apesar da grandiosidade do feito, a prisão foi mantida em sigilo por um motivo: com os servidores do criminoso em mãos, a polícia tinha informações para desmascarar outros tantos abusadores que frequentavam seus sites e temia que, se eles soubessem da detenção de Lubasa, poderiam tentar fugir.

Uma mulher com viseira, brinco de argola e cabelo preso rema enquanto olha para o horizonte.
BBC
Rafaella Parca, delegada da Polícia Federal que trabalha no combate ao abuso sexual infantil.

Sete anos depois da prisão — e de centenas de novas operações ocorridas a partir daquela, incluindo o resgate de um menino sequestrado que era tratado como morto na Rússia —, a história é narrada em Infiltrados na dark web, um documentário da BBC News Brasil com a BBC Eye, equipe de investigações da BBC.

A equipe de reportagem passou sete anos acompanhando a rotina de policiais do Brasil, Estados Unidos, Rússia e Portugal que integram uma coalizão formada para combater o abuso sexual infantil na dark web.

Muitos deles trabalham infiltrados em fóruns frequentados por pedófilos, buscando informações que levem à identificação de criminosos e ao resgate de suas vítimas.

Espécie de internet paralela, não indexada por buscadores, a dark web foi criada em 1990 pelo Departamento de Defesa dos EUA para que espiões se comunicassem em segredo, já que a rede permite que usuários ocultem a identidade e rastros digitais.

Após ter sido aberta ao público, em 2004, ela passou em poucos anos a abrigar fóruns voltados à distribuição de materiais de abuso sexual infantil, tornando-se um dos principais campos de ação para policiais que combatem esse tipo de crime.

Um caminho em uma floresta de eucaliptos; veem-se folhas secas no chão.
BBC
Floresta em Portugal onde Twinkle escondia seus arquivos.

O início das buscas

A coalizão global de policiais retratada no documentário passou a priorizar a identificação de Lubasa, especialmente após a prisão de um de seus principais colaboradores — um português conhecido nos fóruns da dark web como Twinkle.

Os nomes reais de Twinkle e Lubasa não são revelados para proteger suas vítimas.

Twinkle era o principal colaborador do BabyHeart, um dos fóruns mais violentos da dark web. A plataforma era administrada pelo brasileiro Lubasa e abrigava cenas de abuso sexual de bebês.

Twinkle fornecia "uma quantidade quase inacreditável" de fotos e vídeos de abusos para o site, diz à BBC Greg Squire, agente do Departamento de Segurança Interna dos EUA e um dos líderes da coalizão internacional de policiais.

Segundo Squire, o criminoso português produziu e postou na plataforma cenas de abusos de até 15 crianças diferentes.

"Assistir alguém estuprar um bebê… Não há nada de humano nisso", diz Squire.

Identificá-lo, porém, era difícil, pois Twinkle escrevia em diferentes idiomas e evitava compartilhar informações pessoais na rede.

A primeira pista sobre sua nacionalidade só surgiu após Twinkle usar uma expressão típica da língua portuguesa em uma conversa em inglês com outro usuário: "Custou os olhos da minha cara".

Mas ele só foi identificado tempos depois, quando a polícia brasileira prendeu um abusador de crianças que se correspondia virtualmente com o criminoso português.

Twinkle foi preso em sua casa, em um vilarejo no norte de Portugal. Ao arrombar a porta, a polícia o encontrou na cama ao lado de duas crianças. Os arquivos onde ele armazenava fotos e vídeos de abusos estavam enterrados em uma floresta vizinha à residência e também foram recuperados.

Mas, ao questionarem Twinkle sobre como poderiam tirar do ar o site BabyHeart, os policiais ouviram dele que somente uma pessoa seria capaz de fazê-lo: Lubasa, a quem o português chamou de "chefão".

Twinkle cumpre hoje pena de 21 anos de prisão em Portugal.

Três agentes uniformizados e com armamentos se posicionam à entrada de uma casa. Em um dos coletes lê-se a sigla HSI. Em outro, lê-se a palavra police.
BBC
Operação contra abuso sexual infantil realizada pelo Departamento de Segurança Interna dos EUA

Um criminoso 'idolatrado por 2 milhões pessoas'

O nome Lubasa já circulava entre os policiais da coalizão fazia alguns anos, mas ainda não havia pistas que levassem à sua identificação.

"Lubasa estava em outro nível. Se chegássemos até ele, teríamos acesso a tudo o que acontecia sob seu comando", lembra Squire.

Naquela altura, policiais brasileiros já estavam no encalço do criminoso.

"Ele era uma pessoa idolatrada por mais de 2 milhões de pessoas ao redor do mundo", diz a delegada brasileira Rafaella Parca, também integrante da coalizão e membro da Divisão de Repressão a Crimes Cibernéticos da Polícia Federal.

Por criar e manter a estrutura para que os fóruns de abuso sexual infantil funcionassem, Lubasa era tratado pela polícia como "responsável por todos os crimes que aconteciam dentro desses locais", diz Parca.

Mas, assim como Twinkle e outros pedófilos da dark web, o brasileiro falava pouco de si na plataforma, dificultando sua identificação.

Até que, após vários meses de investigações, seu nome real foi finalmente descoberto.

Um homem com o rosto borrado por ferramentas digitais está sentado, com uma parede e porta amarelas ao fundo. Ele é interrogado por um homem que veste luvas e boné.
Polícia Federal do Brasil
Lubasa (rosto borrado, à esq.) é interrogado por policial no momento de sua prisão.

As cenas da captura de Lubasa, em 2019, são reveladas pela primeira vez no documentário da BBC, assim como os detalhes de seu caso, que passaram vários anos sob sigilo.

Sete anos depois, a polícia avalia que a divulgação das informações já não compromete outras investigações nem a busca por outros criminosos associados a Lubasa.

"Ele ficou surpreso, apático, calado, como se aquilo fosse inacreditável", lembra Parca sobre o dia da prisão. "Ele acreditava que era inatingível."

Hoje, Lubasa cumpre pena de 266 anos de prisão no Brasil.

Ao capturá-lo, em meio a uma grande quantidade de lixo e sujeira na sua casa, a polícia encontrou os servidores que mantinham seus cinco fóruns de pedofilia no ar — máquinas avaliadas em vários milhares de reais.

Foi a maior apreensão de arquivos da dark web na história, segundo a coalizão de policiais.

Os arquivos foram compartilhados com as polícias que compunham a coalizão e com a Interpol, maior organização policial do mundo que reune 196 países para facilitar a cooperação global e o intercâmbio seguro de dados sobre crimes.

Com base nos documentos, centenas de usuários dos fóruns de Lubasa foram identificados e presos em diferentes países. Entre os detidos, havia pessoas que produziam materiais de abusos e outras que viam e assistiam aos conteúdos.

"Mesmo que a pessoa não tenha tido contato direto com crianças, ela é a razão da existência desses sites", diz Greg Squire, do Departamento de Segurança Interno dos EUA.

"Essas pessoas criam a demanda e incentivam aqueles que têm acesso a crianças."

Uma mulher de pijama tem o rosto iluminado por um laptop; ela apoia as mãos no rosto, pensativa.
BBC
Gordana Vujisic, investigadora da Interpol com experiência em casos de abuso de crianças.

Menino foi resgatado na Rússia

Os arquivos apreendidos com Lubasa provocaram uma reviravolta em um caso que chocou a Rússia, em 2020.

Fazia 52 dias que a polícia russa procurava um menino de 7 anos sequestrado enquanto voltava da escola, em uma zona rural. Acompanhadas com destaque pela imprensa russa, as buscas envolveram milhares de voluntários e agentes de diferentes forças de segurança.

Fazendas e armazéns abandonados foram examinados, e as equipes esmiuçaram o trajeto do menino em busca de algum rastro. Mas, sem pistas significativas após várias semanas, a polícia suspendeu a operação e passou a considerar que o garoto tinha sido morto pelo sequestrador.

Enquanto isso, o agente Greg Squire viu em um fórum na dark web fotos de um menino "loiro, claramente em sofrimento", que se parecia com o garoto russo desaparecido.

As fotos haviam sido postadas por um usuário conhecido como Lover Boy Only (LBO), que já era monitorado por Greg. O agente lembra que LBO já havia dito nos fóruns que tinha planos de sequestrar e matar um menino.

Squire pediu então a ajuda de Gordana Vujisic, uma investigadora da Interpol em Montenegro, país da região dos Balcãs, com grande experiência em casos de abuso sexual infantil — e falante de russo.

"Estávamos todos em fusos horários diferentes, mas, mesmo sendo noite nos Estados Unidos ou na Rússia, quando eu enviava uma mensagem, recebia uma resposta imediatamente", ela lembra.

"Nem sequer pensávamos em dormir."

Os policiais temiam que LBO concretizasse o plano de matar o menino. "A vida dele estava em nossas mãos", diz a policial.

Vujisic então passou a se debruçar sobre os arquivos apreendidos durante a captura de Lubasa, em busca de alguma pista sobre a identidade de LBO.

Dentre as milhares de mensagens e fotos postadas pelo criminoso nos fóruns geridos por Lubasa, ela encontrou três informações que poderiam destravar as investigações: em diferentes conversas, LBO citou o local de trabalho do irmão, disse que sua mãe tinha morrido em um acidente de carro e que ele sofria de esquizofrenia.

Ao cruzar as informações, a polícia chegou ao nome de Dimitriy Kopylov e mobilizou uma equipe de resgate para vasculhar sua residência.

Chegando lá, arrombaram portas e janelas e encontraram Kopylov com o menino — vivo.

O garoto foi devolvido a seus pais, e Kopylov, condenado a 19 anos de prisão.

Uma casa de madeira nas cores verde e amarela, ladeada por plantas. O vidro de uma das janelas está quebrado, e a cobertura parece enferrujada.
BBC
Casa onde sequestrador russo mantinha menino capturado enquanto voltava da escola.

Ciclo sem fim

Desde 2018 dedicada a investigações de abuso sexual de crianças, a delegada Rafaella Parca diz que, nesse campo, o fim de um caso significa o início de outro.

As provas colhidas em uma investigação muitas vezes levam a outros suspeitos, alimentando um ciclo que nunca se encerra.

Em nenhum caso isso foi tão verdadeiro quanto no de Lubasa, diz Parca.

"A gente sabia que aquela prisão seria o início de outras coisas, [ficou] uma sensação de que o trabalho estava recomeçando a partir dali", afirma a delegada.

Mesmo assim, Parca diz conseguir desfrutar do momento ínfimo que separa o fim de um caso do começo do seguinte.

"A gente sofre tanto até conseguir resolver, e quando a gente resolve, resgata uma criança ou prende o abusador, é algo libertador", diz a delegada.

"Você vê o resultado imediato, você muda a vida de uma criança, de uma família, de um círculo de pessoas, e isso é indescritível."

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BBC
João Fellet - Da BBC News Brasil
postado em 20/02/2026 05:41 / atualizado em 20/02/2026 06:43
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